{"id":252,"date":"2009-08-16T12:00:33","date_gmt":"2009-08-16T17:00:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=252"},"modified":"2009-08-16T12:00:33","modified_gmt":"2009-08-16T17:00:33","slug":"entre-as-ruinas-de-jerico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/16\/entre-as-ruinas-de-jerico\/","title":{"rendered":"Artaban, o escriba"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\">No m\u00ednimo um tipo estranho, era o que dele se poderia dizer. Uma dessas pessoas para quem tudo na vida tem um sentido. Por causa disso, certa vez, ao participar de uma palestra, fora-lhe imputada a pecha de tipo medieval. Sim, tipo medieval. Por acreditar que n\u00e3o h\u00e1 acaso, mas apenas necessidade, deixava-se levar mais ou menos aleatoriamente pelos fatos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Mas lia os sinais. Sim, muito cedo na vida ainda aprendera a ler os sinais. Ou, pelo menos, o que supunha fossem sinais. Parecia farejar com o corpo. Sabia onde devia estar pelas sensa\u00e7\u00f5es experimentadas no pr\u00f3prio corpo. Seu corpo era algo assim como um p\u00eandulo oscilando entre estados de bem-estar e mal-estar. Uma ou outra sensa\u00e7\u00e3o dizia-lhe quando e onde devia permanecer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">O necess\u00e1rio sempre acontece, pensava. E, por isso, deixava-se conduzir lendo os tais sinais, que eram como que setas que lhe indicavam o caminho por onde devia trafegar. Foi assim, por exemplo, quando decidiu escrever. Aconteceu durante uma peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra Santa. Em Jeric\u00f3, sentado sobre uma pedra entre as ru\u00ednas \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, que o fez lembrar a figura b\u00edblica de Zaqueu, um colega de grupo aproximou-se e, observando-o enquanto fazia anota\u00e7\u00f5es, exclamou: <em>O escriba da corte!<\/em> Naquele momento ele acreditou que era, de fato, um escriba, n\u00e3o sabia exatamente de que corte, mas, enfim, um escriba.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Passaram-se dois anos. Ent\u00e3o, decidiu que era chegado o momento de come\u00e7ar a exercitar o of\u00edcio de escriba. Foi num s\u00e1bado pela manh\u00e3. Despertou com a id\u00e9ia: escreveria pequenos textos sem um plano pr\u00e9vio. Apenas partiria de uma id\u00e9ia inicial e se deixaria guiar ao sabor da inspira\u00e7\u00e3o do momento. Come\u00e7ou a ponderar sobre os poss\u00edveis t\u00edtulos com que reuniria os textos. Lembrou-se, ent\u00e3o, do epis\u00f3dio de Jeric\u00f3.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Fiat lux! Um lampejo brilhou em sua mente. O t\u00edtulo estava ali, com todas as palavras: O ba\u00fa do escriba. Que belo t\u00edtulo, pensou, al\u00e9m do que recende a coisas de antanho, a mist\u00e9rio, a coisas guardadas. Mais tarde, ainda na manh\u00e3 daquele s\u00e1bado, ao sair para a rua, de repente, aconteceu-lhe um fato ins\u00f3lito. Bem, n\u00e3o t\u00e3o ins\u00f3lito, pois que ele h\u00e1 muito j\u00e1 se habituara a fatos daquela natureza.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Acontece que se postara por alguns momentos encostado a uma parede numa das pra\u00e7as da cidade quando eis que passa, diante de si, um homem com uma crian\u00e7a nos bra\u00e7os e outra um pouco maior que segue adiante a passos r\u00e1pidos. O homem, agitado e em tom visivelmente irritado, grita para a crian\u00e7a que segue \u00e0 sua frente: <em>Zaqueu, volta aqui Zaqueu!<\/em> Pronto, foi o suficiente. N\u00e3o restava mais d\u00favida. Ele devia mesmo dar trela ao projeto de come\u00e7ar a escrever os textos para <em>O ba\u00fa do escriba<\/em>. N\u00e3o era sobre o epis\u00f3dio de Jeric\u00f3 que ele havia pensado escrever inicialmente? Ele n\u00e3o tinha rememorado a figura de Zaqueu? E n\u00e3o estava ali, bem \u00e0 sua frente, um Zaqueu, logo diante dele, que nunca antes conhecera algu\u00e9m com este nome a n\u00e3o ser o Zaqueu b\u00edblico?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Alguns dias depois, na quarta-feira, para ser mais exato, o que faltava ao t\u00edtulo para ficar completo foi-lhe revelado. Tratava-se do dono do ba\u00fa. Pois eis que assim de repente, num \u00e1timo, ele se lembrou de Artaban. Sim, sim, claro, Artaban, o Velho S\u00e1bio, a figura arquet\u00edpica com quem dialogara durante tantos anos. Lembrou que havia at\u00e9 livros em que tinha escrito o nome desta figura. Era como se Artaban fosse para ele uma esp\u00e9cie de <em>alter ego<\/em>. Ent\u00e3o tudo estava posto para que come\u00e7asse a escrever. Os textos seriam englobados num conjunto intitulado <em>O ba\u00fa do escriba Artaban<\/em>. Depois que finalizou o t\u00edtulo, congratulou-se consigo mesmo pelo feito. Aquele era um homem fadado a viver os sinais.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No m\u00ednimo um tipo estranho, era o que dele se poderia dizer. Uma dessas pessoas para quem tudo na vida tem um sentido. Por causa&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":["post-252","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-23-o-bau-do-escriba-artaban"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=252"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/252\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=252"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=252"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=252"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}