{"id":2583,"date":"2010-11-17T06:40:01","date_gmt":"2010-11-17T09:40:01","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2583"},"modified":"2010-11-17T06:40:01","modified_gmt":"2010-11-17T09:40:01","slug":"o-enigma-clarice-lispector-segundo-benjamin-moser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/11\/17\/o-enigma-clarice-lispector-segundo-benjamin-moser\/","title":{"rendered":"O enigma Clarice Lispector segundo Benjamin Moser"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-2584\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/o-enigma-clarice-lispector-segundo-benjamin-moser\/clarice-ispector_1\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-2584\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/11\/Clarice-ispector_1-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Ela emergiu do mundo dos judeus da Europa Oriental, um mundo de homens santos e milagres que j\u00e1 havia experimentado seus primeiros an\u00fancios de dana\u00e7\u00e3o. Trouxe a ardente voca\u00e7\u00e3o religiosa daquela sociedade agonizante para um novo mundo, um mundo em que Deus estava morto. Como Kafka, ela se desesperou; mas, \u00e0 diferen\u00e7a de Kafka, acabou, de modo atormentado, bracejando em busca do Deus que a abandonara. Narrou sua busca em termos que, como os de Kafka, apontavam necessariamente para o mundo que ela deixara para tr\u00e1s, descrevendo a alma de uma m\u00edstica judaica que sabe que Deus est\u00e1 morto, mas que, no tipo de paradoxo que perpassa toda a sua obra, est\u00e1 determinada a encontr\u00e1-Lo mesmo assim.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">A alma exposta em sua obra \u00e9 a alma de uma mulher s\u00f3, mas dentro dela encontramos toda a gama da experi\u00eancia humana. Eis por que Clarice Lispector j\u00e1 foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e crist\u00e3, bruxa e santa, homem e l\u00e9sbica, crian\u00e7a e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa. Por ter descrito tanto de sua experi\u00eancia \u00edntima, ela podia ser convincentemente tudo para todo mundo, venerada por aqueles que encontravam em seu g\u00eanio expressivo um espelho da pr\u00f3pria alma. Como ela disse, \u201ceu sou v\u00f3s mesmos\u201d.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Benjamin Moser<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Moser, Benjamin.<\/em> <strong>Clarice, uma biografia<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Geraldo Couto. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 16.]<\/em>\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Dando prosseguimento \u00e1s <em>rodas de conversa<\/em> que vem realizando quinzenalmente em parceria com a Livraria Cultura, no audit\u00f3rio desta, o Jornal O Povo promove nesta quarta-feira, \u00e0s 19 horas, um bate-papo com Benjamin Moser, autor do livro \u201cClarice,\u201d. A conversa ser\u00e1 mediada pelo jornalista Dellano Rios.<\/p>\n<p>Fiquei euf\u00f3rico quando soube do evento. Apaixonado pelos escritos de Clarice Lispector e por tudo o que lhe diz respeito, nunca perco a oportunidade de incorporar \u00e0 minha biblioteca qualquer novo livro que seja publicado sobre a escritora. Assim, t\u00e3o logo soube da publica\u00e7\u00e3o da biografia escrita por Benjamin Moser, em 2009, tratei logo de adquiri-la. Agora teremos a oportunidade de ter em Fortaleza o autor para falar ao vivo sobre sua biografada.<\/p>\n<div id=\"attachment_2592\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a rel=\"attachment wp-att-2592\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/o-enigma-clarice-lispector-segundo-benjamin-moser\/benjamin-moser-3\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2592\" class=\"size-full wp-image-2592\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/11\/Benjamin-Moser2.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/11\/Benjamin-Moser2.jpg 200w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/11\/Benjamin-Moser2-120x180.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2592\" class=\"wp-caption-text\">Benjamin Moser<\/p><\/div>\n<p>Benjamin Moser \u00e9 um escritor norte-americano apaixonado por Clarice Lispector. Para escrever a biografia da escritora\u00a0brasileira\u00a0(deixemos de lado as quest\u00f5es quanto \u00e0 origem ucraniana da autora), passou cinco anos percorrendo as diversas cidades por onde passou Clarice, uma vez que ela, tendo casado com um diplomata, viveu em diversos pa\u00edses. De suas andan\u00e7as e leituras resultou um livro muito bem fundamentado, que esmi\u00fa\u00e7a, simultaneamente, a vida e a obra da escritora. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro, escrito originalmente em ingl\u00eas, \u00e9 \u201cWhy this wordl\u201d. Na tradu\u00e7\u00e3o brasileira, embora na ficha catologr\u00e1fica conste o t\u00edtulo \u201cClarice, uma biografia\u201d, na capa aparece apenas \u201cClarice,\u201d ou seja, \u201cClarice v\u00edrgula\u201d. N\u00e3o sei se foi essa a ideia, mas considerei t\u00e3o pertinente quanto inspirado o t\u00edtulo adotado, pois a vida de Clarice Lispector n\u00e3o comporta um ponto final.<\/p>\n<p>Na Introdu\u00e7\u00e3o da biografia, com muita propriedade intitulada <em>A Esfinge<\/em>, Benjamin Moser escreveu: <em>Quando morreu, em 1977, Clarice Lispector era uma das figuras m\u00edticas do Brasil, a Esfinge do Rio de Janeiro, uma mulher que fascinava os brasileiros praticamente desde a adolesc\u00eancia. (&#8230;) \u00b4Clarice Lispector\u00b4 j\u00e1 chegou a ser considerado um pseud\u00f4nimo, e seu nome original s\u00f3 foi conhecido depois da sua morte. Onde exatamente ela nasceu e quantos anos tinha tamb\u00e9m eram pontos pouco claros. Sua nacionalidade era questionada, e a identidade de sua l\u00edngua nativa era obscura. Uma autoridade atestar\u00e1 que era de direita, e outra, que era comunista. Uma insistir\u00e1 que era uma cat\u00f3lica devota, embora na verdade fosse judia. <\/em><\/p>\n<p><em>O que torna t\u00e3o peculiar essa teia de contradi\u00e7\u00f5es \u00e9 que Clarice Lispector n\u00e3o \u00e9 uma figura nebulosa, conhecida a partir de fragmentos de antigos papiros. Ela morreu h\u00e1 pouco mais de trinta anos. Muitas das pessoas que a conheceram bem ainda est\u00e3o vivas. Foi algu\u00e9m de destaque praticamente desde a adolesc\u00eancia, sua vida foi documentada \u00e0 exaust\u00e3o na imprensa, e deixou uma extensa correspond\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda assim, poucos grandes artistas modernos s\u00e3o, em ess\u00eancia, t\u00e3o pouco familiares quanto ela. Como pode permanecer t\u00e3o enigm\u00e1tica uma pessoa que viveu numa grande cidade do Ocidente, no meio do s\u00e9culo XX, que deu entrevistas, morou em grandes pr\u00e9dios de apartamentos e viajou de avi\u00e3o?<\/em> (p. 12ss.).<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se terei oportunidade, mas, caso o tenha, estou indo para o bate-papo com Benjamin Moser munido de uma pergunta que pretendo fazer ao autor: vou perguntar a ele se, depois de tantos anos de leituras e pesquisas, depois de todo o seu percurso pelo universo clariceano, ele considera ter desvendado o enigma, o melhor, a esfinge, Clarice Lispector.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela emergiu do mundo dos judeus da Europa Oriental, um mundo de homens santos e milagres que j\u00e1 havia experimentado seus primeiros an\u00fancios de dana\u00e7\u00e3o. Trouxe a ardente voca\u00e7\u00e3o religiosa daquela sociedade agonizante para um novo mundo, um mundo em que Deus estava morto. Como Kafka, ela se desesperou; mas, \u00e0 diferen\u00e7a de Kafka, acabou, de modo atormentado, bracejando em busca do Deus que a abandonara. Narrou sua busca em termos que, como os de Kafka, apontavam necessariamente para o mundo que ela deixara para tr\u00e1s, descrevendo a alma de uma m\u00edstica judaica que sabe que Deus est\u00e1 morto, mas que, no tipo de paradoxo que perpassa toda a sua obra, est\u00e1 determinada a encontr\u00e1-Lo mesmo assim.<br \/>\nA alma exposta em sua obra \u00e9 a alma de uma mulher s\u00f3, mas dentro dela encontramos toda a gama da experi\u00eancia humana. Eis por que Clarice Lispector j\u00e1 foi descrita como quase tudo: nativa e estrangeira, judia e crist\u00e3, bruxa e santa, homem e l\u00e9sbica, crian\u00e7a e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa. Por ter descrito tanto de sua experi\u00eancia \u00edntima, ela podia ser convincentemente tudo para todo mundo, venerada por aqueles que encontravam em seu g\u00eanio expressivo um espelho da pr\u00f3pria alma. Como ela disse, \u201ceu sou v\u00f3s mesmos\u201d.<br \/>\nBenjamin Moser<br \/>\n[Moser, Benjamin. Clarice, uma biografia. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Geraldo Couto. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 16.]  <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":2584,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-2583","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-04-efemerides-acontecimentos-lugares-e-pessoas"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2583\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2584"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}