{"id":2915,"date":"2010-12-26T15:42:55","date_gmt":"2010-12-26T18:42:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2915"},"modified":"2010-12-26T15:42:55","modified_gmt":"2010-12-26T18:42:55","slug":"corte-epistemologico-ou-a-desiluminacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/12\/26\/corte-epistemologico-ou-a-desiluminacao\/","title":{"rendered":"Corte Epistemol\u00f3gico ou A Desilumina\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 um Deus. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 um Deus que venha nos socorrer e sarar nossas feridas nos momentos periclitantes da vida. O homem, em sua indig\u00eancia, ao longo de milhares de anos tem criado deuses e mais deuses de acordo com suas necessidades e demandas. Tais deuses, admitamos, servem muito mais como consolo do que como intercessores eficazes na opera\u00e7\u00e3o de milagres ou solu\u00e7\u00e3o de demandas. As respostas eficazes \u00e0s s\u00faplicas dos devotos e fi\u00e9is, \u00e9 preciso dizer, s\u00e3o em n\u00famero reduzido, talvez muito mais frutos do acaso e de algumas converg\u00eancias de fatores fortuitos, do que qualquer outra coisa.<\/p>\n<p>H\u00e1 pelo menos um momento na vida em que o homem experimenta o sentido existencial de ser absolutamente s\u00f3 no mundo. Este momento \u00e9 proporcionado pela experi\u00eancia da dor. Quando a grande dor adv\u00e9m, ele \u00e9 for\u00e7ado a admitir que n\u00e3o h\u00e1 nada mais solit\u00e1rio do que isso, a dor \u2013 essa, somente o pr\u00f3prio indiv\u00edduo pode experimentar, ela \u00e9 intransfer\u00edvel. Mas pior do que a inevit\u00e1vel certeza de que ela \u00e9 intransfer\u00edvel, n\u00e3o podendo mesmo ser partilhada com mais ningu\u00e9m, \u00e9 ter que admitir que n\u00e3o adianta clamar por ajuda seja de que natureza for. \u00c9 o momento da grande, da incomensur\u00e1vel solid\u00e3o do ser, ocasi\u00e3o em que ele se experimenta sozinho diante do grande sil\u00eancio do Universo, ou do grande sil\u00eancio de Deus, se assim preferirem.<\/p>\n<p>Em assim sendo, o que nos resta? Resta a certeza de que caminhamos na terra como filhos da Terra. Palmilhamos no nosso cotidiano uma estrada concreta demais e as li\u00e7\u00f5es e evid\u00eancias s\u00e3o t\u00e3o claras que,\u00a0 chegados a uma certa etapa do caminho, se torna dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel, seguir alimentado certas ilus\u00f5es sem que tenhamos que admitir que estamos enganando a n\u00f3s mesmos. H\u00e1 um momento em que o indiv\u00edduo \u00e9 convidado, ou melhor, \u00e9 chamado a um confronto consigo mesmo. \u00c9, ent\u00e3o, que todas as m\u00e1scaras devem cair. Devemos tir\u00e1-las uma a uma, de forma que, no final, ao fitarmos o espelho diante do qual nos postamos, n\u00e3o tenhamos nada mais que nossa pr\u00f3pria face, a qual, olhos nos olhos, dever\u00e1 ser fitada com a mais firme coragem e frieza.<\/p>\n<p>Ao redigir este texto, ainda ensaio os primeiros passos e, por isso, ainda me deixo conduzir \u00e0s apalpadelas, escolhendo as palavras para dizer o necess\u00e1rio e, neste momento, imprescind\u00edvel \u00e0 minha honestidade comigo mesmo. Porque tudo isso \u00e9 muito novo e, por que n\u00e3o admitir, at\u00e9 certo ponto assustador. N\u00e3o se abre m\u00e3o levianamente do que por d\u00e9cadas sustentou nossas verdades. \u00c9 como sentir-se, de repente, de m\u00e3os vazias, quando se trazia, pouco antes, uma bra\u00e7ada de verdades que nos sustinham.<\/p>\n<p>Verdades convenientes, \u00e9 bom que se diga, mas, ainda assim, verdades, uma vez que at\u00e9 ent\u00e3o se vivera delas, nelas e por elas. Vislumbra-se, ent\u00e3o, um horizonte vasto e inexplorado, que \u00e9 preciso descobrir pouco a pouco. Descobrir, ou mesmo inventar uma nova linguagem \u00e9 o primeiro desafio quanto se experimenta na vida algo que pode ser qualificado como sendo da ordem de um corte epistemol\u00f3gico.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso precisar ainda at\u00e9 que ponto ou qu\u00e3o longe pode ir uma pessoa na supera\u00e7\u00e3o de antigas verdades e sua consequente substitui\u00e7\u00e3o por outras. Esse \u00e9 um processo eminentemente existencial, portanto, experiencial, donde se conclui que \u00e9 um caminho que se vai fazendo ao caminhar. Tamb\u00e9m n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel delimitar as fronteiras entre o antigo e o novo, n\u00e3o podendo dizer ao certo o que \u00e9 verdadeiramente um corte ou o que \u00e9 apenas continuidade, com a assun\u00e7\u00e3o de uma mesma verdade disfar\u00e7ada com novas roupagens. \u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que mora o perigo quando se fala de corte epistemol\u00f3gico. Em se tratando de verdades que tem um valor mais subjetivo que objetivo, fica dif\u00edcil dizer em que medida \u00a0pode ser operado, de fato, um corte. \u00a0Num corte epistemol\u00f3gico o que est\u00e1 em jogo \u00e9 uma mudan\u00e7a absoluta de paradigmas, e isso n\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil, muito pelo contr\u00e1rio. Quem duvidar que ouse tentar e n\u00e3o tardar\u00e1 a concordar com o que afirmo.<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 preciso advertir que essa \u00e9 uma experi\u00eancia que n\u00e3o pode ser decidida racionalmente, ocorrendo, antes, em fun\u00e7\u00e3o de um fato marcante e avassalador, que n\u00e3o deixa outra alternativa que n\u00e3o a de mudar o percurso que v\u00ednhamos seguindo, mesmo que tal mudan\u00e7a implique em assumir como pressuposto e meta exatamente o contr\u00e1rio do que se vinha, at\u00e9 ent\u00e3o, buscando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 um Deus. N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 um Deus que venha nos socorrer e sarar nossas feridas nos momentos periclitantes da vida. O homem, em sua indig\u00eancia, ao longo de milhares de anos tem criado deuses e mais deuses de acordo com suas necessidades e demandas. 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