{"id":292,"date":"2009-08-03T06:21:21","date_gmt":"2009-08-03T11:21:21","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=292"},"modified":"2009-08-03T06:21:21","modified_gmt":"2009-08-03T11:21:21","slug":"e-dificil-sentir-se-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/03\/e-dificil-sentir-se-brasileiro\/","title":{"rendered":"\u00c9 dif\u00edcil sentir-se brasileiro?"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">H\u00e1 essa dificuldade inerente em ser brasileiro: temos de devorar-digerir-regurgitar, criar uma perspectiva pr\u00f3pria e adaptada \u00e0 nossa realidade.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Luiz Antonio Aguiar<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">\u00a0<\/span><\/em><em><span style=\"color: #000080\">[Almanaque Machado de Assis: vida, obra, curiosidades e bruxarias liter\u00e1rias. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 212.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o, mais que nunca se faz necess\u00e1rio refletir sobre o que nos faz brasileiros. Penso que nunca ser\u00e1 demais insistir no tema. A quest\u00e3o me toca de tal maneira e com tamanha veem\u00eancia que, quando idealizei este blog, a convite da dire\u00e7\u00e3o do Jornal O POVO, decidi que iniciaria sempre a semana refletindo sobre o tema.<\/p>\n<p>No trecho citado aqui em ep\u00edgrafe, extra\u00eddo do livro que Luiz Antonio Aguiar escreveu sobre Machado de Assis, ali\u00e1s, t\u00e3o informativo quanto agrad\u00e1vel de ler, o autor se refere ao que seria uma certa <em>dificuldade inerente em ser brasileiro<\/em>. Partindo-se do pressuposto de que a afirma\u00e7\u00e3o \u00e9, de fato, express\u00e3o da verdade, caberia indagar onde estaria a origem, ou melhor, qual seria a causa, dessa poss\u00edvel dificuldade.<\/p>\n<p>Parece que, por algum motivo, temos uma certa, ali\u00e1s, melhor seria dizer, uma acentuada mania de estrangeirismos. Causa-me enorme tristeza passar por uma loja e ver a vitrine estampando enormes frases em ingl\u00eas. Tenho observado que isso tem se tornado pr\u00e1tica comum nos shopping centers. Parece que estas modernas catedrais do consumo, mais comumente frequentadas pela pequena e m\u00e9dia burguesia, encontra no mecanismo da ado\u00e7\u00e3o de estrangeirismos um forte apelo ao consumo. \u00c9 como se uma loja, ao estampar na vitrine <em>50% off<\/em>, ao inv\u00e9s de <em>descontos de 50%<\/em>, forma pr\u00f3pria da l\u00edngua portuguesa, estivesse afirmando sua sofistica\u00e7\u00e3o, ou, para usar a linguagem mais popular, sendo chique.<\/p>\n<p>Os que assim procedem, desvalorizam ou menosprezam o que \u00e9 nosso, a come\u00e7ar pela nossa l\u00edngua, primeiro patrim\u00f4nio de um povo e condi\u00e7\u00e3o primordial de afirma\u00e7\u00e3o da identidade de uma na\u00e7\u00e3o. Lembre-se, a guisa de exemplo, o que vem acontecendo no Tibete. Na\u00e7\u00e3o soberana at\u00e9 1959, ano em que foi invadido pela China, o Tibete tem que conviver hoje com a ado\u00e7\u00e3o for\u00e7ada da l\u00edngua chinesa como idioma oficialmente ensinado nas escolas tibetanas. Foi uma das formas que a China encontrou de dizimar a cultura daquele povo vilmente mantido sob o dom\u00ednio estrangeiro.<\/p>\n<p>No Brasil, de forma n\u00e3o declarada, um certo dom\u00ednio estrangeiro tamb\u00e9m \u00e9 mantido. A propaganda maci\u00e7a \u00e9 uma das respons\u00e1veis por esse dano causado \u00e0 nossa cultura. O consumo de uma cultura estrangeira, que se reflete na forma de vestir, no tipo de m\u00fasica que \u00e9 executada nas emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o, no consumo maci\u00e7o de produtos importados, vai gradativamente solapando as bases da cultura genuinamente nacional. Sem que o percebamos, vamos mudando gradativamente os nossos h\u00e1bitos. At\u00e9 que nos apercebemos que estamos nos comportando de forma diferente. O que poderia ter sido apenas um modismo ocasional instala-se como h\u00e1bito, e passa a fazer parte da nossa natureza.<\/p>\n<p>Mais que nunca \u00e9 preciso envidar esfor\u00e7os no sentido de resistir aos apelos, especialmente aos apelos do mercado, que, sob a l\u00f3gica do lucro, invade e permeia todos os espa\u00e7os. O americanismo hoje invade os nossos lares impiedosamente, sem que o percebamos. De forma subliminar somos levados a adotar, \u00e0 revelia de n\u00f3s mesmos, um estilo de vida que nada tem a ver com o nosso jeito brasileiro de ser, com o nosso paradigma cultural. A educa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das escolas, poderia desempenhar um papel muito importante no sentido de fomentar na crian\u00e7a e no adolescente o amor e o orgulho de ser brasileiro, mas isso \u00e9 assunto para uma pr\u00f3xima oportunidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 essa dificuldade inerente em ser brasileiro: temos de devorar-digerir-regurgitar, criar uma perspectiva pr\u00f3pria e adaptada \u00e0 nossa realidade. 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