{"id":2920,"date":"2010-12-27T19:26:20","date_gmt":"2010-12-27T22:26:20","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2920"},"modified":"2010-12-27T19:26:20","modified_gmt":"2010-12-27T22:26:20","slug":"estetica-da-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/12\/27\/estetica-da-viagem\/","title":{"rendered":"Est\u00e9tica da viagem"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-2921\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/estetica-da-viagem\/teoria_da_viagem\/\"><\/a><a rel=\"attachment wp-att-2926\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/estetica-da-viagem\/teoria_da_viagem-2\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-2926\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/teoria_da_viagem-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>N\u00f3s mesmos, eis a grande quest\u00e3o da viagem. N\u00f3s mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente h\u00e1 muitos pretextos, ocasi\u00f5es e justificativas, mas em realidade s\u00f3 pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa pr\u00f3pria busca com o prop\u00f3sito, muito hipot\u00e9tico, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre \u00e9 suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma exist\u00eancia inteira, \u00e0s vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presen\u00e7a do que levanta um pouco o v\u00e9u do ser! Os trajetos dos viajantes coincidem sempre, em segredo, com buscas inici\u00e1ticas que p\u00f5em em jogo a identidade. Tamb\u00e9m a\u00ed o viajante e o turista se distinguem e se op\u00f5em radicalmente. Um n\u00e3o cessa de buscar e \u00e0s vezes encontra, o outro nada busca e, portanto, nada obt\u00e9m.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Michel Onfray<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Onfray, Michel.<\/em> <strong>Teoria da viagem: po\u00e9tica da geografia<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Neves. \u2013 Porto Alegre: L&amp;PM, 2009, p. 75]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Leio Michel Onfray por puro deleite. Esse\u00a0deleite teve in\u00edcio quando li, h\u00e1 dez anos, \u201cA arte de ter prazer: por um materialismo hedonista\u201d. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o parei mais de ler seus livros e \u00e9 sempre com muita expectativa que aguardo cada \u00a0nova tradu\u00e7\u00e3o sua para a l\u00edngua portuguesa. Em minha estante somam-se, no momento, onze livros de sua autoria. N\u00e3o preciso concordar com tudo o que ele diz, nem tampouco com sua vis\u00e3o de mundo, para tirar prazer de seus textos. Esse fil\u00f3sofo franc\u00eas apenas dois anos mais velho que eu, mas que j\u00e1 inclui em sua bibliografia mais de 30 t\u00edtulos publicados, escreve com uma fluidez e leveza tais que o leitor se deixa conduzir pelo texto sem qualquer esfor\u00e7o. Some-se a isso o fato de, pelo menos at\u00e9 o momento, ter encontrado no Brasil \u00f3timos tradutores.<\/p>\n<p>Michel Onfray nasceu na cidade de Argentan, na Fran\u00e7a, em 1959. Fez doutorado em ci\u00eancia pol\u00edtica e jur\u00eddica e lecionou num liceu particular de Caen de 1983 a 2002. Em 2002 criou a Universidade Popular de Caen, uma institui\u00e7\u00e3o de ensino heterodoxa onde ministra cursos frequentados por pessoas vindas de diversas partes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas semanas adquiri mais um livro seu, <em>Teoria da viagem: po\u00e9tica da geografia<\/em>. Quando soube da tradu\u00e7\u00e3o desse livro, pensei logo em procur\u00e1-lo, motivado especialmente pelo t\u00edtulo. Para quem ama viagens, como \u00e9 o meu caso, \u00e9 uma leitura do mais puro deleite. O livro \u00e9 todo lindo, pura poesia da primeira \u00e0 \u00faltima linha. Li-o em apenas dois dias, pois, uma vez aberta a primeira p\u00e1gina, n\u00e3o consegui mais larg\u00e1-lo at\u00e9 chegar \u00e0 \u00faltima.<\/p>\n<div id=\"attachment_2923\" style=\"width: 308px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a rel=\"attachment wp-att-2923\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/estetica-da-viagem\/michel-onfray\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2923\" class=\"size-full wp-image-2923\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/michel-onfray.jpg\" alt=\"\" width=\"298\" height=\"308\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/michel-onfray.jpg 298w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/michel-onfray-120x124.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2923\" class=\"wp-caption-text\">Michel Onfray<\/p><\/div>\n<p>Para falar de seu tema, Michel Onfray se vale de duas figuras b\u00edblicas que toma como tipos paradigm\u00e1ticos: Caim e Abel. O primeiro era pastor de rebanhos, portanto, n\u00f4made; o segundo era lavrador, e por esse motivo, sedent\u00e1rio. Est\u00e3o postos os dois tipos arquet\u00edpicos, dos quais diz o autor: \u201c&#8230;o pastor de rebanhos e o campon\u00eas lavrador, o homem dos animais em movimento contra o do campo que permanece. Os andarilhos, os vagabundos, os errantes, os que pastam, correm, viajam, vagueiam, flanam, palmilham, j\u00e1 e sempre em oposi\u00e7\u00e3o aos enraizados, aos im\u00f3veis, aos petrificados, aos erigidos em est\u00e1tua. A \u00e1gua dos riachos, corrente e inapreens\u00edvel, viva, contra a mineralidade das pedras mortas. O rio e a \u00e1rvore\u201d (p. 11).<\/p>\n<p>A leitura do cap\u00edtulo em que o autor trata do fato que pode assinalar o in\u00edcio de um projeto de viagem, me fez rememorar os dez anos que passei lendo <em>Autobiografia de um Iogue<\/em>, enquanto sonhava com o dia em que poria os p\u00e9s na cordilheira do Himalaia. Escreve Onfray:<\/p>\n<p>\u201cA viagem come\u00e7a numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de raz\u00f5es antes escondidas no corpo. No come\u00e7o do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domic\u00edlio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formula\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o, a concretiza\u00e7\u00e3o de uma escolha de destino. Todas as se\u00e7\u00f5es de uma biblioteca conduzem ao bom lugar: o desejo de ver um animal extravagante, uma borboleta rara, uma planta quase inencontr\u00e1vel, um veio geol\u00f3gico numa pedreira, a vontade de andar sob um c\u00e9u como o fez um poeta, tudo leva ao ponto do globo cujo sinal carregamos \u00e0s cegas\u201d (p. 25). \u00a0<\/p>\n<p>\u201cA leitura\u201d, \u00a0prossegue o fil\u00f3sofo, \u201cage como rito inici\u00e1tico, revela uma m\u00edstica pag\u00e3. O aumento do desejo desemboca a seguir num prazer refinado, elegante e singular\u201d. Viajar proporciona um prazer de tal magnitude, que ele chega a propor uma er\u00f3tica da viagem: \u201cA exist\u00eancia de um erotismo da viagem sup\u00f5e que se ultrapasse uma necessidade natural, a fim de suscitar a ocasi\u00e3o de regozijo artificial e cultural\u201d (p. 26). \u00a0<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se iluda, no entanto, pensando que viajar por viajar \u00e9 suficiente para proporcionar grandes conquistas, pois, conforme Onfray, confrontado com sua pr\u00f3pria indig\u00eancia numa terra estranha, dela o viajante s\u00f3 poder\u00e1 tirar aquilo que sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o existencial lhe faculta: \u00a0\u201cChegar a um lugar do qual tudo se ignora condena \u00e0 indig\u00eancia existencial. Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se \u00e9 portador. O vazio do viajante gera vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excel\u00eancia dela\u201d (p. 26).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00f3s mesmos, eis a grande quest\u00e3o da viagem. N\u00f3s mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente h\u00e1 muitos pretextos, ocasi\u00f5es e justificativas, mas em realidade s\u00f3 pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa pr\u00f3pria busca com o prop\u00f3sito, muito hipot\u00e9tico, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre \u00e9 suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma exist\u00eancia inteira, \u00e0s vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presen\u00e7a do que levanta um pouco o v\u00e9u do ser! Os trajetos dos viajantes coincidem sempre, em segredo, com buscas inici\u00e1ticas que p\u00f5em em jogo a identidade. Tamb\u00e9m a\u00ed o viajante e o turista se distinguem e se op\u00f5em radicalmente. Um n\u00e3o cessa de buscar e \u00e0s vezes encontra, o outro nada busca e, portanto, nada obt\u00e9m.<br \/>\nMichel Onfray<br \/>\n[Onfray, Michel. Teoria da viagem: po\u00e9tica da geografia. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo Neves. \u2013 Porto Alegre: L&amp;PM, 2009, p. 75]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":2926,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2920","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2920","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2920"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2920\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2926"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2920"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2920"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2920"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}