{"id":2930,"date":"2010-12-28T08:54:45","date_gmt":"2010-12-28T11:54:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2930"},"modified":"2010-12-28T08:54:45","modified_gmt":"2010-12-28T11:54:45","slug":"o-ainda-desconhecido-mundo-da-alquimia-judaica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/12\/28\/o-ainda-desconhecido-mundo-da-alquimia-judaica\/","title":{"rendered":"O (ainda) desconhecido mundo da alquimia judaica"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/o-ainda-desconhecido-mundo-da-alquimia-judaica\/os-alquimistas-judeus\/\" rel=\"attachment wp-att-2945\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-2945\" alt=\"\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/Os-Alquimistas-Judeus-135x150.jpg\" width=\"135\" height=\"150\" \/><\/a>Embora n\u00e3o haja consenso sobre a quest\u00e3o de sua origem, se a alquimia surgiu primeiro na China ou no Egito do per\u00edodo helen\u00edstico, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, no mundo ocidental, sua tradi\u00e7\u00e3o remonta a este \u00faltimo local e \u00e9poca e que o grego foi a primeira l\u00edngua em que os textos alqu\u00edmicos foram elaborados. Assim, \u00e9 curioso que, desde seu in\u00edcio, a alquimia helen\u00edstica estivesse imbu\u00edda da cren\u00e7a de que devia sua origem a uma ci\u00eancia sagrada e secreta de tradi\u00e7\u00e3o judaica, ou hebraica. Uma das formas assumidas por essa cren\u00e7a, mas sem nenhuma comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, era a cria\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e9-hist\u00f3ria b\u00edblica e m\u00edtica para a alquimia; uma outra era a frequentemente proclamada, mas historicamente n\u00e3o comprovada, afirma\u00e7\u00e3o de que os judeus eram os \u00fanicos que estavam na posse de um verdadeiro conhecimento alqu\u00edmico.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Por outro lado, existe comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que, em meio aos alquimistas do per\u00edodo helen\u00edstico, havia v\u00e1rios adeptos judeus, um dos quais Maria, a Judia, considerada por eles como a fundadora de sua arte. Z\u00f3zimo e outros constantemente se referem a Maria como a autoridade suprema, tanto em termos da teoria quanto da pr\u00e1tica da alquimia, e seus ensinamentos, em muitos casos na forma de concisos aforismos, s\u00e3o citados como se fossem pronunciamentos prof\u00e9ticos.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Raphael Patai<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Patai, Raphael.<\/em> <strong>Os alquimistas judeus: um livro de hist\u00f3ria e fontes<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Maria Clara Cescato e Diana Souza Pereira. \u2013 S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2009, p. 99. \u2013 (Perspectivas \/ dire\u00e7\u00e3o J. Guinsburg)]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Conforme afirma Raphael Patai, \u201cOs estudiosos que escrevem sobre a alquimia est\u00e3o longe de concordar sobre o que ela realmente \u00e9 (ou era)\u201d (p. 27). Para alguns, ela seria apenas a tentativa de transformar metais em outro. Para outros, por\u00e9m, entre os quais sobressai o psiquiatra su\u00ed\u00e7o Carl Gustav Jung, a alquimia seria uma met\u00e1fora para a busca mais profunda do indiv\u00edduo. Nessa perspectiva, ela teria uma conota\u00e7\u00e3o verdadeiramente espiritual.<\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos muita coisa tem sido escrita sobre a alquimia, tanto no Ocidente quanto no Oriente. O assunto, por\u00e9m, parece inesgot\u00e1vel, dotado que \u00e9 de forte apelo \u00e0 curiosidade humana, tendo em vista o mist\u00e9rio em que muitas de suas pr\u00e1ticas est\u00e3o envoltas. Para os interessados pelo assunto, entre os quais me incluo, merece especial men\u00e7\u00e3o a publica\u00e7\u00e3o em l\u00edngua portuguesa, h\u00e1 pouco mais de um ano, de uma obra grandiosa escrita pelo erudito judeu Rapahel Patai, <em>Os alquimistas judeus<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_2946\" style=\"width: 156px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/o-ainda-desconhecido-mundo-da-alquimia-judaica\/raphael-patai-2\/\" rel=\"attachment wp-att-2946\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2946\" class=\"size-full wp-image-2946\" alt=\"\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/Raphael-Patai1.jpg\" width=\"146\" height=\"202\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/Raphael-Patai1.jpg 146w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/Raphael-Patai1-120x166.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 146px) 100vw, 146px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2946\" class=\"wp-caption-text\">Raphael Patai<\/p><\/div>\n<p>Raphael Patai (1910-1996) nasceu em Budapeste, na Hungria, filho de um proeminente erudito, editor e militante sionista. Estudou em semin\u00e1rios rab\u00ednicos na Universidade de Budapeste e Breslaw, doutorando-se em 1933 em l\u00ednguas sem\u00edticas e hist\u00f3ria oriental. Estabeleceu-se na Palestina e realizou novo doutorado em 1936 em paleontologia. Lecionou na Universidade Hebraica de Jerusal\u00e9m e no Technion de Haifa. Em 1944, fundou o Instituto de Folclore e Etnologia da Palestina. Realizou importantes estudos sobre judeus no M\u00e8xico e, em 1952, fixou-se nos Estados Unidos onde lecionou em diversas universidades. Publicou diversas obras.<\/p>\n<p>Nesta que \u00e9 sua primeira obra traduzida no Brasil, o autor oferece um estudo vast\u00edssimo sobre as ra\u00edzes judaicas da alquimia. Ao longo de suas 868 p\u00e1ginas, a obra cobre um per\u00edodo que vai do primeiro s\u00e9culo antes de Cristo ao s\u00e9culo XIX de nossa era. A alquimia judaica guarda uma peculiaridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 que foi praticada em outros pa\u00edses especialmente pelo fato de estar diretamente imbricada com elementos de natureza religiosa. Assim, afirma Raphael Patai:<\/p>\n<p>\u201cOs alquimistas judeus, que como praticamente todos os judeus at\u00e9 o s\u00e9culo XIX praticavam a observ\u00e2ncia religiosa, viam na\u00a0alquimia uma d\u00e1diva concedida por Deus e, assim, consideravam a pr\u00e1tica da alquimia uma atividade religiosa que agradava a Deus. Como corol\u00e1rio dessa atitude, alguns alquimistas judeus sentiam que suas realiza\u00e7\u00f5es na Grande Arte n\u00e3o deviam ir al\u00e9m dos limites do povo judeu \u2013 uma das primeiras representantes dessa postura, como vimos, foi Maria, a Judia. Outros, embora n\u00e3o chegando a esse ponto, estavam convencidos de que os judeus, sendo herdeiros de uma tradi\u00e7\u00e3o cultural e religiosa ancestral \u2013 da qual a alquimia era uma parte e que inclu\u00eda a familiaridade com a l\u00edngua hebraica, a <em>B\u00edblia<\/em> e sua exegese, os preceitos orais e rituais judaicos e, a partir da Idade M\u00e9dia tardia, tamb\u00e9m a Cabala &#8211; , estavam muito mais bem equipados para se tornar mestres alquimistas que os gentios, que n\u00e3o dispunham dessa base essencial\u201d (p. 810).<\/p>\n<p>Essa forma de encarar a alquimia judaica teria levado diversos ocidentais a procurar os praticantes judeus na esperan\u00e7a de ser por eles iniciados na arte da alquimia, conforme conclui o autor: \u201c&#8230;dessa vis\u00e3o compartilhavam muitos alquimistas gentios, que estavam, dessa forma, dispostos a aprender o hebraico, estudar a <em>B\u00edblia<\/em> e investigar os mist\u00e9rios da Cabala e da <em>guem\u00e1tria<\/em>, assim como a procurar mentores judeus com os quais pudessem alcan\u00e7ar os verdadeiros e plenos padr\u00f5es do dom\u00ednio da alquimia\u201d (p. 811)<\/p>\n<p><em>Os Alquimistas Judeus<\/em> \u00e9 um daqueles livros que deve figurar entre as raridades na biblioteca de qualquer amante das artes ocultas. \u00c9, igualmente, uma obra eivada de textos que proporcionar\u00e1 aos amantes do ocultismo indiz\u00edvel prazer.\u00a0 Um que eu destacaria est\u00e1 citado no cap\u00edtulo dedicado ao alquimista judeu Abra\u00e3o Eleazar. O texto \u00e9 atribu\u00eddo por Eleazar a um certo Samuel Baruc que, ao que parece, \u00e9, na verdade, uma figura fict\u00edcia criada pelo primeiro. Transcrevo para os leitores um trecho, \u00a0\u00e0 guisa de conclus\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;) Mantenham escondidas essas maravilhas que Ad\u00e3o trouxe do Para\u00edso para consolo de seus descendentes, seus irm\u00e3os que s\u00e3o seus semelhantes. Por conseguinte, busquem na escurid\u00e3o sem ser vistos, na quietude. Quando o tiverem encontrado,\u00a0 n\u00e3o desamparem seus irm\u00e3os que est\u00e3o presos na necessidade, porque voc\u00eas devem ser um consolo para eles. Temam o Criador no grande <strong>????<\/strong> Adonai, permane\u00e7am puros \u00a0e com suas almas castas, ent\u00e3o voc\u00eas ser\u00e3o iguais \u00e0 subst\u00e2ncia (Wesen) dessas coisas, interiores, sagradas e maravilhosas, e da vida, do grande mundo, para que voc\u00eas realizem milagres, atravessem os rios a p\u00e9, atravessem montanhas e governem a luz do grande mundo. Sim, para que a terra se abale diante de voc\u00eas e as pedras tremam e caiam; porque o Senhor est\u00e1 com voc\u00eas. Levantem-se. E sejam s\u00e1bios e amem a <strong>???????<\/strong> [Tor\u00e1] e estejam [entre aqueles] <em>qui ingrediuntur &amp; operantur iustititam<\/em> [que entram em a\u00e7\u00e3o e servem \u00e0 justi\u00e7a sem m\u00e1culas]\u201d (p. 419).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora n\u00e3o haja consenso sobre a quest\u00e3o de sua origem, se a alquimia surgiu primeiro na China ou no Egito do per\u00edodo helen\u00edstico, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, no mundo ocidental, sua tradi\u00e7\u00e3o remonta a este \u00faltimo local e \u00e9poca e que o grego foi a primeira l\u00edngua em que os textos alqu\u00edmicos foram elaborados. Assim, \u00e9 curioso que, desde seu in\u00edcio, a alquimia helen\u00edstica estivesse imbu\u00edda da cren\u00e7a de que devia sua origem a uma ci\u00eancia sagrada e secreta de tradi\u00e7\u00e3o judaica, ou hebraica. Uma das formas assumidas por essa cren\u00e7a, mas sem nenhuma comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, era a cria\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e9-hist\u00f3ria b\u00edblica e m\u00edtica para a alquimia; uma outra era a frequentemente proclamada, mas historicamente n\u00e3o comprovada, afirma\u00e7\u00e3o de que os judeus eram os \u00fanicos que estavam na posse de um verdadeiro conhecimento alqu\u00edmico.<br \/>\nPor outro lado, existe comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de que, em meio aos alquimistas do per\u00edodo helen\u00edstico, havia v\u00e1rios adeptos judeus, um dos quais Maria, a Judia, considerada por eles como a fundadora de sua arte. Z\u00f3zimo e outros constantemente se referem a Maria como a autoridade suprema, tanto em termos da teoria quanto da pr\u00e1tica da alquimia, e seus ensinamentos, em muitos casos na forma de concisos aforismos, s\u00e3o citados como se fossem pronunciamentos prof\u00e9ticos.<br \/>\nRaphael Patai<br \/>\n[Patai, Raphael. Os alquimistas judeus: um livro de hist\u00f3ria e fontes. Tradu\u00e7\u00e3o Maria Clara Cescato e Diana Souza Pereira. \u2013 S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2009, p. 99. \u2013 (Perspectivas \/ dire\u00e7\u00e3o J. Guinsburg)]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":2945,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,39],"tags":[],"class_list":["post-2930","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo","category-36-a-luz-do-menora"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2930","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2930"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2930\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2945"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2930"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2930"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2930"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}