{"id":2966,"date":"2010-12-29T12:17:48","date_gmt":"2010-12-29T15:17:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2966"},"modified":"2010-12-29T12:17:48","modified_gmt":"2010-12-29T15:17:48","slug":"rumi-o-grande-sabio-dancante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/12\/29\/rumi-o-grande-sabio-dancante\/","title":{"rendered":"Rumi, o grande s\u00e1bio dan\u00e7ante"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/rumi-o-grande-sabio-dancante\/fihi-ma-fihi\/\" rel=\"attachment wp-att-2967\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-2967\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/12\/Fihi-ma-fihi-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Algu\u00e9m disse: \u201cMawlana n\u00e3o fala\u201d. Eu disse: \u201cFoi minha imagina\u00e7\u00e3o que atraiu essa pessoa; minha imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe diz: \u201cComo vais?\u201d ou \u201cComo est\u00e1s?\u201d Ela a atraiu sem palavras. Se \u00e9 dessa maneira que minha realidade atrai e conduz a outro lugar, o que h\u00e1 de espantoso nisso? A palavra \u00e9 a sombra da realidade e seu complemento. Se a sombra atrai, a realidade atrai mais ainda. A palavra \u00e9 um pretexto: o que faz uma pessoa ser atra\u00edda por outra \u00e9 a afinidade que as une, n\u00e3o a palavra. Assistir a milhares de milagres e prod\u00edgios sem desfrutar dessa parte de profecia e santidade, de nada serve. \u00c9 essa correla\u00e7\u00e3o que produz a febre e a inquieta\u00e7\u00e3o. Se na palha n\u00e3o houvesse um pouco de \u00e2mbar, ela jamais se sentiria atra\u00edda pelo \u00e2mbar; ambos t\u00eam uma homogeneidade invis\u00edvel e oculta.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Mawlana Rumi<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[J\u00e1l\u00e1l al-Din Rumi, Mawl\u00e1n\u00e1.<\/em> <strong>Fihi ma fihi: o livro do interior<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Margarita Garcia Lamelo. \u2013 Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Dervish, 1993, p. 29]<\/em> \u00a0<\/span><\/p>\n<p>J\u00e1l\u00e1l al-Din Rumi (1207-1273), ou simplesmente o Mawlana Rumi \u00e9 um s\u00e1bio mu\u00e7ulmano que viveu na P\u00e9rsia. Rumi, al\u00e9m de ser considerado um dos maiores poetas <em>sufi<\/em>, foi o fundador da <em>tariqa mawlawiya<\/em>, a ordem dos Dervixes Dan\u00e7antes. Sua principal caracter\u00edstica \u00e9 o <em>sama<\/em>, uma dan\u00e7a girat\u00f3ria. Atrav\u00e9s da execu\u00e7\u00e3o ritual do <em>sama<\/em> os \u00a0dervixes mawlawis entram em \u00eaxtase. \u00a0Ao <em>sama<\/em> associa-se, ainda, como importantes elementos da <em>tariqa<\/em>, a m\u00fasica e a poesia, que exerceram grande influ\u00eancia no imp\u00e9rio otomano, indo al\u00e9m de suas fronteiras.<\/p>\n<p>Para quem quer ter um contato inicial com os ensinamentos do Mestre Rumi, a obra <em>Fihi-ma-fihi<\/em> ou <em>O livro do interior<\/em>, publicado h\u00e1 alguns anos no Brasil pelas Edi\u00e7\u00f5es Dervish, \u00a0constitui uma \u00f3tima alternativa. A maior parte do livro \u00e9 escrito em forma de di\u00e1logo, como se o Mestre estivesse conversando com disc\u00edpulos e interlocutores. Alguns textos abordam os assuntos de tal foram que cada par\u00e1grafo pode ser tomado como um aforismo que, por si s\u00f3, j\u00e1 constitui mat\u00e9ria para muita reflex\u00e3o, como o primeiro par\u00e1grafo do cap\u00edtulo 15, em que Rumi fala de Deus:<\/p>\n<p><em>H\u00e1 no homem um amor, uma dor, uma inquietude, um apelo que, mesmo se tivesse cem mil universos, n\u00e3o encontraria calma e repouso. As pessoas exercem todos os tipos de profiss\u00e3o, de neg\u00f3cios, e fazem todos os tipos de estudos \u2013 medicina, astronomia etc. \u2013 mas n\u00e3o encontram repouso, pois seu objetivo n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado. Chama-se o Bem-Amado de \u00b4repouso da alma\u00b4; e como seria poss\u00edvel encontrar repouso e quietude sen\u00e3o n\u00b4Ele?<\/em> (p. 96).<\/p>\n<p>Nas p\u00e1ginas do Fihi-ma-fihi tamb\u00e9m se encontra uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias contadas pelo mestre. Quando pego o meu exemplar e come\u00e7o a ler aquelas hist\u00f3rias maravilhosas e repletas de edificantes ensinamentos, transporto-me mentalmente para a antiga P\u00e9rsia e me imagino sentado aos p\u00e9s de Rumi como um de seus disc\u00edpulos. Uma das hist\u00f3rias de que mais gosto fala da amizade, e transcrevo-a abaixo como conclus\u00e3o deste texto:<\/p>\n<p><em>Mawlana Shams-ud-Din Tabrizi (que Deus santifique seu sirr!) dizia: \u201cUma grande caravana viajava e n\u00e3o encontrava cidade alguma, nem \u00e1gua. De repente, encontraram um po\u00e7o, mas eles n\u00e3o tinham nenhum balde. Pegaram um caldeir\u00e3o e cordas, e deixaram-no descer at\u00e9 o fundo do po\u00e7o. Puxaram o caldeir\u00e3o, mas a corda arrebentou. Deixaram descer um outro caldeir\u00e3o e este caiu. Da\u00ed ent\u00e3o amarraram pessoas da caravana com cordas, e enviaram-nas ao po\u00e7o. N\u00e3o voltaram. Havia ali um homem inteligente que disse: \u00b4Eu vou descer\u00b4. Deixaram-no descer. Estava quase chegando no fundo do po\u00e7o, quando um negro aterrador apareceu. Esse homem inteligente disse a si mesmo: \u00b4N\u00e3o escaparei, mas \u00e9 preciso agir de forma inteligente e sem perder a cabe\u00e7a, para ver o que vai acontecer comigo\u00b4. O negro disse: \u00b4N\u00e3o digas nada. \u00c9s meu prisioneiro, n\u00e3o escapar\u00e1s, a n\u00e3o ser que me d\u00eas uma resposta correta. Nada mais te salvar\u00e1\u00b4. O homem respondeu: \u00b4Fala\u00b4. O negro disse: \u00b4Entre todos os lugares, qual \u00e9 o melhor?\u00b4 O homem pensou: \u00b4Sou prisioneiro e impotente em suas m\u00e3os. Se eu disser Bagd\u00e1 ou qualquer outra cidade, \u00e9 como se demonstrasse desprezo por sua morada\u00b4. Ent\u00e3o ele respondeu: \u00b4O melhor lugar \u00e9 aquele onde o homem tem um amigo \u00edntimo, mesmo se este se encontra no fundo da terra ou em um esconderijo de rato\u00b4. O negro disse: \u00b4Bravo, bravo, est\u00e1s salvo. \u00c9s um verdadeiro homem neste mundo. Agora, eu te salvo e gra\u00e7as a ti salvo os outros, de agora em diante n\u00e3o cometerei mais crimes. Perdoei todos os homens do mundo por amor a ti\u00b4. Em seguida, ele deu \u00e1gua \u00e0s pessoas da caravana\u201d<\/em> (p. 120).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m disse: \u201cMawlana n\u00e3o fala\u201d. Eu disse: \u201cFoi minha imagina\u00e7\u00e3o que atraiu essa pessoa; minha imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe diz: \u201cComo vais?\u201d ou \u201cComo est\u00e1s?\u201d Ela a atraiu sem palavras. Se \u00e9 dessa maneira que minha realidade atrai e conduz a outro lugar, o que h\u00e1 de espantoso nisso? A palavra \u00e9 a sombra da realidade e seu complemento. Se a sombra atrai, a realidade atrai mais ainda. A palavra \u00e9 um pretexto: o que faz uma pessoa ser atra\u00edda por outra \u00e9 a afinidade que as une, n\u00e3o a palavra. Assistir a milhares de milagres e prod\u00edgios sem desfrutar dessa parte de profecia e santidade, de nada serve. \u00c9 essa correla\u00e7\u00e3o que produz a febre e a inquieta\u00e7\u00e3o. Se na palha n\u00e3o houvesse um pouco de \u00e2mbar, ela jamais se sentiria atra\u00edda pelo \u00e2mbar; ambos t\u00eam uma homogeneidade invis\u00edvel e oculta.<br \/>\nMawlana Rumi<br \/>\n[J\u00e1l\u00e1l al-Din Rumi, Mawl\u00e1n\u00e1. Fihi ma fihi: o livro do interior. Tradu\u00e7\u00e3o Margarita Garcia Lamelo. \u2013 Rio de Janeiro: Edi\u00e7\u00f5es Dervish, 1993, p. 29]  <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":2967,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[66,138,142,189,223,265,303,368,410],"class_list":["post-2966","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-09-arcano-ix-caminhos-do-sagrado","tag-amizade","tag-dervixes","tag-deus","tag-fihi-ma-fihi","tag-islamismo","tag-livros","tag-muculmanos","tag-rumi","tag-sufi"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2966","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2966"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2966\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2966"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2966"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2966"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}