{"id":3143,"date":"2011-01-06T09:32:59","date_gmt":"2011-01-06T12:32:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3143"},"modified":"2011-01-06T09:32:59","modified_gmt":"2011-01-06T12:32:59","slug":"a-biblia-uma-grande-obra-literaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/01\/06\/a-biblia-uma-grande-obra-literaria\/","title":{"rendered":"A B\u00edblia, uma grande obra liter\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/a-biblia-uma-grande-obra-literaria\/guia-literario-dda-biblia\/\" rel=\"attachment wp-att-3144\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3144\" alt=\"\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/01\/Guia-liter\u00e1rio-dda-B\u00edblia.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/01\/Guia-liter\u00e1rio-dda-B\u00edblia.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/01\/Guia-liter\u00e1rio-dda-B\u00edblia-120x120.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>A cr\u00edtica liter\u00e1ria, por muito tempo tida como perif\u00e9rica ou mesmo irrelevante aos estudos b\u00edblicos, emergiu desde meados da d\u00e9cada de 1970 como um novo foco importante de estudos b\u00edblicos acad\u00eamicos na Am\u00e9rica do Norte, Inglaterra e Israel, e tem mostrado alguns sinais not\u00e1veis na Europa. \u00c9 natural, portanto, que nosso empreendimento deva ser internacional. Nosso colaboradores v\u00eam de c\u00e1tedras de ensino (com duas exce\u00e7\u00f5es, de universidades seculares) nos Estados Unidos, Canad\u00e1, Inglaterra, Israel, It\u00e1lia e Holanda. Alguns est\u00e3o envolvidos, pela f\u00e9, com os textos que estudam, ao passo que outros se veriam essencialmente como cr\u00edticos seculares. Mas falam uma linguagem cr\u00edtica comum, pois as diferen\u00e7as entre eles derivam muito mais da sensibilidade individual e da prefer\u00eancia intelectual, do que de antecedentes religiosos. Em muitos casos, procuramos recrutar escritores que j\u00e1 tivessem dado alguma contribui\u00e7\u00e3o not\u00e1vel a este campo de pesquisa, mas n\u00e3o hesitamos em recorrer tamb\u00e9m a v\u00e1rios estudiosos mais jovens cujo trabalho inicial nos pareceu bastante promissor. O volume, ent\u00e3o, \u00e9 um ponto de encontro n\u00e3o apenas de nacionalidades e credos, mas tamb\u00e9m de gera\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. A variedade de perspectivas resultante, juntamente com a unidade de prop\u00f3sito geral proporcionam um panorama v\u00edvido de mais de mil anos de atividade liter\u00e1ria diversa representada na B\u00edblia.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Robert Alter e Frank Kermode<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Alter, Robert e Kermode, Frank (Organizadores).<\/em> <strong>Guia Liter\u00e1rio da B\u00edblia<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Raul Fiker; revis\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o Gilson C\u00e9sar Cardoso de Souza. \u2013 S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Editora da UNESP, 1997, p. 16. \u2013 (Prismas)]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Seguramente nenhum outro livro na hist\u00f3ria da humanidade foi \u00a0t\u00e3o lido, discutido, estudado ou criticado quanto a B\u00edblia. A B\u00edblia se converteu, por isso, em motivo para que milhares de outros livros fossem escritos desde o advento da imprensa. A prop\u00f3sito, vale salientar que o primeiro livro a vir a lume quando da inven\u00e7\u00e3o da imprensa por Gutemberg foi, exatamente, um exemplar da B\u00edblia. Tal profus\u00e3o de obras tratando da Escritura sagrada ancora-se no fato de que sua abordagem pode se dar sob \u00e2ngulos muito diversos e at\u00e9 d\u00edspares.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito de tais publica\u00e7\u00f5es, gostaria de mencionar aqui um livro maravilhoso que tem por objeto uma an\u00e1lise da B\u00edblia sob o ponto de vista liter\u00e1rio. Trata-se do <em>Guia Liter\u00e1rio da B\u00edblia<\/em>, organizado por dois estudiosos, Robert Alter e Frank Kermode. \u00a0Escrito por \u00a0diversos autores de seis diferentes nacionalidades, o livro compreende um total de quarenta textos, incluindo uma Introdu\u00e7\u00e3o geral, uma Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento e uma ao Novo Testamento. No final traz, ainda, um gloss\u00e1rio de termos b\u00edblicos e liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>Vista sob a perspectiva da cr\u00edtica liter\u00e1ria, o que primeiro salta aos olhos, em se tratando da B\u00edblia, \u00e9 a diversidade de g\u00eaneros e estilos que a perpassam. Isso \u00e9 evidenciado no texto escrito por Robert Alter , <em>Introdu\u00e7\u00e3o ao Antigo Testamento<\/em>, onde afirma:<\/p>\n<p><em>Qualquer explica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da B\u00edblia hebraica deve reconhecer sua qualidade de extrema heterogeneidade, uma condi\u00e7\u00e3o que os ensaios deste volume vivamente confirmar\u00e3o. De um certo ponto de vista, n\u00e3o \u00e9 sequer uma cole\u00e7\u00e3o unificada, mas sim uma antologia solta que reflete cerca de nove s\u00e9culos de atividade liter\u00e1ria hebraica, desde a Can\u00e7\u00e3o de D\u00e9bora e outros poemas arcaicos mais breves inseridos nas narrativas em prosa at\u00e9 o Livro de Daniel (s\u00e9culo II a. C.). A variedade gen\u00e9rica dessa antologia \u00e9 de qualquer modo not\u00e1vel, englobando historiografia, narrativas ficcionais e muita mistura de ambos, listas de leis, profecias tanto em verso quanto em prosa, obras afor\u00edsticas e de medita\u00e7\u00e3o, poemas de culto e devo\u00e7\u00e3o, hinos de lamenta\u00e7\u00e3o e vit\u00f3ria, poemas de amor, t\u00e1buas geneal\u00f3gicas, contos etiol\u00f3gicos e muito mais<\/em> (p. 14)<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de um estudo liter\u00e1rio da B\u00edblia \u00e9 evidenciado no texto de autoria de Helen Elsom intitulado <em>O Novo Testamento e a escrita greco-romana<\/em>, no qual a autora salienta o quanto o estilo liter\u00e1rio e a l\u00edngua em que foi divulgada a B\u00edblia nos prim\u00f3rdios do cristianismo contribuiu para que este se firmasse como religi\u00e3o dominante:<\/p>\n<p><em>O Novo Testamento est\u00e1 escrito em grego e \u00e9 dirigido \u2013 explicitamente nas dedicat\u00f3rias de Lucas e nas Ep\u00edstolas \u2013 a um p\u00fablico que vive no mundo oriental, de l\u00edngua grega, do Imp\u00e9rio Romano. As expectativas de seus poss\u00edveis leitores, que devemos entender quando lemos o texto, s\u00e3o influenciadas por esse fato. A l\u00edngua grega, com sua tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e filos\u00f3fica, era parte da cultura \u201coficial\u201d do imp\u00e9rio, no qual se esperava dos administradores que tivessem ao menos um conhecimento superficial de l\u00edngua e literatura gregas. Ademais, embora o Novo Testamento seja uma reelabora\u00e7\u00e3o da Escritura judaica, o texto concreto a que ele alude \u00e9 a vers\u00e3o dos Setenta, que j\u00e1 havia iniciado o processo de reescrever as Escrituras para o mundo helen\u00edstico. A hist\u00f3ria ulterior do cristianismo sugere que ele foi ajudado em seu caminho para tornar-se a religi\u00e3o dominante pelo fato de seus textos sagrados serem escritos em grego e em formas liter\u00e1rias que, se n\u00e3o propriamente gregas, podiam ser compreendidas em termos gregos, populares bem como eruditos<\/em> (p. 601).<\/p>\n<p>O <em>Guia Liter\u00e1rio da B\u00edblia<\/em> pode seguramente ser indicado como uma obra cujos textos devem ser lidos como introdu\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura de cada um dos livros que comp\u00f5em a B\u00edblia. Para concluir, transcrevo um trecho do texto da <em>Introdu\u00e7\u00e3o geral<\/em>, em que os organizadores da obra justificam a abordagem da B\u00edblia do ponto de vista da cr\u00edtica liter\u00e1ria:<\/p>\n<p><em>Se nos fosse pedido para enunciar mais positivamente por que abordamos o assunto da maneira que o fizemos, nossa resposta seria a seguinte. Em primeiro lugar, a B\u00edblia, considerada como um livro, atinge seus efeitos por meios que n\u00e3o s\u00e3o diferentes dos geralmente empregados pela linguagem escrita. Isso \u00e9 verdade quaisquer que sejam nossas raz\u00f5es para atribuir valor a ela \u2013 como o relato da a\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria, como o texto fundador de uma religi\u00e3o ou religi\u00f5es, como um guia para a \u00e9tica, como evid\u00eancias sobre povos e sociedades no passado remoto e assim por diante. De fato, a an\u00e1lise liter\u00e1ria deve vir primeiro, pois, a menos que tenhamos um entendimento claro do que o texto est\u00e1 fazendo e dizendo, ele n\u00e3o ter\u00e1 muito valor sobre outros aspectos. Tem-se dito que a melhor raz\u00e3o para o estudo s\u00e9rio da B\u00edblia \u2013 para aprender como l\u00ea-la bem \u2013 est\u00e1 escrita ao longo da hist\u00f3ria da cultura ocirdental: que se veja o que ocorre quando as pessoas a leem equivocadamente, a leem mal ou a leem com falsas suposi\u00e7\u00f5es<\/em> (p. 12)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cr\u00edtica liter\u00e1ria, por muito tempo tida como perif\u00e9rica ou mesmo irrelevante aos estudos b\u00edblicos, emergiu desde meados da d\u00e9cada de 1970 como um novo foco importante de estudos b\u00edblicos acad\u00eamicos na Am\u00e9rica do Norte, Inglaterra e Israel, e tem mostrado alguns sinais not\u00e1veis na Europa. \u00c9 natural, portanto, que nosso empreendimento deva ser internacional. Nosso colaboradores v\u00eam de c\u00e1tedras de ensino (com duas exce\u00e7\u00f5es, de universidades seculares) nos Estados Unidos, Canad\u00e1, Inglaterra, Israel, It\u00e1lia e Holanda. Alguns est\u00e3o envolvidos, pela f\u00e9, com os textos que estudam, ao passo que outros se veriam essencialmente como cr\u00edticos seculares. Mas falam uma linguagem cr\u00edtica comum, pois as diferen\u00e7as entre eles derivam muito mais da sensibilidade individual e da prefer\u00eancia intelectual, do que de antecedentes religiosos. Em muitos casos, procuramos recrutar escritores que j\u00e1 tivessem dado alguma contribui\u00e7\u00e3o not\u00e1vel a este campo de pesquisa, mas n\u00e3o hesitamos em recorrer tamb\u00e9m a v\u00e1rios estudiosos mais jovens cujo trabalho inicial nos pareceu bastante promissor. O volume, ent\u00e3o, \u00e9 um ponto de encontro n\u00e3o apenas de nacionalidades e credos, mas tamb\u00e9m de gera\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas. A variedade de perspectivas resultante, juntamente com a unidade de prop\u00f3sito geral proporcionam um panorama v\u00edvido de mais de mil anos de atividade liter\u00e1ria diversa representada na B\u00edblia.<br \/>\nRobert Alter e Frank Kermode<br \/>\n[Alter, Robert e Kermode, Frank (Organizadores). Guia Liter\u00e1rio da B\u00edblia. Tradu\u00e7\u00e3o Raul Fiker; revis\u00e3o de tradu\u00e7\u00e3o Gilson C\u00e9sar Cardoso de Souza. \u2013 S\u00e3o Paulo: Funda\u00e7\u00e3o Editora da UNESP, 1997, p. 16. \u2013 (Prismas)]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":3144,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,34],"tags":[],"class_list":["post-3143","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo","category-31-o-livro-dos-livros"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3143\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3144"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}