{"id":3172,"date":"2011-02-02T23:09:56","date_gmt":"2011-02-03T02:09:56","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3172"},"modified":"2011-02-02T23:09:56","modified_gmt":"2011-02-03T02:09:56","slug":"nunc-dimittis-servum-tuum-domine-lc-229","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/02\/02\/nunc-dimittis-servum-tuum-domine-lc-229\/","title":{"rendered":"Nunc dimittis servum tuum, Dom?ne (Lc 2,29)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em>Sem mais, foi o jesu\u00edta Auguste Valensin ao enunciar o essencial quando admite que, embora imposs\u00edvel, se se lhe mostrasse, no leito de morte, com a mais perfeita evid\u00eancia, que ele errou, que n\u00e3o existe sobreviv\u00eancia, que n\u00e3o existe sequer Deus, n\u00e3o se arrependeria de ter crido; mas se sentiria honrado porque creu em tudo isso, porque mesmo que o universo seja algo imbecil e digno de desprezo, pior para o universo, porque n\u00e3o errou quem pensou que existe Deus, mas o erro seria de Deus se Ele n\u00e3o existisse; algo semelhante n\u00e3o consigo encontrar fora ou acima do <\/em>credo<em> que Dostoi\u00e9vski tinha formulado para si e que apresenta de\u00a0 modo muito simples: creio que n\u00e3o existe nada mais belo, mais profundo, mais excitante, mais razo\u00e1vel, mais viril e mais perfeito do que Cristo, mas muito mais do que isso, se algu\u00e9m me provasse que Cristo est\u00e1 fora da verdade e que de fato a verdade est\u00e1 fora de Cristo, melhor seria ent\u00e3o ficar com Cristo do que com a verdade.<\/em><\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Isso \u00e9 tudo o que tenho \u00e0 m\u00e3o, algumas cita\u00e7\u00f5es (de homens sensatos) e um sentimento \u2013 t\u00e3o delicado, assistem\u00e1tico e fr\u00e1gil. E, no entanto, esse capital vago, pequeno e humilde \u2013 com o passar dos anos de pris\u00e3o \u00e9 meu \u00fanico proveito, um embrulho pequeno \u2013 basta-me para dar-me uma seguran\u00e7a s\u00f3lida e para transmitir-me o convencimento indestemido de que sei o que devo e o que n\u00e3o devo fazer.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">A incerteza \u00e9 a lei fundamental da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u2013 e \u00e9 seu signo zod\u00edaco; \u00e9 tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o de base do cristianismo. Mas dela se aproxima \u2013 \u201cn\u00e3o provada\u201d pelo plano humano, cient\u00edfico \u2013 aqueles convencimentos que s\u00e3o mais duros do que os teoremas, como rochas. (Temo-las das autoridades maiores). Impulsionado por eles, saberei sempre o que fazer, por meio deles posso restabelecer a qualquer tempo a liga\u00e7\u00e3o rompida com Deus, e a alegria; por cima do abismo, o posto emissor e o posto receptor podem entrar instantaneamente em comunica\u00e7\u00e3o.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Nicolae Steinhardt<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Steinhardt. N.<\/em> <strong>O Di\u00e1rio da Felicidade<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de Elp\u00eddio M\u00e1rio Dantas Fonseca; revis\u00e3o do texto romeno de Cristina Nicoleta M?nescu. S\u00e3o Paulo: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es Editora, Livraria e Distribuidora Ltda., 2009, p. 146].<\/em><\/span><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias cotejei diversos livros em busca de uma cita\u00e7\u00e3o que se adequasse bem ao texto que eu tencionava postar hoje. Reli trechos \u2013 v\u00e1rios \u2013 de Santo Agostinho, uma das minhas fontes crist\u00e3s prediletas, de Ralph Waldo Emerson, dos escritos e biografias de S\u00e3o Francisco de Assis, de algumas biografias de Jesus Cristo, do Dicion\u00e1rio de Homil\u00e9tica, das ep\u00edstolas paulinas e do Dicion\u00e1rio de Paulo e suas cartas, do livro de Albert Schweitzer \u201cO misticismo de Paulo, o ap\u00f3stolo\u201d e, por fim, do livro do monge romeno Nicolae Steinhardt \u201cO Di\u00e1rio da Felicidade\u201d.<\/p>\n<p>Pois bem, foi exatamente neste \u00faltimo autor que encontrei o texto perfeito, eu diria at\u00e9 mais que perfeito, por se adequar t\u00e3o bem aos meus prop\u00f3sitos. Antecipei ligeiramente o assunto h\u00e1 tr\u00eas dias, quando postei , sem coment\u00e1rios, um trecho do Novo Testamento que narra o epis\u00f3dio em que Cristo encontra Levi, um coletor de impostos, e o convida a que o siga. \u00c9 um dos textos b\u00edblicos de minha maior predile\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes em que a ele tenho retornado, lendo-o e meditando sobre sua mensagem sempre com renovado interesse. \u00a0<\/p>\n<p>Esse epis\u00f3dio me leva sempre a refletir sobre alguns temas que para mim contam-se entre os mais palpitantes mist\u00e9rios crist\u00e3os. Esses mist\u00e9rios falam, especificamente, \u00a0de <em>chamado<\/em>, <em>predestina\u00e7\u00e3o, livre-arb\u00edtrio<\/em> e <em>f\u00e9<\/em>. Quando penso neles, sinto-me levado a um confronto com a controvertida e enigm\u00e1tica quest\u00e3o do<em> chamado<\/em> e da<em> escolha<\/em>. Na perspectiva crist\u00e3 n\u00e3o basta ser chamado, pois \u00e9 preciso tamb\u00e9m, para que este se efetive, ser um dos escolhidos. Mas, quem pode de fato e com certeza se afirmar um escolhido?<\/p>\n<p>A indaga\u00e7\u00e3o permanece insol\u00favel, n\u00e3o restando outra alternativa \u00e0queles que se sentem chamados a n\u00e3o ser responder com um sim ou um n\u00e3o. No primeiro caso, o sim pressup\u00f5e uma aposta, a aposta na f\u00e9. A l\u00f3gica crist\u00e3 \u00e9 uma l\u00f3gica da aposta, isso h\u00e1 muito tempo Pascal o afirmou com o axioma que passou para a hist\u00f3ria com a denomina\u00e7\u00e3o de \u201ca aposta de Pascal\u201d. N\u00e3o esque\u00e7amos, por\u00e9m, que esta, como toda aposta, sup\u00f5e o risco de ganhar ou perder, n\u00e3o se tendo de antem\u00e3o nenhuma garantia sobre em que fileira, ao final, seremos inclu\u00eddos, se na dos ganhadores ou\u00a0dos perdedores.<\/p>\n<p>Isso posto, resta-me dizer que, de minha parte, resolvi apostar. \u00a0O pouco que tenho que me motivou a fazer a aposta foi aquilo que Steinhardt fala no trecho citado de seu Di\u00e1rio: um punhado de cita\u00e7\u00f5es de personagens que fizeram sua aposta e nos quais confio e me inspiro, um pouco de intui\u00e7\u00e3o, uma f\u00e9 inquebrant\u00e1vel nas promessas de Cristo conforme expostas na B\u00edblia e a convic\u00e7\u00e3o de que, em que pese todos os equ\u00edvocos do cristianismo e suas igrejas, dois mil anos de hist\u00f3ria n\u00e3o podem estar alicer\u00e7ados num equ\u00edvoco absoluto. Deve, portanto, restar algo de verdade no <em>ethos<\/em> crist\u00e3o, e \u00e9\u00a0nesse algo, para mim ainda n\u00e3o totalmente claro,\u00a0que me fio para fazer minha aposta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem mais, foi o jesu\u00edta Auguste Valensin ao enunciar o essencial quando admite que, embora imposs\u00edvel, se se lhe mostrasse, no leito de morte, com a mais perfeita evid\u00eancia, que ele errou, que n\u00e3o existe sobreviv\u00eancia, que n\u00e3o existe sequer Deus, n\u00e3o se arrependeria de ter crido; mas se sentiria honrado porque creu em tudo isso, porque mesmo que o universo seja algo imbecil e digno de desprezo, pior para o universo, porque n\u00e3o errou quem pensou que existe Deus, mas o erro seria de Deus se Ele n\u00e3o existisse; algo semelhante n\u00e3o consigo encontrar fora ou acima do credo que Dostoi\u00e9vski tinha formulado para si e que apresenta de  modo muito simples: creio que n\u00e3o existe nada mais belo, mais profundo, mais excitante, mais razo\u00e1vel, mais viril e mais perfeito do que Cristo, mas muito mais do que isso, se algu\u00e9m me provasse que Cristo est\u00e1 fora da verdade e que de fato a verdade est\u00e1 fora de Cristo, melhor seria ent\u00e3o ficar com Cristo do que com a verdade.<br \/>\nIsso \u00e9 tudo o que tenho \u00e0 m\u00e3o, algumas cita\u00e7\u00f5es (de homens sensatos) e um sentimento \u2013 t\u00e3o delicado, assistem\u00e1tico e fr\u00e1gil. E, no entanto, esse capital vago, pequeno e humilde \u2013 com o passar dos anos de pris\u00e3o \u00e9 meu \u00fanico proveito, um embrulho pequeno \u2013 basta-me para dar-me uma seguran\u00e7a s\u00f3lida e para transmitir-me o convencimento indestemido de que sei o que devo e o que n\u00e3o devo fazer.<br \/>\nA incerteza \u00e9 a lei fundamental da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental \u2013 e \u00e9 seu signo zod\u00edaco; \u00e9 tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o de base do cristianismo. Mas dela se aproxima \u2013 \u201cn\u00e3o provada\u201d pelo plano humano, cient\u00edfico \u2013 aqueles convencimentos que s\u00e3o mais duros do que os teoremas, como rochas. (Temo-las das autoridades maiores). Impulsionado por eles, saberei sempre o que fazer, por meio deles posso restabelecer a qualquer tempo a liga\u00e7\u00e3o rompida com Deus, e a alegria; por cima do abismo, o posto emissor e o posto receptor podem entrar instantaneamente em comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNicolae Steinhardt<br \/>\n[Steinhardt. N. O Di\u00e1rio da Felicidade. Tradu\u00e7\u00e3o e revis\u00e3o de Elp\u00eddio M\u00e1rio Dantas Fonseca; revis\u00e3o do texto romeno de Cristina Nicoleta M?nescu. S\u00e3o Paulo: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es Editora, Livraria e Distribuidora Ltda., 2009, p. 146]. <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[78,87,112,128,158,182,186,228,313],"class_list":["post-3172","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-09-arcano-ix-caminhos-do-sagrado","tag-aposta","tag-auguste-valensin","tag-chamado","tag-cristianismo","tag-dostoievski","tag-ethos","tag-fe","tag-jesus-cristo","tag-nicolae-steinhardt"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}