{"id":3502,"date":"2011-06-14T06:21:46","date_gmt":"2011-06-14T09:21:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3502"},"modified":"2011-06-14T06:21:46","modified_gmt":"2011-06-14T09:21:46","slug":"se-deus-quiser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/06\/14\/se-deus-quiser\/","title":{"rendered":"Se Deus quiser"},"content":{"rendered":"<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado e est\u00e1vamos encerrando um encontro no qual fal\u00e1ramos da figura de Cristo e de como as pessoas o reverenciam hoje. \u00a0Audit\u00f3rio lotado, plateia animada e sequiosa por discutir especialmente as proje\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas quase sempre (eu diria sempre) presentes nas aproxima\u00e7\u00f5es que os crist\u00e3os fazem \u00e0 figura do Redentor. \u00a0Em alguns momentos foram salientadas as formas supostamente infantis de venera\u00e7\u00e3o de Cristo. O fato \u00e9 que, para a maioria das pessoa, ele encarna a figura do pai protetor e misericordioso pronto para socorrer at\u00e9 nas necessidades mais insignificantes.<\/p>\n<p>Foi quando se falava disso que uma senhora se ergueu da plateia para indagar sobre o que fazer quando se trabalha em meio a comunidades carentes, entre pessoas totalmente desvalidas e esquecidas por uma sociedade a quem caberia lhes proporcionar um m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es que lhes permitisse viver dignamente. \u201cO que fazer\u201d, indagava aquela senhora, \u201cquando se vive num meio em que a maioria das pessoas diante das condi\u00e7\u00f5es sofridas e prec\u00e1rias da vida n\u00e3o encontram outra alternativa sen\u00e3o dizer \u00b4Eu entrego nas m\u00e3os de Deus` ou \u00b4seja feita a vontade de Deus\u00b4?\u201d<\/p>\n<p>Naquela plateia composta por cabe\u00e7as bem-pensantes e \u00a0esclarecidas n\u00e3o ficava bem admitir como sendo essa uma solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel e adequada. Na verdade, proceder dessa maneira apenas revela uma atitude absolutamente arcaica e equivocada, pois, nesse caso, abre-se m\u00e3o da pr\u00f3pria responsabilidade pela mudan\u00e7a das condi\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia para atribui-la a Deus. \u00a0<\/p>\n<p>A essa quest\u00e3o seguiram-se outras, algumas mais ou menos no mesmo tom, outras de natureza diferente, mas todas tendo por foco tem\u00e1tica semelhante. Em alguns momentos &#8211; \u00a0ali desempenhando o papel de um dos conversadores, como ficou convencionado denominar a mim e ao outro colega que fora convidado para aquele bate-papo com a plateia -, \u00a0devo ter me empolgado e rasgado o verbo falando do quanto as pessoas agem de forma infantil e arcaica quando buscam a Deus ou a Cristo.<\/p>\n<p>Depois de diversas discuss\u00f5es e apartes, chegava-se ao final do evento. De tudo o que se falara ali, ficara mais ou menos explicitado que a pessoas esclarecidas cabe proceder como adultos, procurando se desvencilhar das formas arcaicas e infantis de religiosidade, de forma que possam ascender ao patamar de uma aut\u00eantica espiritualidade, verdadeiramente madura.<\/p>\n<p>A\u00ed chegou o momento do encerramento. A mediadora da mesa, representando a organiza\u00e7\u00e3o do Encontro Teol\u00f3gico, cumpriu o ritual de praxe, parabenizando e agradecendo \u00e0 plateia e aos conversadores. Foi quando, j\u00e1 finalizando as palavras que punham fim \u00e0quela manh\u00e3 t\u00e3o agrad\u00e1vel, aconteceu o inadmiss\u00edvel. Depois de dizer que o grupo haveria de promover outros encontros como aquele, abrupta e involuntariamente a mediadora concluiu com um inevit\u00e1vel \u201cSe Deus quiser!\u201d<\/p>\n<p>Pronunciada a conhecid\u00edssima f\u00f3rmula, t\u00e3o antiga quanto a hist\u00f3ria do cristianismo, foi s\u00f3 o tempo de se dar conta do que dissera para que, imediatamente, nossa simp\u00e1tica mediadora desse um discreto sorriso e repetisse, num tom de quem pede desculpas: \u201cSe Deus quiser, est\u00e3o vendo?\u201d<\/p>\n<p>Sa\u00ed dali pensando no que acontecera. Por v\u00e1rios dias fiquei remoendo o fato, que vez por outra me voltava \u00e0 mem\u00f3ria. E sabem a que conclus\u00e3o cheguei? Bem, a verdade \u00e9 que h\u00e1 momentos em que n\u00e3o adianta querer posar de adulto, maduro ou o que quer que o valha, pois h\u00e1 circunst\u00e2ncias na vida da gente em que n\u00e3o h\u00e1 nada mais apaziguador nem mais esperan\u00e7oso do que um \u201cSe Deus quiser\u201d, mesmo quando pronunciado sem muita convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era manh\u00e3 de s\u00e1bado e est\u00e1vamos encerrando um encontro no qual fal\u00e1ramos da figura de Cristo e de como as pessoas o reverenciam hoje.  Audit\u00f3rio lotado, plateia animada e sequiosa por discutir especialmente as proje\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas quase sempre (eu diria sempre) presentes nas aproxima\u00e7\u00f5es que os crist\u00e3os fazem \u00e0 figura do Redentor.  Em alguns momentos foram salientadas as formas supostamente infantis de venera\u00e7\u00e3o de Cristo. 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