{"id":3507,"date":"2011-06-15T06:21:25","date_gmt":"2011-06-15T09:21:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3507"},"modified":"2011-06-15T06:21:25","modified_gmt":"2011-06-15T09:21:25","slug":"nada-do-que-e-humano-me-e-estranho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/06\/15\/nada-do-que-e-humano-me-e-estranho\/","title":{"rendered":"Nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos, n\u00e3o me recordo exatamente citado por quem, deparei-me com a seguinte frase grafada em latim: <em>Homo sum: nihil humani a me alienum puto<\/em>, seguida da tradu\u00e7\u00e3o: <em>Sou homem: nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho<\/em>. A frase \u00e9 de autoria de Publio Ter\u00eancio Afro, dramaturgo e poeta romano, nascido entre 195-185 a.C. e falecido por volta de 159 a.C., que a escreveu na obra intitulada <em>Heaautontimorumenos<\/em>. Dentre os muitos escritores que ao longo dos s\u00e9culos citaram a frase o autor do texto que eu li destacava Machado de Assis, que, segundo afirmou, tinha por ela uma predile\u00e7\u00e3o toda especial, fazendo uso dela mais de uma vez.<\/p>\n<p>No caso do autor de Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas, por\u00e9m, ele tinha por h\u00e1bito escrever a frase de forma incompleta, pois, por temor de que os leitores a interpretassem mal, quando a citava n\u00e3o escrevia o \u00faltimo voc\u00e1bulo<em>, puto<\/em>, embora essa palavra n\u00e3o tenha qualquer rela\u00e7\u00e3o com sua correspondente feminina na l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Bem, o fato \u00e9 que desde que descobri essa cita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o mais a esqueci. Essa \u00e9 uma daquelas frases que, uma vez dela tendo tomado conhecimento, logo a transformamos em m\u00e1xima de vida, nunca mais deixando de remor\u00e1-la em diversas ocasi\u00f5es pela exist\u00eancia a fora.\u00a0 Gosto dela por suas muitas implica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, dentre as quais eu destacaria duas.<\/p>\n<p>Uma \u00a0primeira perspectiva filos\u00f3fica seria a seguinte: \u00a0enquanto humanos, somos todos muito semelhantes, o que leva a concluir que nada do que aconte\u00e7a \u00a0a qualquer pessoa, por mais distante ou estranha a mim que ela seja, deve ser sentido como se a mim pr\u00f3prio acontecesse, pois estamos todos \u00a0irmanados pelo puro e simples fato de pertencermos \u00e0 esp\u00e9cie humana. A consequ\u00eancia natural dessa conclus\u00e3o \u00e9 o despertar de uma compaix\u00e3o natural por todas as pessoas.<\/p>\n<p>A segunda perspectiva \u00a0me parece n\u00e3o menos interessante e merecedora de considera\u00e7\u00e3o. Trata-se da constata\u00e7\u00e3o de que, sendo humano, nada do que aconte\u00e7a a qualquer ser humano deve me surpreender, pois o mesmo poderia perfeitamente suceder a mim pr\u00f3prio. Refiro-me a atos porventura cometidos. Quanto a isso, nunca poderemos ter certeza absoluta de que, dadas determinadas circunst\u00e2ncias oportunas e necess\u00e1rias, n\u00e3o fosse qualquer um de n\u00f3s capaz de cometer atos desde os mais heroicos at\u00e9 os mais vis e deplor\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em cada um de n\u00f3s habita, simultaneamente, um her\u00f3i e um vil\u00e3o, ambos prontos para entrar em a\u00e7\u00e3o t\u00e3o logo as circunst\u00e2ncias o exijam. Ningu\u00e9m se jacte de ter controle absoluto sobre si mesmo e seus atos. Com isso n\u00e3o estou querendo dizer que um certo autocontrole n\u00e3o seja n\u00e3o somente poss\u00edvel quanto necess\u00e1rio, do contr\u00e1rio n\u00e3o poder\u00edamos viver em grupo. \u00c9 a repress\u00e3o e o controle de uma boa quantidade de impulsos nem sempre os mais elogi\u00e1veis que sustentam a possibilidade de vida em sociedade. Entretanto, nem por isso podemos esquecer que o vil\u00e3o est\u00e1 sempre \u00e0 espreita.<\/p>\n<p>Por isso, em conson\u00e2ncia com a s\u00e1bia premissa terenciana, assumi como princ\u00edpio n\u00e3o me deixar surpreender por ato algum emanado de qualquer ser humano, uma vez que eu pr\u00f3prio n\u00e3o posso me julgar absolutamente imune \u00e0 possibilidade de proceder de maneira semelhante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos, n\u00e3o me recordo exatamente citado por quem, deparei-me com a seguinte frase grafada em latim: Homo sum: nihil humani a me alienum puto, seguida da tradu\u00e7\u00e3o: Sou homem: nada do que \u00e9 humano me \u00e9 estranho. A frase \u00e9 de autoria de Publio Ter\u00eancio Afro, dramaturgo e poeta romano, nascido entre 195-185 a.C. e falecido por volta de 159 a.C., que a escreveu na obra intitulada Heaautontimorumenos. 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