{"id":3525,"date":"2011-06-21T22:49:44","date_gmt":"2011-06-22T01:49:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3525"},"modified":"2011-06-21T22:49:44","modified_gmt":"2011-06-22T01:49:44","slug":"sacrificium","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/06\/21\/sacrificium\/","title":{"rendered":"Sacrificium"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-3526\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/sacrificium\/freud_sigmund\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-3526\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/06\/freud_sigmund-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Nossa civiliza\u00e7\u00e3o repousa, falando de modo geral, sobre a supress\u00e3o dos instintos. Cada indiv\u00edduo renuncia a uma parte dos seus atributos: a uma parcela do seu sentimento de onipot\u00eancia ou ainda das inclina\u00e7\u00f5es vingativas ou agressivas de sua personalidade. Dessas contribui\u00e7\u00f5es resulta o acervo cultural comum de bens materiais e ideais. Al\u00e9m das exig\u00eancias da vida, foram sem d\u00favida os sentimentos familiares derivados do erotismo que levaram o homem a fazer essa ren\u00fancia, que tem progressivamente aumentado com a evolu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o. Cada nova conquista foi sancionada pela religi\u00e3o, cada ren\u00fancia do indiv\u00edduo \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o instintual foi oferecida \u00e0 divindade como um sacrif\u00edcio, e foi declarado \u2018 santo\u2019\u00a0 o proveito assim obtido pela comunidade. Aquele que em consequ\u00eancia de sua constitui\u00e7\u00e3o indom\u00e1vel \u00a0n\u00e3o consegue concordar com a supress\u00e3o do instinto, torna-se um \u2018criminoso\u2019 , um \u2018outlaw\u2019, diante da sociedade \u2013 a menos que sua posi\u00e7\u00e3o social ou suas capacidades excepcionais lhe permitam impor-se como um grande homem, um \u2018her\u00f3i\u2019.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Sigmund Freud<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Freud, Sigmund<\/strong><em>.<\/em> <strong>Moral sexual \u00a0\u2018civilizada\u2019 e doen\u00e7a nervosa moderna<\/strong><em>. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. IX: \u2018Gradiva\u2019\u00a0 de Jensen e outros trabalhos. Tradu\u00e7\u00e3o do alem\u00e3o e do ingl\u00eas sob a dire\u00e7\u00e3o-geral e revis\u00e3o t\u00e9cnica de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago Ed. Ltda., 1976, p. 192<\/em><\/span>.]\n<p>Freud sempre exerceu sobre mim enorme fasc\u00ednio desde a primeira que o li. Foi um caso de amor \u00e0 primeira vista, e o fato \u00e9 que, desde que o li pela primeira vez, jamais deixei de admirar este homem extraordin\u00e1rio cuja obra, j\u00e1 centen\u00e1ria, permanece, quer admitam ou n\u00e3o seus cr\u00edticos, atual\u00edssima.<\/p>\n<p>Freud tinha uma acuidade e uma percuci\u00eancia invej\u00e1veis quando se tratava de esquadrinhar os complexos e surpreendentes meandros do psiquismo humano. Ele foi de uma profundidade e radicalidade nunca igualadas por quem quer que seja, antes ou depois dele. O grande m\u00e9dico vienense foi \u00fanico, singular e, por que n\u00e3o dizer, genial. Queiramos ou n\u00e3o somos todos devedores de Freud.<\/p>\n<p>Relendo h\u00e1 pouco um de seus textos escrito h\u00e1 mais de um s\u00e9culo, pois foi publicado em 1908, me pus a pensar o que diria Freud hoje a prop\u00f3sito da sexualidade como \u00e9 experimentada em nossa p\u00f3s-modernidade. No texto referido, intitulado <em>Moral sexual \u00a0\u2018civilizada\u2019 e doen\u00e7a nervosa moderna<\/em>, postula o velho mestre que a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manteria n\u00e3o fosse uma boa quota de ren\u00fancias \u00a0a que seus membros devem necessariamente se submeter. \u00a0Tais ren\u00fancias est\u00e3o primordialmente associadas \u00e0 sexualidade sob as mais diversas nuances em que se apresenta.<\/p>\n<p>Ora, acontece que, por uma s\u00e9rie de motivos, ap\u00f3s a grande libera\u00e7\u00e3o sexual dos anos sessenta, essa ren\u00fancia provavelmente esteja cada vez mais dif\u00edcil. Vivemos uma \u00e9poca que tem como uma de suas caracter\u00edsticas a superexposi\u00e7\u00e3o das pessoas aos est\u00edmulos sexuais. Se, por um lado, isso tem como uma de suas resultantes a vulgariza\u00e7\u00e3o e banaliza\u00e7\u00e3o do sexo, por outro \u00a0acarreta tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de superestimula\u00e7\u00e3o, cujas consequ\u00eancias podem ser bastante danosas, podendo ocasionar, inclusive, frequentes anomalias.<\/p>\n<p>Nesse mesmo texto Freud usa um conceito que ser\u00e1 muito discutido na psican\u00e1lise, o qual est\u00e1 diretamente relacionado \u00e0 mencionada ren\u00fancia ou, para usar um \u00a0outro voc\u00e1bulo por ele utilizado, sacrif\u00edcio. Trata-se do conceito de <em>sublima\u00e7\u00e3o<\/em>. A prop\u00f3sito, escreve o \u00a0fundador da psican\u00e1lise:<\/p>\n<p>\u201cO instinto sexual \u2013 ou, mais corretamente, os instintos sexuais, pois a investiga\u00e7\u00e3o anal\u00edtica nos ensina que o instinto sexual \u00e9 formado por muitos constituintes ou instintos componentes \u2013 apresenta-se provavelmente mais vigorosamente desenvolvido no homem do que na maioria dos animais superiores, sendo sem d\u00favida mais constantes, desde que superou completamente a periodicidade \u00e0 qual \u00e9 sujeito nos animais. Esse instinto coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da atividade civilizada uma extraordin\u00e1ria quantidade de energia, em virtude de uma singular e marcante caracter\u00edstica: sua capacidade de deslocar seus objetivos sem restringir consideravelmente a sua intensidade. A essa capacidade de trocar seu objetivo sexual original por outro, n\u00e3o mais sexual, chama-se capacidade de <em>sublima\u00e7\u00e3o<\/em>. \u00a0Contrastando com essa motilidade, na qual reside seu valor para a civiliza\u00e7\u00e3o, o instinto sexual \u00e9 pass\u00edvel tamb\u00e9m de fixar-se de uma forma particularmente obstinada, que o inutiliza e o leva algumas vezes a degenerar-se at\u00e9 as chamadas anormalidades\u201d (p. 193).<\/p>\n<p>A quest\u00e3o aqui seria indagar at\u00e9 que ponto \u00e9 vi\u00e1vel, ainda, a sublima\u00e7\u00e3o, numa sociedade permissiva e desregrada como a nossa, em que o <em>princ\u00edpio de prazer<\/em> \u2013 do qual o instinto sexual \u00e9 tribut\u00e1rio &#8211; n\u00e3o raro se sobrep\u00f5e e suplanta o <em>princ\u00edpio de realidade<\/em> \u2013 de que depende a disponibilidade para a sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa civiliza\u00e7\u00e3o repousa, falando de modo geral, sobre a supress\u00e3o dos instintos. Cada indiv\u00edduo renuncia a uma parte dos seus atributos: a uma parcela do seu sentimento de onipot\u00eancia ou ainda das inclina\u00e7\u00f5es vingativas ou agressivas de sua personalidade. Dessas contribui\u00e7\u00f5es resulta o acervo cultural comum de bens materiais e ideais. Al\u00e9m das exig\u00eancias da vida, foram sem d\u00favida os sentimentos familiares derivados do erotismo que levaram o homem a fazer essa ren\u00fancia, que tem progressivamente aumentado com a evolu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o. Cada nova conquista foi sancionada pela religi\u00e3o, cada ren\u00fancia do indiv\u00edduo \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o instintual foi oferecida \u00e0 divindade como um sacrif\u00edcio, e foi declarado \u2018 santo\u2019  o proveito assim obtido pela comunidade. Aquele que em consequ\u00eancia de sua constitui\u00e7\u00e3o indom\u00e1vel  n\u00e3o consegue concordar com a supress\u00e3o do instinto, torna-se um \u2018criminoso\u2019 , um \u2018outlaw\u2019, diante da sociedade \u2013 a menos que sua posi\u00e7\u00e3o social ou suas capacidades excepcionais lhe permitam impor-se como um grande homem, um \u2018her\u00f3i\u2019.<br \/>\nSigmund Freud<br \/>\n[Freud, Sigmund. Moral sexual  \u2018civilizada\u2019 e doen\u00e7a nervosa moderna. Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. IX: \u2018Gradiva\u2019  de Jensen e outros trabalhos. Tradu\u00e7\u00e3o do alem\u00e3o e do ingl\u00eas sob a dire\u00e7\u00e3o-geral e revis\u00e3o t\u00e9cnica de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago Ed. 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