{"id":3566,"date":"2011-07-05T21:36:36","date_gmt":"2011-07-06T00:36:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3566"},"modified":"2011-07-05T21:36:36","modified_gmt":"2011-07-06T00:36:36","slug":"os-ritos-de-passagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/07\/05\/os-ritos-de-passagem\/","title":{"rendered":"Os ritos de passagem"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-3572\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/os-ritos-de-passagem\/os_ritos_de_passagem_1304440692p-2\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-3572\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/07\/OS_RITOS_DE_PASSAGEM_1304440692P1-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/07\/OS_RITOS_DE_PASSAGEM_1304440692P1-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/07\/OS_RITOS_DE_PASSAGEM_1304440692P1-200x200.jpg 200w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>A vida individual, qualquer que seja o tipo de sociedade, consiste em passar sucessivamente de uma idade a outra e de uma ocupa\u00e7\u00e3o a outra. Nos lugares em que as idades s\u00e3o separadas, e tamb\u00e9m as ocupa\u00e7\u00f5es, esta passagem \u00e9 acompanhada por atos especiais, que, por exemplo, constituem, para os nossos of\u00edcios, a aprendizagem, e que entre os semicivilizados consistem em cerim\u00f4nias, porque entre eles nenhum ato \u00e9 absolutamente independente do sagrado. Toda altera\u00e7\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo implica a\u00ed a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es entre o profano e o sagrado, a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es que devem ser regulamentadas e vigiadas, a fim de a sociedade geral n\u00e3o sofrer nenhum constrangimento ou dano.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Arnold Van Gennep<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Gennep, Arnol Van<\/strong><em>. <\/em><strong>Os ritos de passagem: estudo sistem\u00e1tico dos ritos da porta e da soleira, da hospitalidade, da ado\u00e7\u00e3o, gravidez e parto, nascimento, inf\u00e2ncia, puberdade, inicia\u00e7\u00e3o, coroa\u00e7\u00e3o, noivado, casamento, funerais, esta\u00e7\u00f5es, etc<\/strong><em>. 2\u00aa. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Mariano Ferreira, apresenta\u00e7\u00e3o de Roberto DaMatta. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2011, p. 24.]<\/em> \u00a0<\/span><\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 um animal essencialmente ritualista. Tudo na vida ele ritualiza. Na verdade, talvez se possa dizer que o cotidiano de todos n\u00f3s \u00e9 constitu\u00eddo por uma sequ\u00eancia mais ou menos rotineira de ritos. Em que pese esta constata\u00e7\u00e3o, existe uma categoria de ritos que tem um car\u00e1ter especial pelo seguinte motivo: eles assinalam momentos muito importantes ao longo da vida. Tais ritos cumprem a fun\u00e7\u00e3o prec\u00edpua de demarcar momentos de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Dentre os ritos que se enquadram nessa categoria, comuns \u00e0s mais diversas culturas, podem ser citados os que est\u00e3o associados \u00e0 gravidez e ao parto; ao nascimento,\u00a0 \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 puberdade; ao noivado e ao casamento; e \u00e0 morte. Todos esses podem ser considerados de alguma forma rituais de inicia\u00e7\u00e3o. Em alguns casos, s\u00e3o ritos altamente elaborados e de grande sofistica\u00e7\u00e3o, sobressaindo, dentre estes, os rituais de inicia\u00e7\u00e3o aos grandes mist\u00e9rios, quase sempre de cunho religioso ou m\u00e1gico.<\/p>\n<p>O folclorista e etn\u00f3logo germ\u00e2nico Charles-Arnold Kurr van Gennep foi um dos primeiros pesquisadores a se interessar pelo estudo sistem\u00e1tico dos ritos. Nascido em Ludwisburg, W\u00fcrttemberg, sudoeste da Alemanha, em 1873, era filho de um emigrante franc\u00eas e tenente da corte e de m\u00e3e de origem holandesa. Ap\u00f3s sua educa\u00e7\u00e3o fundamental, estudou filosofia, matem\u00e1tica, e frequentou cursos de curta dura\u00e7\u00e3o nas universidades de Neuch\u00e2tel, Cambridge e Oxford. Trabalhou para o governo franc\u00eas em duas oportunidades, na Alian\u00e7a Francesa (1903-1910) e no Congresso Internacional de Arte Popular (1919-1921). Falecido em 1957, em Bourg-la-Reine, na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Arnold van Gennep \u00a0tornou-se um respeit\u00e1vel pesquisador sobre folclore e dedicou-se desde cedo \u00e0s pesquisas sobre os ritos, sendo o livro <em>Os ritos de passagem<\/em> sua obra mais conhecida. Este livro acaba de ser lan\u00e7ado em segunda edi\u00e7\u00e3o pela Editora Vozes. Para quem quer se iniciar no estudo dos ritos, \u00e9 um livro de leitura agrad\u00e1vel, informativa e envolvente, al\u00e9m, do fato de ostentar a prerrogativa de ter sido uma das primeiras publica\u00e7\u00f5es a tratar de forma ampla e sistem\u00e1tica do tema.<\/p>\n<p>Um dos aspectos salientados nas pesquisas desenvolvidas pelo autor \u00e9 a import\u00e2ncia que diversas civiliza\u00e7\u00f5es d\u00e3o ao rito como forma de sacraliza\u00e7\u00e3o dos atos cotidianos. Essa \u00e9 uma dimens\u00e3o da experi\u00eancia que, com a modernidade, foi se perdendo nas sociedades contempor\u00e2neas. Afirma o autor: \u201c\u00c0 medida que descemos na s\u00e9rie das civiliza\u00e7\u00f5es, sendo esta palavra tomada no sentido mais amplo, constatamos a maior predomin\u00e2ncia do mundo sagrado sobre o mundo profano, o qual, nas sociedades menos evolu\u00eddas que conhecemos, engloba praticamente tudo\u201d (p. 23).<\/p>\n<p>O livro conta, ainda, com uma bela apresenta\u00e7\u00e3o do antrop\u00f3logo brasileiro Roberto DaMatta. Para concluir, cito aqui um trecho da apresenta\u00e7\u00e3o, na qual DaMatta chama a aten\u00e7\u00e3o para essa que \u00e9 uma das prerrogativas dos ritos: conferir um certo car\u00e1ter de sacralidade, de mist\u00e9rio, aos atos cotidianos: \u00a0<\/p>\n<p>\u00a0\u201cHoje,\u00a0 passados tantos anos de sua publica\u00e7\u00e3o, o livro de Van Gennep vem sendo largamente utilizado e estudado, seja como base bibliogr\u00e1fica para an\u00e1lise dos cerimoniais, seja como ponto de partida para uma reflex\u00e3o sobre o universo das rela\u00e7\u00f5es sociais formalizadas entre os homens, os grupos, os espa\u00e7os e as posi\u00e7\u00f5es sociais fixas, seja \u2013 ainda \u2013 como uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o te\u00f3rica para o problema b\u00e1sico da natureza sociol\u00f3gica dos ritos e atos teatrais, essas a\u00e7\u00f5es que tornam a rotina di\u00e1ria sen\u00e3o suport\u00e1vel ou justa, pelo menos revestem-na com um certo toque de mist\u00e9rio, dignidade e eleg\u00e2ncia\u201d (p. 9).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida individual, qualquer que seja o tipo de sociedade, consiste em passar sucessivamente de uma idade a outra e de uma ocupa\u00e7\u00e3o a outra. Nos lugares em que as idades s\u00e3o separadas, e tamb\u00e9m as ocupa\u00e7\u00f5es, esta passagem \u00e9 acompanhada por atos especiais, que, por exemplo, constituem, para os nossos of\u00edcios, a aprendizagem, e que entre os semicivilizados consistem em cerim\u00f4nias, porque entre eles nenhum ato \u00e9 absolutamente independente do sagrado. Toda altera\u00e7\u00e3o na situa\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo implica a\u00ed a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es entre o profano e o sagrado, a\u00e7\u00f5es e rea\u00e7\u00f5es que devem ser regulamentadas e vigiadas, a fim de a sociedade geral n\u00e3o sofrer nenhum constrangimento ou dano.<br \/>\nArnold Van Gennep<br \/>\n[Gennep, Arnol Van. Os ritos de passagem: estudo sistem\u00e1tico dos ritos da porta e da soleira, da hospitalidade, da ado\u00e7\u00e3o, gravidez e parto, nascimento, inf\u00e2ncia, puberdade, inicia\u00e7\u00e3o, coroa\u00e7\u00e3o, noivado, casamento, funerais, esta\u00e7\u00f5es, etc. 2\u00aa. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Mariano Ferreira, apresenta\u00e7\u00e3o de Roberto DaMatta. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2011, p. 24.]  <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":3572,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-3566","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-15-o-caminho-da-individuacao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3566"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3566\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}