{"id":3576,"date":"2011-07-06T08:54:00","date_gmt":"2011-07-06T11:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3576"},"modified":"2011-07-06T08:54:00","modified_gmt":"2011-07-06T11:54:00","slug":"sincronizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/07\/06\/sincronizacao\/","title":{"rendered":"Sincroniza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">A express\u00e3o da bondade fundamental est\u00e1 sempre ligada \u00e0 benevol\u00eancia \u2013 n\u00e3o uma benevol\u00eancia morna, d\u00e9bil, \u00e1gua-com-a\u00e7\u00facar, mas uma benevol\u00eancia \u00edntegra, animada, uma benevol\u00eancia de quem tem ombros e cabe\u00e7a aprumados. A benevol\u00eancia, nesse sentido, prov\u00e9m da experi\u00eancia da n\u00e3o-d\u00favida, da aus\u00eancia de d\u00favida. Ser livre de d\u00favida nada tem a ver com aceitar a validade de uma filosofia ou de um conceito. N\u00e3o se trata de converter-se ou submeter-se a uma cruzada at\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o se ter qualquer d\u00favida sobre as pr\u00f3prias cren\u00e7as. N\u00e3o estamos falando de pessoas que nunca t\u00eam d\u00favidas e que fazem proselitismo evangelizador, estando sempre prontas a se sacrificar por uma cren\u00e7a. N\u00e3o ter d\u00favida significa confiar no cora\u00e7\u00e3o, confiar em si mesmo. N\u00e3o ter d\u00favida significa ter vivido a experi\u00eancia de relacionar-se consigo mesmo, a experi\u00eancia de sincroniza\u00e7\u00e3o entre mente e corpo. Quando a mente e o corpo est\u00e3o sincronizados, n\u00e3o se tem d\u00favida.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Ch\u00f6gyam Trungpa<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Trungpa, Ch\u00f6gyam<\/strong><em>.<\/em> <strong>Shambhala: A Trilha Sagrada do Guerreiro<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Denise Moreno Pegorim, supervis\u00e3o, revis\u00e3o t\u00e9cnica e notas de Lincoln Berkley. S\u00e3o Paulo: Cultrix,1997, p. 54.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>H\u00e1 momentos na vida em que uma pessoa sabe. Modestamente posso afirmar que j\u00e1 passei por algumas situa\u00e7\u00f5es em minha vida em que <em>eu soube<\/em>. Mas esse saber \u00e9 de uma ordem que n\u00e3o a do saber racional. Pode parecer contradit\u00f3rio afirmar isso, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>De fato, a primeira dimens\u00e3o do saber \u00e9 racional: \u00e9 o que acontece, por exemplo, quando leio um texto sobre a Espanha em que sou informado de que esse pa\u00eds est\u00e1 situado na Europa. Depois disso, poderei afirmar sem medo de errar: eu sei que a Espanha fica na Europa. Esse seria, digamos, um saber da ordem da racionalidade, que pressup\u00f5e o conhecimento intelectual.<\/p>\n<p>Mas existe uma outra ordem do saber bem mais profunda, bem mais radical. \u00c9 um saber que n\u00e3o admite d\u00favidas, n\u00e3o admite contesta\u00e7\u00f5es . Esse saber passa, obrigat\u00f3ria e necessariamente, por uma experi\u00eancia de cunho existencial. Ele transcende todas as categorias racionais, porque inclui bem mais que a raz\u00e3o, que \u00e9 apenas uma das dimens\u00f5es de nosso ser.<\/p>\n<p>Neste saber est\u00e3o absolutamente integrados corpo e mente. Porque h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que uma pessoa sabe com o corpo. \u00c9 dif\u00edcil explicar o que \u00e9 saber com o corpo. Mas quem j\u00e1 teve oportunidade de experimentar aqueles raros momentos de lampejo em que uma clara e l\u00edmpida percep\u00e7\u00e3o toma conta de n\u00f3s, envolvendo-nos totalmente, <em>sabe<\/em> do que estou falando. Quando isso acontece, uma pessoa \u00e9. N\u00e3o h\u00e1 mais diferen\u00e7a entre aquele que percebe e a coisa percebida; na verdade, a pessoa \u00e9, neste momento, a pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma experi\u00eancia que dura n\u00e3o mais que \u00e1timo de segundo. Mas \u00e9, estranhamente, algo de tal magnitude que deixa o sujeito totalmente transformado. O curioso \u00e9 que, passado aquele momento fugaz, fica uma tal sensa\u00e7\u00e3o de tranquilidade e bem-estar, de pac\u00edfica coexist\u00eancia consigo mesmo, que o sujeito, em sua alegria serena, n\u00e3o sente qualquer necessidade de questionar nem, muito menos, de convencer ou converter a quem quer que seja. Porque sabe que aquela \u00e9 uma experi\u00eancia que independe de qualquer esfor\u00e7o de convencimento. Ela acontece quando tem que acontecer, \u00a0e isso \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>E porque agora <em>SABE<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 com a mente, mas igualmente com o corpo, aquele sujeito n\u00e3o precisa mais apelar para o proselitismo, pois somente os inseguros de suas \u00a0pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es se fazem pros\u00e9litos, por uma \u00edntima e avassaladora necessidade de convencer os outros do que ele pr\u00f3prio talvez n\u00e3o esteja totalmente convencido<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A express\u00e3o da bondade fundamental est\u00e1 sempre ligada \u00e0 benevol\u00eancia \u2013 n\u00e3o uma benevol\u00eancia morna, d\u00e9bil, \u00e1gua-com-a\u00e7\u00facar, mas uma benevol\u00eancia \u00edntegra, animada, uma benevol\u00eancia de quem tem ombros e cabe\u00e7a aprumados. A benevol\u00eancia, nesse sentido, prov\u00e9m da experi\u00eancia da n\u00e3o-d\u00favida, da aus\u00eancia de d\u00favida. Ser livre de d\u00favida nada tem a ver com aceitar a validade de uma filosofia ou de um conceito. N\u00e3o se trata de converter-se ou submeter-se a uma cruzada at\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o se ter qualquer d\u00favida sobre as pr\u00f3prias cren\u00e7as. N\u00e3o estamos falando de pessoas que nunca t\u00eam d\u00favidas e que fazem proselitismo evangelizador, estando sempre prontas a se sacrificar por uma cren\u00e7a. N\u00e3o ter d\u00favida significa confiar no cora\u00e7\u00e3o, confiar em si mesmo. N\u00e3o ter d\u00favida significa ter vivido a experi\u00eancia de relacionar-se consigo mesmo, a experi\u00eancia de sincroniza\u00e7\u00e3o entre mente e corpo. Quando a mente e o corpo est\u00e3o sincronizados, n\u00e3o se tem d\u00favida.<br \/>\nCh\u00f6gyam Trungpa<br \/>\n[Trungpa, Ch\u00f6gyam. Shambhala: A Trilha Sagrada do Guerreiro. Tradu\u00e7\u00e3o de Denise Moreno Pegorim, supervis\u00e3o, revis\u00e3o t\u00e9cnica e notas de Lincoln Berkley. 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