{"id":3578,"date":"2011-07-07T06:21:47","date_gmt":"2011-07-07T09:21:47","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3578"},"modified":"2011-07-07T06:21:47","modified_gmt":"2011-07-07T09:21:47","slug":"a-angustia-alegre-da-aventura-psicanalitica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/07\/07\/a-angustia-alegre-da-aventura-psicanalitica\/","title":{"rendered":"A ang\u00fastia alegre da aventura psicanal\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em>Devo a Victor Smirnoff algo de muito \u00edntimo no meu modo de ser psicanalista. Algo que ele me transmitiu ou que ele permitiu que eu me apropriasse \u2013 e acho que essas duas possibilidades n\u00e3o se excluem. H\u00e1 o homem com seu humor, sua vivacidade, a intelig\u00eancia e a eleg\u00e2ncia, seu interesse pela literatura, pelo cinema, pelo teatro, pela m\u00fasica, pela pintura, pela pol\u00edtica e pela vida comum da cidade. Era poss\u00edvel adivinhar o <\/em>gourmand<em>, o homem do mundo. Bem como a possibilidade das c\u00f3leras, das intransig\u00eancias. Sua paix\u00e3o pela psican\u00e1lise, seu engajamento no trabalho, a \u00e9tica, a transversalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias. Tudo isso, \u00a0mais a inven\u00e7\u00e3o permanente do encontro, estava sempre presente, constitu\u00eda o tecido de sua presen\u00e7a e, no entanto, n\u00e3o explica um contentamento alegre que sustentava, que estimulava. Eu me sentia no aconchego, era gostoso estar com ele pensando junto, era confort\u00e1vel, <\/em>cosy<em>, intenso.<\/em><\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Heitor O \u00b4Dwyer de Macedo<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Macedo, Heitor O\u00b4Dwyer de<\/strong><em>.<\/em> <strong>Cartas a uma jovem psicanalista<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Claudia Berliner. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2011, p. 157. (Estudos; 285)]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Heitor O\u00b4Dwyer de Macedo \u00e9 um psicanalista brasileiro que desde 1969 mora na Fran\u00e7a. A editora Perspectiva acaba de lan\u00e7ar um livro de sua autoria, intitulado <em>Cartas a uma jovem psicanalista<\/em>. \u00a0Pretendo brevemente postar um texto neste blog comentando o livro, mas n\u00e3o o farei ainda porque n\u00e3o conclu\u00ed a leitura. Entretanto, embora este texto que ora posto aqui n\u00e3o seja ainda um coment\u00e1rio do <em>Cartas a uma jovem psicanalista<\/em>, foi inspirado nele. A ideia de escrev\u00ea-lo surgiu quando li a carta 22, <em>O exemplo de Victor Smirnoff<\/em>.<\/p>\n<p>Nessa carta, o autor comenta a sua rela\u00e7\u00e3o com um de seus supervisores enquanto fazia a forma\u00e7\u00e3o em psican\u00e1lise, o psicanalista franc\u00eas Victor Smirnoff. A certa altura, no entusiasmo po\u00e9tico com que fala de seu supervisor, escreve: \u201cSmirnoff era a prova de que o t\u00e9dio \u00e9 antin\u00f4mico ao pensamento, ele era a demonstra\u00e7\u00e3o viva, a afirma\u00e7\u00e3o de que os materiais das descobertas cl\u00ednicas em psican\u00e1lise dependem das qualidades da inf\u00e2ncia: disponibilidade para o instante, para o espanto, para a emerg\u00eancia, para a ang\u00fastia alegre da aventura, para o risco do desconhecido\u201d (p. 162).<\/p>\n<p>Ler o trecho acima me fez pensar na ang\u00fastia alegre da aventura que \u00e9 a psican\u00e1lise, tanto para quem est\u00e1 na posi\u00e7\u00e3o de analista quanto na de analisando. Uma an\u00e1lise \u2013 quem j\u00e1 frequentou um div\u00e3 de psicanalista o sabe muito bem \u2013 demanda uma boa quota de ang\u00fastia. Principalmente quando as resist\u00eancias se fazem notar de forma muitas vezes avassaladora, a tenta\u00e7\u00e3o a desistir \u00e9 grande. No entanto, \u00e9 preciso persistir, pois a resist\u00eancia \u00e9 apenas um dos elementos inerentes ao trabalho anal\u00edtico. Na verdade, se bem manejada, a resist\u00eancia pode se converter de motivo para a desist\u00eancia em motivo para a persist\u00eancia, para o prosseguimento do processo.<\/p>\n<p>Em contrapartida, deve-se considerar que, mesmo sendo a ang\u00fastia inerente ao tratamento psicanal\u00edtico, ela n\u00e3o precisa ser uma ang\u00fastia aniquiladora. Foi nesse ponto que descobri a grande novidade da carta de Heitor O\u00b4Dwyer de Macedo aqui comentada, pois ele fala de uma <em>ang\u00fastia alegre<\/em>. \u00a0<\/p>\n<p>E por que, cabe-nos indagar, a ang\u00fastia experimentada por quem se submete a uma an\u00e1lise \u00e9 uma ang\u00fastia alegre? A resposta est\u00e1 em que uma an\u00e1lise \u00e9 tamb\u00e9m uma grande aventura, na verdade uma das mais apaixonantes e fant\u00e1sticas aventuras a que algu\u00e9m pode se entregar. \u00c9 a aventura da explora\u00e7\u00e3o dos meandros assustadores e tenebrosos do nosso inconsciente. \u00a0Pois \u00a0\u00e9 exatamente pelo \u00a0fato de nos proporcionar essa aventura que \u00a0o autor \u00e9 levado a usar para se referir a essa ang\u00fastia o qualificativo de alegre.<\/p>\n<p>Para concluir, gostaria de dizer que \u00a0\u00e9 preciso n\u00e3o olvidar que o inconsciente, essa \u00a0caverna onde jazem monstros horripilantes, abriga tamb\u00e9m os mais belos deuses, as mais belas divindades. Mas para que as divindades venham \u00e0 tona e os dem\u00f4nios sejam exorcizados, \u00e9 imprescind\u00edvel entrar de corpo e alma na ang\u00fastia alegre da aventura psicanal\u00edtica. Tal aventura se caracteriza por ser, antes de tudo, \u00a0um processo longo e oneroso, que demanda muita paci\u00eancia, mas cujo resultado podem ser maravilhosamente surpreendente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devo a Victor Smirnoff algo de muito \u00edntimo no meu modo de ser psicanalista. Algo que ele me transmitiu ou que ele permitiu que eu me apropriasse \u2013 e acho que essas duas possibilidades n\u00e3o se excluem. H\u00e1 o homem com seu humor, sua vivacidade, a intelig\u00eancia e a eleg\u00e2ncia, seu interesse pela literatura, pelo cinema, pelo teatro, pela m\u00fasica, pela pintura, pela pol\u00edtica e pela vida comum da cidade. Era poss\u00edvel adivinhar o gourmand, o homem do mundo. Bem como a possibilidade das c\u00f3leras, das intransig\u00eancias. Sua paix\u00e3o pela psican\u00e1lise, seu engajamento no trabalho, a \u00e9tica, a transversalidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias. Tudo isso,  mais a inven\u00e7\u00e3o permanente do encontro, estava sempre presente, constitu\u00eda o tecido de sua presen\u00e7a e, no entanto, n\u00e3o explica um contentamento alegre que sustentava, que estimulava. Eu me sentia no aconchego, era gostoso estar com ele pensando junto, era confort\u00e1vel, cosy, intenso.<br \/>\nHeitor O \u00b4Dwyer de Macedo<br \/>\n[Macedo, Heitor O\u00b4Dwyer de. Cartas a uma jovem psicanalista. Tradu\u00e7\u00e3o Claudia Berliner. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2011, p. 157. (Estudos; 285)] <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-3578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-15-o-caminho-da-individuacao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3578\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}