{"id":364,"date":"2009-08-06T06:21:41","date_gmt":"2009-08-06T11:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=364"},"modified":"2009-08-06T06:21:41","modified_gmt":"2009-08-06T11:21:41","slug":"razao-e-transcendencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/06\/razao-e-transcendencia\/","title":{"rendered":"Raz\u00e3o e transcend\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">\u00d3 almas obstinadas! dai-me um homem que contemple (estas verdades), sem imaginar nada de carnal. Dai-me quem veja que unicamente o Uno perfeito \u00e9 o princ\u00edpio de todas as coisas que possuem unidade, nelas planificando ou n\u00e3o, essa unidade. Dai-me um homem que veja, sem levantar obje\u00e7\u00f5es, sem se dar ar de ver o que n\u00e3o v\u00ea. Dai-me um homem que resista ao fluxo de sensa\u00e7\u00f5es carnais e aos golpes que elas infligem em sua alma. Algu\u00e9m que resista aos costumes dos homens, aos elogios humanos, que chore no leito as suas culpas, que se dedique a reformar seu esp\u00edrito, sem apego \u00e0s vaidades, sem busca de ilus\u00f5es.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Santo Agostinho<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[A verdadeira religi\u00e3o; O cuidado devido aos mortos. Trad. de Nair de Assis Oliveira. &#8211; S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002, p. 89. (Patr\u00edstica; 19).]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Gostaria de tratar aqui de um tema que muito me agrada e muito me tem feito refletir: as possibilidades e limites da raz\u00e3o no que toca \u00e0 apreens\u00e3o do Sagrado. Valho-me, para esta reflex\u00e3o, da quinta parte do livro de Santo Agostinho, &#8220;A verdadeira religi\u00e3o&#8221;. Santo Agostinho atribuiu a essa parte do livro um t\u00edtulo que me parece, a um s\u00f3 tempo, instigador e provocativo: &#8220;A salva\u00e7\u00e3o pela raz\u00e3o&#8221;.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio, o bispo de Hipona prop\u00f5e a quest\u00e3o com as seguintes palavras: &#8220;Vejamos, agora, at\u00e9 onde pode ir a raz\u00e3o na sua ascens\u00e3o do vis\u00edvel ao invis\u00edvel, do temporal ao eterno&#8221; (p.77). Agostinho parte da contempla\u00e7\u00e3o da natureza atrav\u00e9s das impress\u00f5es que nos chegam atrav\u00e9s dos sentidos do corpo. Os sentidos, por\u00e9m, t\u00eam algumas limita\u00e7\u00f5es que lhes s\u00e3o pr\u00f3prias, n\u00e3o sendo poss\u00edvel uma apreens\u00e3o absolutamente verdadeira da realidade exatamente devido a tais limita\u00e7\u00f5es. Prop\u00f5e como exemplo, para ilustrar o seu argumento, um objeto imerso na \u00e1gua, o qual \u00e9 percebido pela vis\u00e3o como se estivesse quebrado ou torto. A percep\u00e7\u00e3o em si n\u00e3o est\u00e1 incorreta, pois \u00e9 pr\u00f3prio da vis\u00e3o assim perceber um objeto nessas condi\u00e7\u00f5es, ou seja, imerso na \u00e1gua.\u00a0<\/p>\n<p>O homem, por\u00e9m, \u00e9 dotado de uma mente racional que lhe permite julgar aquilo que percebe, o que o torna diferente dos animais. Caber\u00e1 \u00e0 raz\u00e3o julgar se o que percebe atrav\u00e9s da vis\u00e3o e dos demais sentidos \u00e9 ou n\u00e3o uma express\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>Esse racioc\u00ednio parte do pressuposto de que existiria algo que poderia ser tido como a Verdade. Na perspectiva de santo Agostinho, a Verdade \u00e9 o Uno, do qual tudo prov\u00e9m. Cabe ao homem envidar os esfor\u00e7os necess\u00e1rios \u00e0 apreens\u00e3o do Uno. Para tanto, necess\u00e1rio se faz que a mente atinja um estado de repouso, de quietude, em que as fantasias pr\u00f3prias da imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais a agitem. &#8220;Se as considera\u00e7\u00f5es acima perturbam o olhar de vossa mente&#8221;, recomenda Agostinho, &#8220;aquietai-vos. N\u00e3o luteis sen\u00e3o contra o mau h\u00e1bito das imagina\u00e7\u00f5es corp\u00f3reas. Vencei-as e tudo mais ser\u00e1 vencido&#8221; (p.90).<\/p>\n<p>Na sexta parte do livro, santo Agostinho resume o procedimento necess\u00e1rio para atingir o almejado repouso, que facultar\u00e1 \u00e0 mente chegar\u00a0\u00e0 transcend\u00eancia, condi\u00e7\u00e3o para que possa aceder \u00e0 Verdade: &#8220;N\u00e3o saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no cora\u00e7\u00e3o do homem. E se n\u00e3o encontras sen\u00e3o a tua natureza sujeita a mudan\u00e7as, vai al\u00e9m de ti mesmo. Em te ultrapassando, por\u00e9m, n\u00e3o te esque\u00e7as que transcendes tua alma que raciocina. Portanto, dirige-te \u00e0 fonte da pr\u00f3pria luz da raz\u00e3o&#8221; (p.98).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3 almas obstinadas! dai-me um homem que contemple (estas verdades), sem imaginar nada de carnal. 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