{"id":3642,"date":"2011-08-02T10:01:14","date_gmt":"2011-08-02T13:01:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3642"},"modified":"2011-08-02T10:01:14","modified_gmt":"2011-08-02T13:01:14","slug":"retornando-ao-mito-pessoal-iii-artaban-me-apresenta-adao-cadmon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/08\/02\/retornando-ao-mito-pessoal-iii-artaban-me-apresenta-adao-cadmon\/","title":{"rendered":"Retornando ao mito pessoal III: Artaban me apresenta Ad\u00e3o Cadmon"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Encontramos em toda pessoa a ideia do Ad\u00e3o Cadmon \u2013 o Cristo em n\u00f3s. Cristo \u00e9 o segundo Ad\u00e3o, o que corresponde nas religi\u00f5es orientais \u00e0 ideia do atm\u00e3 ou do homem total, do homem original, o homem \u201ctodo redondo\u201d de PLAT\u00c3O \u2013 que \u00e9 simbolizado por um c\u00edrculo ou por uma pintura com motivos redondos. Encontramos todas essas ideias na m\u00edstica medieval, na literatura alquimista em geral, desde o primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3. Encontramo-las no gnosticismo e encontramos muitas delas naturalmente no Novo Testamento, em Paulo. Mas \u00e9 um desenvolvimento absolutamente consistente da ideia de Cristo em n\u00f3s \u2013 n\u00e3o o Cristo hist\u00f3rico fora de n\u00f3s, mas o Cristo dentro de n\u00f3s; e o argumento diz que \u00e9 imoral deixar Cristo sofrer por n\u00f3s, que ele j\u00e1 sofreu que chega e que devemos finalmente carregar nossos pr\u00f3prios pecados e n\u00e3o coloc\u00e1-los sobre Cristo \u2013 n\u00f3s todos dever\u00edamos carreg\u00e1-los em conjunto. Cristo expressa a mesma ideia quando diz: \u201cEu estou presente no menor de vossos irm\u00e3os\u201d. E o que dizer, meu caro, se o menor de teus irm\u00e3os fosse voc\u00ea mesmo \u2013 o que dizer ent\u00e3o? Ent\u00e3o voc\u00ea percebe que Cristo n\u00e3o deveria ser o menor em sua vida e que n\u00f3s temos um irm\u00e3o dentro de n\u00f3s que \u00e9 realmente o menor de nossos irm\u00e3os, muito pior que o pobre mendigo a quem demos comida. Isto significa que temos dentro de n\u00f3s uma sombra, algu\u00e9m muito mau, algu\u00e9m extremamente pobre, mas que precisa ser aceito. O que fez Cristo \u2013 sejamos bem banais \u2013 quando o consideramos como ser puramente humano? Cristo foi desobediente \u00e0 sua m\u00e3e; Cristo desobedeceu \u00e0 sua tradi\u00e7\u00e3o; Cristo se apresentou como enganador e representou esse papel at\u00e9 o amargo fim; ele sustentou sua hip\u00f3tese at\u00e9 seu triste fim. Como nasceu Cristo? Na maior mis\u00e9ria. Quem era seu pai? Era filho ileg\u00edtimo \u2013 do ponto de vista humano, uma situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel: uma pobre mo\u00e7a que tinha um filho pequeno. Isto \u00e9 o nosso s\u00edmbolo, isto somos n\u00f3s; n\u00f3s somos tudo isto. E se algu\u00e9m viver sua pr\u00f3pria hip\u00f3tese at\u00e9 o amargo fim (e tiver que pagar talvez com a morte) saber\u00e1 que Cristo \u00e9 seu irm\u00e3o.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">C. G. Jung \u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">[<strong>Jung, C. G. III. <\/strong><strong>A vida simb\u00f3lica<\/strong>. Em: <strong>Jung, C. G. \u00a0A vida simb\u00f3lica: escritos diversos<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Araceli Elman, Edgar Orth; revis\u00e3o liter\u00e1ria de L\u00facia Mathilde Endlich Orth; revis\u00e3o t\u00e9cnica de Jette Bonaventura. \u2013 Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1997. \u2013 (Obras completas de C. G. Jung; v. 18\/1), p. 279.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Ontem \u00e0 tarde ele me apareceu. Sem qualquer aviso pr\u00e9vio, ele surgiu de repente bem \u00e0 minha frente, a exemplo do que acontecera com Dom Cristiano. Ali\u00e1s, de forma mais estranha ainda, pois ele me apareceu em plena rua, enquanto eu caminhava absorto em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 livraria Paulus. Senti a sua presen\u00e7a pelo toque discreto no meu ombro. Virei a cabe\u00e7a e ele, de chofre, surgiu bem ao meu lado. Apareceu e foi logo falando:<\/p>\n<p>\u201cSalve, meu velho amigo Vasco. Vejo que est\u00e1 indo \u00e0 Paulus. Um belo livro, sem d\u00favida, o que pretendes adquirir. \u00c9 um livro bem caro, mas vale o pre\u00e7o, uma obra de refer\u00eancia. Al\u00e9m disso, tem tudo a ver com a tua hip\u00f3tese. Mas tua ida hoje \u00e0 livraria ser\u00e1 v\u00e3, pois n\u00e3o encontrar\u00e1s o livro por l\u00e1, todos os exemplares dispon\u00edveis foram vendidos. De qualquer maneira, poder\u00e1s encomend\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>Intrigado com a refer\u00eancia ao que ele chamou de minha hip\u00f3tese, indaguei: \u201cHip\u00f3tese? Que hip\u00f3tese? N\u00e3o tenho hip\u00f3tese nenhuma\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAh!, tem, tem sim\u201d, retrucou. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o sabe, mas tem uma hip\u00f3tese, sim. Tenho te observado \u00e0 dist\u00e2ncia nos \u00faltimos dias, por isso posso te assegurar que tens uma hip\u00f3tese, sim, e est\u00e1s disposto a viv\u00ea-la integralmente, at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias. Ali\u00e1s, sei que almejas entrar no templo-castelo brevemente. E n\u00e3o tenho d\u00favida de que o far\u00e1s, pois ele est\u00e1 quase aberto para ti. Mas n\u00e3o penses que me deixar\u00e1s de fora quando l\u00e1 adentrares. \u00a0Pensavas que terias por companhia apenas Dom Cristiano. Estavas enganado, meu amigo. Se esqueces de mim, n\u00e3o lograr\u00e1s entrar no templo-castelo. O momento de tua inicia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito belo, e eu estarei l\u00e1 para presenci\u00e1-lo. Posso at\u00e9 te adiantar o seguinte: ao cruzares o umbral, ter\u00e1s em tua companhia dois amigos, um \u00e0 tua direita e outro \u00e0 tua esquerda: Dom Cristiano e eu, o inc\u00f4modo Artaban. Muitas vezes tenho te parecido inc\u00f4modo, mas estejas certo de que, sem a minha companhia, n\u00e3o entrar\u00e1s no templo-castelo. Sou, portanto, um inc\u00f4modo necess\u00e1rio, muito mais necess\u00e1rio do que poderias supor\u201d.<\/p>\n<p>Estaquei de repente no momento em que deixava o parque das crian\u00e7as, que tomara como atalho no caminho para a Paulus. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Artaban completou, finalizando sua inusitada visita:<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o digas nada. Hoje n\u00e3o te compete falar nada, apenas ouvir. Ali\u00e1s, acho que algu\u00e9m te fez essa mesma observa\u00e7\u00e3o h\u00e1 poucos dias, n\u00e3o? Bem, para concluir, meu amigo Vasco, pois n\u00e3o posso mais me demorar contigo, quero que, ao chegar em casa hoje, leias um texto do velho mestre de Kesswil. \u00a0Est\u00e1 no volume dezoito um de suas Obras Completas. Na verdade, nem precisa ler o cap\u00edtulo na \u00edntegra, pois o que quero mesmo que leias \u00e9 o trecho da p\u00e1gina 279 no qual ele fala de Cristo. Depois de o leres, compreender\u00e1s melhor a minha refer\u00eancia \u00e0 hip\u00f3tese. E comprender\u00e1s igualmente o quanto te sou necess\u00e1rio, ainda que, n\u00e3o raro, te pare\u00e7a inc\u00f4modo. At\u00e9 mais ver, meu amigo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, ao chegar em casa, a primeira coisa que fiz foi pegar o livro de Jung e p\u00f4r sobre o bir\u00f4. Depois do jantar, fui ler o texto. Reli-o umas quatro vezes. Que texto inquietante!<\/p>\n<p>Esta madrugada eu teria um sonho de cujo sentido, somente ao escrever este relato para o Sincronicidade, me dei conta, o qual est\u00e1 diretamente relacionado ao texto de Jung e com as observa\u00e7\u00f5es de Artaban. Mas isso \u00e9 assunto para outra ocasi\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encontramos em toda pessoa a ideia do Ad\u00e3o Cadmon \u2013 o Cristo em n\u00f3s. Cristo \u00e9 o segundo Ad\u00e3o, o que corresponde nas religi\u00f5es orientais \u00e0 ideia do atm\u00e3 ou do homem total, do homem original, o homem \u201ctodo redondo\u201d de PLAT\u00c3O \u2013 que \u00e9 simbolizado por um c\u00edrculo ou por uma pintura com motivos redondos. Encontramos todas essas ideias na m\u00edstica medieval, na literatura alquimista em geral, desde o primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3. Encontramo-las no gnosticismo e encontramos muitas delas naturalmente no Novo Testamento, em Paulo. Mas \u00e9 um desenvolvimento absolutamente consistente da ideia de Cristo em n\u00f3s \u2013 n\u00e3o o Cristo hist\u00f3rico fora de n\u00f3s, mas o Cristo dentro de n\u00f3s; e o argumento diz que \u00e9 imoral deixar Cristo sofrer por n\u00f3s, que ele j\u00e1 sofreu que chega e que devemos finalmente carregar nossos pr\u00f3prios pecados e n\u00e3o coloc\u00e1-los sobre Cristo \u2013 n\u00f3s todos dever\u00edamos carreg\u00e1-los em conjunto. Cristo expressa a mesma ideia quando diz: \u201cEu estou presente no menor de vossos irm\u00e3os\u201d. E o que dizer, meu caro, se o menor de teus irm\u00e3os fosse voc\u00ea mesmo \u2013 o que dizer ent\u00e3o? Ent\u00e3o voc\u00ea percebe que Cristo n\u00e3o deveria ser o menor em sua vida e que n\u00f3s temos um irm\u00e3o dentro de n\u00f3s que \u00e9 realmente o menor de nossos irm\u00e3os, muito pior que o pobre mendigo a quem demos comida. Isto significa que temos dentro de n\u00f3s uma sombra, algu\u00e9m muito mau, algu\u00e9m extremamente pobre, mas que precisa ser aceito. O que fez Cristo \u2013 sejamos bem banais \u2013 quando o consideramos como ser puramente humano? Cristo foi desobediente \u00e0 sua m\u00e3e; Cristo desobedeceu \u00e0 sua tradi\u00e7\u00e3o; Cristo se apresentou como enganador e representou esse papel at\u00e9 o amargo fim; ele sustentou sua hip\u00f3tese at\u00e9 seu triste fim. Como nasceu Cristo? Na maior mis\u00e9ria. Quem era seu pai? Era filho ileg\u00edtimo \u2013 do ponto de vista humano, uma situa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel: uma pobre mo\u00e7a que tinha um filho pequeno. Isto \u00e9 o nosso s\u00edmbolo, isto somos n\u00f3s; n\u00f3s somos tudo isto. E se algu\u00e9m viver sua pr\u00f3pria hip\u00f3tese at\u00e9 o amargo fim (e tiver que pagar talvez com a morte) saber\u00e1 que Cristo \u00e9 seu irm\u00e3o.<br \/>\nC. G. Jung<br \/>\n[Jung, C. G. III. A vida simb\u00f3lica. Em: Jung, C. G.  A vida simb\u00f3lica: escritos diversos. Tradu\u00e7\u00e3o de Araceli Elman, Edgar Orth; revis\u00e3o liter\u00e1ria de L\u00facia Mathilde Endlich Orth; revis\u00e3o t\u00e9cnica de Jette <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,43],"tags":[],"class_list":["post-3642","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-15-o-caminho-da-individuacao","category-23-o-bau-do-escriba-artaban"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3642","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3642"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3642\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3642"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3642"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3642"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}