{"id":3788,"date":"2011-09-05T10:37:23","date_gmt":"2011-09-05T13:37:23","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3788"},"modified":"2011-09-05T10:37:23","modified_gmt":"2011-09-05T13:37:23","slug":"um-expresso-repleto-de-reminiscencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/09\/05\/um-expresso-repleto-de-reminiscencias\/","title":{"rendered":"Um expresso repleto de reminisc\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-3792\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/um-expresso-repleto-de-reminiscencias\/o-excpresso-do-passado\/\"><\/a><a rel=\"attachment wp-att-3798\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/um-expresso-repleto-de-reminiscencias\/o-excpresso-do-passado-3\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-3798\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/09\/O-excpresso-do-passado2-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Noite alta, in\u00edcio da madrugada. Embora mantenha os olhos hermeticamente fechados, continuo acordado. A perda do sono e a escurid\u00e3o do quarto liberam minha imagina\u00e7\u00e3o na busca de imagens e fatos h\u00e1 muito perdidos na imensid\u00e3o do tempo. Meu pensamento, como um trem expresso, se desloca em velocidade vertiginosa em dire\u00e7\u00e3o ao passado e faz escalas n\u00e3o programadas em \u00e9pocas e lugares distantes. E eu, passageiro insone, aos poucos localizo, nos rec\u00f4nditos esconderijos da mem\u00f3ria, as lembran\u00e7as mais remotas de minha exist\u00eancia.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Seridi\u00e3o Correia Montenegro.<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Montenegro, Seridi\u00e3o Correia<\/strong><em>.<\/em><strong> O expresso do passado<\/strong><em>. \u2013 Fortaleza: Tiprogresso, 2010, p. 23.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Quinta-feira da semana passada, pouco depois de acordar, peguei na cozinha \u00a0uma x\u00edcara de caf\u00e9, e, depois de me instalar comodamente na cadeira onde sempre fa\u00e7o minhas leituras, \u00a0embarquei n\u2019<em>O expresso do passado<\/em> para uma viagem no tempo. \u00a0E, de fato, imediatamente me senti transportado ao passado, como se houvesse entrado numa dessas c\u00e1psulas do tempo que vez por outra aparecem nos filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o pude experimentar logo na primeira escala da viagem, que aconteceu numa determinada esta\u00e7\u00e3o situada no n\u00famero 1297 da Rua General Sampaio. T\u00e3o logo o expresso parou, um senhor simp\u00e1tico e conversador, de nome Seridi\u00e3o, a quem eu acabara de conhecer ao embarcar naquela viagem\u00a0 &#8211; de quem eu me fizera companheiro de jornada ao sentar ao seu lado -, apontando uma das esquinas \u00a0do quarteir\u00e3o, falou:<\/p>\n<p>\u201cNa esquina da Rua General Sampaio com Pedro I, havia a \u2018bodega\u2019 do \u2018seu Noronha\u2019, \u00a0onde faz\u00edamos as nossas compras do dia a dia.<\/p>\n<p>\u201cDe acordo com o costume da \u00e9poca, na bodega todos compravam fiado. O valor da compra era anotado na \u2018caderneta\u2019, para pagamento semanal, quinzenal ou mensal, de acordo com a periodicidade do pagamento do sal\u00e1rio do \u2018fregu\u00eas\u2019. Era raro algu\u00e9m pagar no ato da compra, mas, na data prevista, o fregu\u00eas quitava seu d\u00e9bito, para manter o cr\u00e9dito e poder continuar comprando\u201d (p. 27).<\/p>\n<p>Aqueles dois epis\u00f3dios foram suficientes para realmente me precipitar de volta ao passado. Por dois motivos: primeiro, porque quando vim morar em Fortaleza, l\u00e1 pelos idos de 1980, minha primeira resid\u00eancia foi uma pens\u00e3o na Rua 24 de maio, entre as ruas Pedro I e Pedro Pereira, e na esquina apontada pelo meu companheiro de viagem eu passava quase diariamente; segundo, porque relembrei minha adolesc\u00eancia, quando, ainda residindo em Massap\u00ea, eu trabalhava com meu pai em sua mercearia e in\u00fameras vezes anotei numa caderneta os \u201cfiados\u201d que eram pagos no fim do m\u00eas; \u00a0pr\u00e1tica, ali\u00e1s, ainda hoje adotada por ele, pois papai, aos 74 anos, mant\u00e9m seu estabelecimento comercial em plena atividade. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Depois dessa parada r\u00e1pida nossa viagem prosseguiu, e, novamente bem instalados no expresso \u2013 ali fazendo a vez de c\u00e1psula do tempo -, assumiu meu companheiro a incumb\u00eancia de me proporcionar boas gargalhadas, \u00e0 medida em que relatava epis\u00f3dios hilariantes de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Num desses epis\u00f3dios, \u00a0Salvina, amiga de sua m\u00e3e que, em certas ocasi\u00f5es, a ajudava nos afazeres dom\u00e9sticos e na lida com as crian\u00e7as, tendo que resolver uma pend\u00eancia no Col\u00e9gio da Imaculada e n\u00e3o tendo com quem deixar o pequeno Seridi\u00e3o de apenas dois anos de idade, n\u00e3o viu outra alternativa sen\u00e3o vestir o pequeno com roupas femininas e lev\u00e1-lo junto, uma vez que aquele estabelecimento de ensino era apenas feminino. Tudo corria muito bem e a \u2018garotinha\u2019 estava mesmo sendo um sucesso entre as irm\u00e3s, pois todas queiram p\u00f4-la no colo. O problema \u00e9 que a \u2018pequena\u2019 havia ingerido bastante suco e a\u00ed aconteceu o inevit\u00e1vel, conforme narrou o pr\u00f3prio Seridi\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cEm p\u00e9 sobre uma pequena mesa de sala de entrada do col\u00e9gio, num movimento natural e inesperado, levantei o vestido, puxei lateralmente a calcinha e deixei escorrer, abundantemente, o l\u00edquido acumulado, diante do olhar at\u00f4nito e constrangido das freiras presentes\u201d (p. 32).<\/p>\n<p>Depois dessa narrativa que me arrancou uma gargalhada daquelas que provoca na gente uma verdadeira catarse, nossa viagem prosseguiu, permeada de outras tantas hist\u00f3rias engra\u00e7adas e curiosas. Ao mesmo tempo, aquela jornada n\u2019<em>O expresso do passado<\/em> me proporcionou a oportunidade de conhecer uma Fortaleza que eu n\u00e3o conhecia, pois diversos dos s\u00edtios e logradouros elencados por Seridi\u00e3o n\u00e3o mais existem ou foram modificados, lugares estes que uma pessoa como eu, que veio morar em Fortaleza apenas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, n\u00e3o teve oportunidade de conhecer. \u00a0Ao mesmo tempo, tomei conhecimento de fatos protagonizados por algumas pessoas que eu apenas conhecia devido \u00e0 proje\u00e7\u00e3o que adquiriram em virtude de suas atividades profissionais ou fun\u00e7\u00f5es hoje exercidas, o que as projetou no cen\u00e1rio de Fortaleza, com as quais Seridi\u00e3o teve oportunidade de conviver na juventude.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que proporciona a leitura do livro de Seridi\u00e3o Correia Montenegro, <em>O expresso do passado<\/em>, uma agrad\u00e1vel jornada pela hist\u00f3ria do autor, entremeada de relatos bem humorados, al\u00e9m de um reencontro com lugares e personagens que fizeram a hist\u00f3ria de nossa amada Fortaleza, cidade da qual me fiz filho por ado\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Noite alta, in\u00edcio da madrugada. Embora mantenha os olhos hermeticamente fechados, continuo acordado. A perda do sono e a escurid\u00e3o do quarto liberam minha imagina\u00e7\u00e3o na busca de imagens e fatos h\u00e1 muito perdidos na imensid\u00e3o do tempo. Meu pensamento, como um trem expresso, se desloca em velocidade vertiginosa em dire\u00e7\u00e3o ao passado e faz escalas n\u00e3o programadas em \u00e9pocas e lugares distantes. E eu, passageiro insone, aos poucos localizo, nos rec\u00f4nditos esconderijos da mem\u00f3ria, as lembran\u00e7as mais remotas de minha exist\u00eancia.<br \/>\nSeridi\u00e3o Correia Montenegro.<br \/>\n[Montenegro, Seridi\u00e3o Correia. O expresso do passado. \u2013 Fortaleza: Tiprogresso, 2010, p. 23.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":3798,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3788","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3788","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3788"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3788\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3788"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3788"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3788"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}