{"id":3993,"date":"2011-10-10T06:15:14","date_gmt":"2011-10-10T09:15:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=3993"},"modified":"2011-10-10T06:15:14","modified_gmt":"2011-10-10T09:15:14","slug":"razao-e-revelacao-em-sao-tomas-de-aquino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/10\/10\/razao-e-revelacao-em-sao-tomas-de-aquino\/","title":{"rendered":"Raz\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/razao-e-revelacao-em-sao-tomas-de-aquino\/sao_tomas_de_aquino\/\" rel=\"attachment wp-att-3997\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-3997\" alt=\"\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/10\/S\u00e3o_Tom\u00e1s_de_Aquino-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>(&#8230;) o argumento de Tom\u00e1s de Aquino em favor da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante racionalista; e, por outro lado, claramente democr\u00e1tico e popular. Esse argumento nada tem contra a raz\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, parece inclinado a admitir que poder\u00edamos alcan\u00e7ar a verdade atrav\u00e9s de um processo racional, se f\u00f4ssemos suficientemente racionais; e tamb\u00e9m se continu\u00e1ssemos racionais durante o tempo necess\u00e1rio para isso. Na verdade, algo de seu car\u00e1ter, que em outro lugar chamei de otimismo, e para o qual n\u00e3o conhe\u00e7o outro termo mais pr\u00f3ximo, levou-o antes a exagerar o grau at\u00e9 o qual todos os homens acabariam por ouvir a voz da raz\u00e3o. Em suas controv\u00e9rsias, S\u00e3o Tom\u00e1s sempre sup\u00f5e que os homens v\u00e3o ouvir a voz da raz\u00e3o. Isto \u00e9, ele acredita firmemente que \u00e9 poss\u00edvel convenc\u00ea-los por meio da argumenta\u00e7\u00e3o, quando eles conseguem acompanh\u00e1-la at\u00e9 o fim. S\u00f3 que seu senso comum lhe disse ainda que a argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina nunca. Eu poderia convencer um homem de que a mat\u00e9ria como origem da mente \u00e9 algo bem insensato se ele e eu gost\u00e1ssemos muito um do outro, e discut\u00edssemos acaloradamente um com o outro todas as noites durante quarenta anos. Mas, bem antes de ele se convencer, j\u00e1 no leito de morte, teriam nascido mil outros materialistas, e ningu\u00e9m seria capaz de explicar tudo a todos. S\u00e3o Tom\u00e1s julga que a alma de todas as pessoas comuns que trabalham duro e t\u00eam uma mente n\u00e3o sofisticada \u00e9 t\u00e3o importante como a alma dos pensadores e dos que se dedicam \u00e0 busca da verdade; e pergunta como todas essas pessoas poderiam encontrar tempo para a quantidade de racioc\u00ednios necess\u00e1ria para a descoberta da verdade. Todo o tom da passagem mostra tanto o respeito pela pesquisa cient\u00edfica como uma forte simpatia pelo homem comum. Seu argumento em favor da revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um argumento contra a raz\u00e3o, e sim a favor da revela\u00e7\u00e3o. A conclus\u00e3o que ele tira disso \u00e9 que os homens t\u00eam de receber as verdades mais elevadas de maneira miraculosa, pois do contr\u00e1rio a maioria n\u00e3o as receberia. Seus argumentos s\u00e3o racionais e naturais, mas suas dedu\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas favor\u00e1veis ao sobrenatural; e, como \u00e9 comum no caso de sua argumenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar nenhuma dedu\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser na pr\u00f3pria dedu\u00e7\u00e3o que ele faz. E, quando chegamos l\u00e1, descobrimos que \u00e9 algo t\u00e3o simples quanto o pr\u00f3prio S\u00e3o Francisco teria desejado que fosse: a mensagem vinda do c\u00e9u, a hist\u00f3ria contada a partir do c\u00e9u, o conto de fadas que na realidade \u00e9 verdadeiro.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">G. K. Chesterton<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Chesterton, G. K.<\/strong><em> <\/em><strong>S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino: as complexidades da raz\u00e3o<\/strong><em>. In: <\/em><strong>Chesterton, G. K.\u00a0 S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e S\u00e3o Francisco de Assis.<\/strong><em> Tradu\u00e7\u00e3o Adail Ubirajara Sobral \/ Maria Stela Gon\u00e7alves. \u2013 Rio de Janeiro: Ediouro, 2009, p. 208.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Adquiri recentemente um livro editado no Brasil pela Ediouro que inclui duas biografias escritas por Gilbert Keith Chesterton: uma, de S\u00e3o Francisco de Assis, e outra de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino. Tenho me dedicado \u00e0 leitura desta \u00faltima. Um trecho, em especial, tem sido motivo para muita reflex\u00e3o. Citei-o em ep\u00edgrafe a este texto. Nele, o autor fala da discuss\u00e3o levada a efeito pelo Doutor Ang\u00e9lico a prop\u00f3sito do bin\u00f4mio raz\u00e3o e revela\u00e7\u00e3o. Conforme Chesterton, a conclus\u00e3o do Santo \u201c\u00e9 que os homens t\u00eam de receber as verdades morais mais elevadas de maneira miraculosa, pois do contr\u00e1rio a maioria n\u00e3o as receberia\u201d.<\/p>\n<p>Nunca li Tom\u00e1s de Aquino, embora tenha em minha biblioteca os volumes da Suma Teol\u00f3gica. Era uma leitura que eu vinha adiando. O encontro com a biografia de Chesterton, por\u00e9m, tem sido um incentivo especial para que me disponha a iniciar logo o projeto. Interessa-me particularmente essa intera\u00e7\u00e3o entre a f\u00e9 consciente e racionalmente admitida e aceita, e a f\u00e9 revelada. \u00c9 uma quest\u00e3o em aberto. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro para mim at\u00e9 que ponto a f\u00e9 pode ser uma escolha apenas racional, e, uma vez feita a op\u00e7\u00e3o por essa via de acesso, at\u00e9 que ponto tal f\u00e9 pode se mostrar eficaz.<\/p>\n<p>Inclino-me a pensar, no est\u00e1gio em que me encontro, que a f\u00e9 verdadeiramente aut\u00eantica e eficaz \u00e9 aquela que se imp\u00f5e ao indiv\u00edduo atrav\u00e9s da revela\u00e7\u00e3o. Ao afirm\u00e1-lo, por\u00e9m, o fa\u00e7o com certa precau\u00e7\u00e3o, pois tamb\u00e9m n\u00e3o tenho quaisquer garantias quanto \u00e0 exist\u00eancia ou n\u00e3o de verdades reveladas. Permane\u00e7o, ainda, no limbo da d\u00favida. Creio ainda muito racionalmente, muito mais por tentativa que por convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que eu n\u00e3o poderia concluir este breve texto de outro modo a n\u00e3o ser me valendo das \u00faltimas linhas do excerto da biografia escrita por Chesterton, citada em ep\u00edgrafe. Diz o autor:<\/p>\n<p><em>E, quando chegamos l\u00e1, descobrimos que \u00e9 algo t\u00e3o simples quanto o pr\u00f3prio S\u00e3o Francisco teria desejado que fosse: a mensagem vinda do c\u00e9u, a hist\u00f3ria contada a partir do c\u00e9u, o conto de fadas que na realidade \u00e9 verdadeiro.<\/em><\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o me \u00e9 raro pensar o monumental arcabou\u00e7o da f\u00e9 crist\u00e3 como um grande e bem elaborado mito, no qual est\u00e3o imbricados alguns (poucos?) fatos comprovadamente hist\u00f3ricos, ou seja, em \u00faltima an\u00e1lise, talvez <em>um magn\u00edfico conto de fadas<\/em>. A quest\u00e3o \u00e9: ser\u00e1 que Chesterton tem raz\u00e3o quando afirma que este conto de fadas \u201cna realidade \u00e9 verdadeiro?\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(&#8230;) o argumento de Tom\u00e1s de Aquino em favor da revela\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante racionalista; e, por outro lado, claramente democr\u00e1tico e popular. Esse argumento nada tem contra a raz\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, parece inclinado a admitir que poder\u00edamos alcan\u00e7ar a verdade atrav\u00e9s de um processo racional, se f\u00f4ssemos suficientemente racionais; e tamb\u00e9m se continu\u00e1ssemos racionais durante o tempo necess\u00e1rio para isso. Na verdade, algo de seu car\u00e1ter, que em outro lugar chamei de otimismo, e para o qual n\u00e3o conhe\u00e7o outro termo mais pr\u00f3ximo, levou-o antes a exagerar o grau at\u00e9 o qual todos os homens acabariam por ouvir a voz da raz\u00e3o. Em suas controv\u00e9rsias, S\u00e3o Tom\u00e1s sempre sup\u00f5e que os homens v\u00e3o ouvir a voz da raz\u00e3o. Isto \u00e9, ele acredita firmemente que \u00e9 poss\u00edvel convenc\u00ea-los por meio da argumenta\u00e7\u00e3o, quando eles conseguem acompanh\u00e1-la at\u00e9 o fim. S\u00f3 que seu senso comum lhe disse ainda que a argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina nunca. Eu poderia convencer um homem de que a mat\u00e9ria como origem da mente \u00e9 algo bem insensato se ele e eu gost\u00e1ssemos muito um do outro, e discut\u00edssemos acaloradamente um com o outro todas as noites durante quarenta anos. Mas, bem antes de ele se convencer, j\u00e1 no leito de morte, teriam nascido mil outros materialistas, e ningu\u00e9m seria capaz de explicar tudo a todos. S\u00e3o Tom\u00e1s julga que a alma de todas as pessoas comuns que trabalham duro e t\u00eam uma mente n\u00e3o sofisticada \u00e9 t\u00e3o importante como a alma dos pensadores e dos que se dedicam \u00e0 busca da verdade; e pergunta como todas essas pessoas poderiam encontrar tempo para a quantidade de racioc\u00ednios necess\u00e1ria para a descoberta da verdade. Todo o tom da passagem mostra tanto o respeito pela pesquisa cient\u00edfica como uma forte simpatia pelo homem comum. Seu argumento em favor da revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um argumento contra a raz\u00e3o, e sim a favor da revela\u00e7\u00e3o. A conclus\u00e3o que ele tira disso \u00e9 que os homens t\u00eam de receber as verdades mais elevadas de maneira miraculosa, pois do contr\u00e1rio a maioria n\u00e3o as receberia. Seus argumentos s\u00e3o racionais e naturais, mas suas dedu\u00e7\u00f5es s\u00e3o todas favor\u00e1veis ao sobrenatural; e, como \u00e9 comum no caso de sua argumenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar nenhuma dedu\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser na pr\u00f3pria dedu\u00e7\u00e3o que ele faz. E, quando chegamos l\u00e1, descobrimos que \u00e9 algo t\u00e3o simples quanto o pr\u00f3prio S\u00e3o Francisco teria desejado que fosse: a mensagem vinda do c\u00e9u, a hist\u00f3ria contada a partir do c\u00e9u, o conto de fadas que na realidade \u00e9 verdadeiro.<br \/>\nG. K. Chesterton<br \/>\n[Chesterton, G. K. S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino: as complexidades da raz\u00e3o. In: Chesterton, G. K.  S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino e S\u00e3o Francisco de Assis. Tradu\u00e7\u00e3o Adail Ubirajara Sobral \/ Maria Stela Gon\u00e7alves. \u2013 Rio de Janeiro: Ediouro, 2009, p. 208.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":3997,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-3993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-21-justificacao-da-esperanca"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3993"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3993\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3997"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}