{"id":4284,"date":"2011-11-14T06:15:38","date_gmt":"2011-11-14T09:15:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4284"},"modified":"2011-11-14T06:15:38","modified_gmt":"2011-11-14T09:15:38","slug":"intolerancia-religiosa-ate-quando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/11\/14\/intolerancia-religiosa-ate-quando\/","title":{"rendered":"Intoler\u00e2ncia religiosa, at\u00e9 quando?"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Uma caracter\u00edstica atribu\u00edda ao povo brasileiro \u00e9 a toler\u00e2ncia religiosa. O caldeir\u00e3o de culturas que formou o Pa\u00eds teria propiciado a conviv\u00eancia harm\u00f4nica entre os diferentes credos, ao contr\u00e1rio de outras na\u00e7\u00f5es onde violentas disputas derramam sangue inocente. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a realidade \u00e9 outra. Seguidores das religi\u00f5es afro-brasileiras sempre conviveram com a desconfian\u00e7a alheia. Nos \u00faltimos tempos, h\u00e1 ind\u00edcios de que a situa\u00e7\u00e3o se agravou. Somente no Rio de Janeiro, s\u00e3o contabilizados, por ano, quase 100 casos de agress\u00f5es morais ou f\u00edsicas envolvendo intoler\u00e2ncia religiosa em rela\u00e7\u00e3o aos praticantes de umbanda e candombl\u00e9.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Juliana Dal Piva e Michel Alecrim<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Juliana Dal Piva e Michel Alecrim. O avan\u00e7o da rivalidade religiosa<\/strong><em>, p. 75. Em: <\/em><strong>Revista Isto \u00c9<\/strong><em>, 9 NOV\/2011, Ano 35, N\u00ba 2191. S\u00e3o Paulo: Editora Tr\u00eas.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o poderia ficar calado depois de ler a reportagem publicada na revista ISTO \u00c9 da semana passada. Na mat\u00e9ria, da autoria de Juliana Dal Piva e Michel Alecrim, de onde citei acima o trecho inicial, faz refer\u00eancia ao crescente n\u00famero de agress\u00f5es dirigidas a praticantes das religi\u00f5es afro-brasileiras. Os respons\u00e1veis, conforme a reportagem, seriam principalmente adeptos das igrejas neopentecostais.<\/p>\n<p>Quando leio uma mat\u00e9ria dessa natureza o meu primeiro sentimento \u00e9 de indigna\u00e7\u00e3o, de grande indigna\u00e7\u00e3o e revolta. Por mais que eu saiba que religi\u00e3o, pol\u00edtica e futebol s\u00e3o as \u00e1reas em que a emo\u00e7\u00e3o humana fala com mais for\u00e7a, obnubilando na quase totalidade das vezes a raz\u00e3o, nem por isso posso pactuar com a tal intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Principalmente em se tratando do Brasil, tal postura \u00e9 mais inadmiss\u00edvel ainda. Muitos estrangeiros que por aqui aportaram e que tiveram a oportunidade de conhecer mais de perto o nosso povo s\u00e3o un\u00e2nimes em louvar essa caracter\u00edstica genuinamente e, quem sabe, exclusivamente nossa: a capacidade de conviver pacificamente com uma religiosidade que prima pela diversidade. Basta lembrar as in\u00fameras vezes em que os franceses Roger Bastide e Pierre Verger teceram loas a essa peculiaridade brasileira, para citar apenas dois. N\u00e3o foi \u00e0 toa que os autores da reportagem da ISTO \u00c9 aqui mencionada escolheram exatamente a men\u00e7\u00e3o a essa caracter\u00edstica para abrir o texto.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo entender por que os fi\u00e9is de algumas religi\u00f5es sentem uma necessidade t\u00e3o intensa de fazer proselitismo. O pior, por\u00e9m, \u00e9 que esse proselitismo muitas vezes atinge as raias do absurdo, beirando a viol\u00eancia expl\u00edcita e gratuita. Isso eu nunca vou aceitar. Custa-me admitir que um ser humano possa agredir outro em nome de Deus. Na verdade, essas pessoas, penso, est\u00e3o absolutamente equivocadas. Elas falam n\u00e3o em nome de Deus, mas do <em>seu Deus<\/em>, que para elas \u00e9 o \u00fanico verdadeiro, como se Deus pudesse ser privatizado e fosse propriedade exclusiva de uma religi\u00e3o. Pior \u00e9 ouvir algumas dessas pessoas abrirem a boca nos p\u00falpitos para falar de amor e miseric\u00f3rdia. Contradi\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es, absurdo dos absurdos.<\/p>\n<p>Sou cat\u00f3lico porque, depois de muita luta comigo mesmo, conclu\u00ed que essa \u00e9 a religi\u00e3o que, por quest\u00f5es exclusivamente pessoais, mais responde \u00e0 minha busca e aos meus anseios espirituais, em que pese todas as suas defici\u00eancias e cr\u00edticas que eu lhe possa fazer, como, de mais a mais, eu faria a qualquer outra religi\u00e3o, uma vez que nenhuma \u00e9 perfeita, pois todas s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es humanas e, como tal, fal\u00edveis.<\/p>\n<p>O catolicismo que professo, por\u00e9m, n\u00e3o constitui motivo para que eu n\u00e3o me sinta absolutamente \u00e0 vontade e em casa quando vou a um centro de umbanda. Ali\u00e1s, uma das pessoas mais espiritualizadas e generosas que tive o privil\u00e9gio de conhecer ao longo das minhas andan\u00e7as pelas religi\u00f5es foi exatamente um umbandista que j\u00e1 n\u00e3o se encontra entre n\u00f3s, pois, como diria o professor Ismael Pordeus, se encantou: Bab\u00e1 Didi. Aprendi muito nas minhas conversas com Bab\u00e1 Didi e ainda hoje sinto falta de sua luminosa presen\u00e7a entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Preciso afirmar isso aqui porque sei que entre os cat\u00f3licos \u2013 e conhe\u00e7o alguns que assim procedem \u2013 h\u00e1 n\u00e3o poucos que desperdi\u00e7am o tempo que poderiam empregar em atividade mais nobre, demonizando as religi\u00f5es afro-brasileiras. Para mim, tal postura \u00e9 inconceb\u00edvel, posto que absolutamente incompat\u00edvel com uma pr\u00e1tica religiosa que tem como princ\u00edpios basilares o amor e a compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Para concluir, quero apenas registrar aqui que me envaidece e me faz sentir imensamente feliz ter nascido neste pa\u00eds, pois em outro onde imperasse a intoler\u00e2ncia religiosa eu n\u00e3o conseguiria viver. N\u00e3o sei se tenho uma miss\u00e3o na vida, mas caso tenha uma, gostaria que essa fosse a de disseminar a toler\u00e2ncia e respeito entre as religi\u00f5es e seus adeptos. Tivesse eu condi\u00e7\u00f5es e iniciaria no Brasil uma cruzada nacional movida por este objetivo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma caracter\u00edstica atribu\u00edda ao povo brasileiro \u00e9 a toler\u00e2ncia religiosa. O caldeir\u00e3o de culturas que formou o Pa\u00eds teria propiciado a conviv\u00eancia harm\u00f4nica entre os diferentes credos, ao contr\u00e1rio de outras na\u00e7\u00f5es onde violentas disputas derramam sangue inocente. Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a realidade \u00e9 outra. Seguidores das religi\u00f5es afro-brasileiras sempre conviveram com a desconfian\u00e7a alheia. Nos \u00faltimos tempos, h\u00e1 ind\u00edcios de que a situa\u00e7\u00e3o se agravou. Somente no Rio de Janeiro, s\u00e3o contabilizados, por ano, quase 100 casos de agress\u00f5es morais ou f\u00edsicas envolvendo intoler\u00e2ncia religiosa em rela\u00e7\u00e3o aos praticantes de umbanda e candombl\u00e9.<br \/>\nJuliana Dal Piva e Michel Alecrim<br \/>\n[Juliana Dal Piva e Michel Alecrim. O avan\u00e7o da rivalidade religiosa, p. 75. Em: Revista Isto \u00c9, 9 NOV\/2011, Ano 35, N\u00ba 2191. 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