{"id":4344,"date":"2011-11-23T06:15:43","date_gmt":"2011-11-23T09:15:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4344"},"modified":"2011-11-23T06:15:43","modified_gmt":"2011-11-23T09:15:43","slug":"cartas-de-um-certo-principe-aviador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/11\/23\/cartas-de-um-certo-principe-aviador\/","title":{"rendered":"Cartas de um certo pr\u00edncipe aviador"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-4362\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/cartas-de-um-certo-principe-aviador\/antoine-de-saint-exupery\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4362\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/11\/ANTOINE-DE-SAINT-EXUPERY-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><em>Mam\u00e3e, tenho tamb\u00e9m uma alegria na vida: tenho amigos t\u00e3o formid\u00e1veis para mim que voc\u00ea nem pode imaginar. Todos, neste momento, sofrem de uma epidemia de simpatia. Bonnevie me procura sempre, Sall\u00e8s escreve-me cartas de uma amizade t\u00e3o profunda que me emocionam. S\u00e9gogne \u00e9 um anjo. Os Saussine, anjos protetores, e n\u00e3o falo em Yvonne e Mapie&#8230;<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Saint-Exup\u00e9ry, Antoine de. Cartas do Pequeno Pr\u00edncipe<\/strong><em>. 7\u00aa. ed. Tradu\u00e7\u00e3o de Magda Soares Guimar\u00e3es. \u2013 Belo Horizonte: Itatiaia, 1969, p. 87.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em qualquer lugar que se mencione o nome de Saint-Exup\u00e9ry imediatamente algu\u00e9m lembra <em>O Pequeno pr\u00edncipe<\/em>, seu livro mais conhecido. Entretanto, este genial escritor franc\u00eas que foi tamb\u00e9m um grande aviador deixou outros escritos igualmente belos, como, por exemplo, <em>Cidadela<\/em>, livro que aprecio bem mais que o primeiro.<\/p>\n<p>Pois bem, sexta-feira da semana passada aconteceu de chegar \u00e0s minhas m\u00e3os mais um livro da lavra de Saint-Exup\u00e9ry, livro este de cuja exist\u00eancia eu nem sabia. Trata-se de uma publica\u00e7\u00e3o contendo diversas cartas de Saint-Exup\u00e9ry. A edi\u00e7\u00e3o que chegou at\u00e9 mim \u00e9 de 1969, e a adquiri por interm\u00e9dio do Jorge, um livreiro que garimpa livros em sebos ou entre professores aposentados e colecionadores que resolvem se desfazer de suas cole\u00e7\u00f5es e o entregam a ele para que ofere\u00e7a a poss\u00edveis interessados. Sempre que Jorge descobre algum livro que imagina que possa ser do meu interesse, bate logo \u00e0 minha porta. Tenho feito algumas aquisi\u00e7\u00f5es muitas boas por seu interm\u00e9dio. <em>Cartas do Pequeno Pr\u00edncipe<\/em>, de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry, foi o mais recente.<\/p>\n<p>A obra divide-se em tr\u00eas partes: Carta a um ref\u00e9m, Cartas a sua m\u00e3e e Cartas da juventude. A primeira parte traz um Pr\u00f3logo escrito por Madame de Saint-Exup\u00e9ry, a m\u00e3e do escritor e destinat\u00e1ria das cartas iniciais. Madame de Saint-Exup\u00e9ry inicia o texto com as seguintes palavras: <em>Escreveram a respeito de Antoine de Saint-Exup\u00e9ry:<\/em> <em>\u201cSabemos que ele n\u00e3o conheceu a paz. Pensava apenas em distribuir o essencial, menos aos sedent\u00e1rios, aos satisfeitos, que aos impacientes, aos que queimam, seja qual for o fogo que os inflama<\/em>\u201d. Estava ela citando as palavras que Pierre Macaigne escreveu sobre o seu filho.<\/p>\n<p>Prosseguindo, diz a emocionada m\u00e3e: <em>\u00c9 a estes que \u00e9 dirigida a mensagem de Antoine, porque ele encontrou as mesmas alegrias, as mesmas dificuldades, as mesmas esperan\u00e7as, talvez os mesmos desesperos<\/em> (p. 29).<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que me fascina em Saint-Exup\u00e9ry, que perpassa Cidadela de ponta a ponta, e que agora volto a encontrar lendo suas cartas. Um homem que ardeu no fogo da paix\u00e3o pelas causas que assumiu enquanto viveu. Um homem inquieto, movido totalmente por aquele \u00e9lan que caracteriza os verdadeiros buscadores, os verdadeiros esp\u00edritos que t\u00eam sua grandiosidade maior ancorada no anseio pelo divino, pelo eterno, pelo intemporal.<\/p>\n<p>Mas Exup\u00e9ry era tamb\u00e9m um homem que tinha um grande apre\u00e7o pela amizade. Ele amava verdadeiramente os amigos e amigas que tiveram o privil\u00e9gio de privar de sua conviv\u00eancia e com quem partilhava com prazer sua intimidade e seus momentos de busca e solid\u00e3o quando separados pela dist\u00e2ncia. Escrever cartas foi a forma que ele encontrou de suprir a saudade desses grandes amigos e amigas.<\/p>\n<p>Ren\u00e9e de Saussine, uma das amigas com quem ele manteve uma intensa troca de correspond\u00eancias, escreveu o Pref\u00e1cio para a parte do livro intitulada <em>Cartas da juventude<\/em>. A certa altura, escreve Ren\u00e9e: <em>Com Antoine agora longe, n\u00f3s, seus amigos escrev\u00edamos. Eu escrevia. Mas n\u00e3o muito. N\u00e3o muito depressa. Esse fluido anti-solid\u00e3o\u00a0 que ele pedia, precis\u00e1vamos, como os convalescentes, de tempo para refaz\u00ea-lo. E as cartas cruzavam-se, n\u00f3s sem separarmos suficientemente do \u00b4amor pela amizade\u00b4 o amor s\u00f3, que vai mais depressa. Ele, enviando de Toulouse, sua base, as primeiras impress\u00f5es de uma nova exist\u00eancia<\/em> (p. 130).<\/p>\n<p>Em outro trecho, ela compara de forma muito bela o amigo a um violino Stradivarius: <em>Se compararmos a resson\u00e2ncia humana e po\u00e9tica de Antoine a um Stradivasius, devemos atribu\u00ed-la \u00e0 qualidade de sua alma. Como no instrumento precioso, esse fogo vibrante, colocado no lugar exato, tudo permite. A inacredit\u00e1vel press\u00e3o das cordas, do bra\u00e7o, do arco, essa prova, a \u00b4alma\u00b4 a suporta, coroa-a com um canto<\/em> (p. 131).<\/p>\n<p>Em uma carta a Ren\u00e9e, a quem ele tratava por Rinette, Exup\u00e9ry fala da necessidade de cultivar o pensamento: <em>Rinette, veja voc\u00ea, s\u00f3 atrav\u00e9s de uma disciplina permanente pode-se educar o pensamento, e \u00e9 justamente isto o que se possui de mais precioso. O que se deveria possuir de mais precioso. Mas voc\u00ea observa que as pessoas se procuram aumentar a mem\u00f3ria, os conhecimentos, a habilidade verbal, quase nunca procuram cultivar a intelig\u00eancia. Procuram raciocinar com exatid\u00e3o mas n\u00e3o a pensar com exatid\u00e3o. Confundem tudo<\/em> (p. 143).<\/p>\n<p>Na \u00faltima carta escrita para Rinette, fala da sua \u00e2nsia pelas correspond\u00eancias recebidas dos amigos: <em>Em Toulouse, eu ia de hora em hora, do outro extremo da cidade, ver minha caixa de cartas<\/em>\u201d (p. 166) e, a seguir: <em>E escrevia \u00e0 noite, do Caf\u00e9 Lafayette, cartas cujas frases n\u00e3o tinham import\u00e2ncia mas que escondiam meus segredos sob a entona\u00e7\u00e3o das palavras<\/em> (p. 166).<\/p>\n<p>Ainda estou lendo <em>Cartas do Pequeno Pr\u00edncipe<\/em>, e seguramente ainda escreverei outros coment\u00e1rios a este livro no Sincronicidade. Mas, por hoje, gostaria de concluir citando as palavras finais de Madame de Saint-Exup\u00e9ry no Pr\u00f3logo a que me referi no in\u00edcio do texto:<\/p>\n<p><em>Na \u00faltima carta que temos de Antoine, h\u00e1 este trecho: \u201cSe eu voltar, minha preocupa\u00e7\u00e3o ser\u00e1: Que \u00e9 preciso dizer aos homens?\u201d Foram essas palavras que me decidiram a partilhar com os outros sua mensagem<\/em> (p. 40).<\/p>\n<p>Ainda bem que Madame de Saint-Exup\u00e9ry aquiesceu em publicar as cartas de seu filho, pois s\u00e3o muitas e preciosas as palavras que ele nos deixou. Com seus escritos, Exup\u00e9ry respondeu de forma magn\u00e2nima \u00e0 sua pr\u00f3pria pergunta: <em>Que \u00e9 preciso dizer aos homens?<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mam\u00e3e, tenho tamb\u00e9m uma alegria na vida: tenho amigos t\u00e3o formid\u00e1veis para mim que voc\u00ea nem pode imaginar. Todos, neste momento, sofrem de uma epidemia de simpatia. 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