{"id":440,"date":"2009-08-12T06:21:00","date_gmt":"2009-08-12T11:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=440"},"modified":"2009-08-12T06:21:00","modified_gmt":"2009-08-12T11:21:00","slug":"as-301-historias-do-ifa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/12\/as-301-historias-do-ifa\/","title":{"rendered":"As 301 hist\u00f3rias do If\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-441\" alt=\"mitologia_dos_orixas_1231789573p\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/mitologia_dos_orixas_1231789573p.jpg\" width=\"200\" height=\"292\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/08\/mitologia_dos_orixas_1231789573p.jpg 200w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/08\/mitologia_dos_orixas_1231789573p-120x175.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Um dia, em terras africanas dos povos iorub\u00e1s, um mensageiro chamado Exu andava de aldeia em aldeia \u00e0 procura de solu\u00e7\u00e3o para terr\u00edveis problemas que na ocasi\u00e3o afligiam a todos, tanto os homens como os orix\u00e1s. Conta o mito que Exu foi aconselhado a ouvir do povo todas as hist\u00f3rias que falassem dos dramas vividos pelos seres humanos, pelas pr\u00f3prias divindades, assim como por animais e outros seres que dividem a Terra com o homem. Hist\u00f3rias que falassem da ventura e do sofrimento, das lutas vencidas e perdidas, das gl\u00f3rias alcan\u00e7adas e dos insucessos sofridos, das dificuldades na luta pela manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade contra os ataques da doen\u00e7a e da morte. Todas as narrativas a respeito dos fatos do cotidiano, por menos importantes que pudessem parecer, tinham que ser devidamente consideradas. Exu deveria estar atento tamb\u00e9m aos relatos sobre as provid\u00eancias tomadas e as oferendas feitas aos deuses para se chegar a um final feliz em cada desafio enfrentado. Assim ele fez, reunindo 301 hist\u00f3rias, o que significa, de acordo com o sistema de enumera\u00e7\u00e3o dos antigos iorub\u00e1s, que Exu juntou um n\u00famero incont\u00e1vel de hist\u00f3rias.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Reginaldo Prandi<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Mitologia dos Orix\u00e1s. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 17]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Sempre me despertou um interesse todo especial a cosmologia do Candombl\u00e9. Para quem teve algum dia a oportunidade de se debru\u00e7ar sobre essa cosmologia, ter\u00e1 chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que\u00a0esse sistema religioso, trazido da \u00c1frica para o Brasil pelos negros aqui aportados como escravos, guarda em si uma\u00a0 extrema beleza e complexidade. Tanto um quanto outro aspectos do Candombl\u00e9 est\u00e3o expressos particularmente nos mitos, que, por sua vez, conferem sustenta\u00e7\u00e3o aos ritos.<\/p>\n<p>Um mito, \u00e9 necess\u00e1rio que se diga, \u00e9 muito mais que uma lenda. O mito se prop\u00f5e contar uma hist\u00f3ria que fala das origens, dos prim\u00f3rdios da humanidade e da vida na Terra. Atrav\u00e9s do mito se tem acesso a uma s\u00e9rie de mist\u00e9rios de outra forma inexplic\u00e1veis. Originalmente transmitidos pela tradi\u00e7\u00e3o oral, somente tardiamente os mitos seriam compilados sob a forma escrita. No caso dos povos iorub\u00e1s, de onde prov\u00e9m o Candombl\u00e9, os relatos m\u00edticos t\u00eam um valor muito especial, pois \u00e9 sobre eles que se assenta toda sua tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, a tentativa de compilar os mitos dos Orix\u00e1s, os deuses do Candombl\u00e9, remonta a 1928, com Agenor Miranda Rocha. No entanto, foram apenas tentativas iniciais e ainda incompletas. Em 2001, por\u00e9m, um grande e auspicioso passo foi dado neste sentido, com a publica\u00e7\u00e3o do livro Mitologia dos Orix\u00e1s, de autoria de Reginaldo Prandi, com ilustra\u00e7\u00f5es de Pedro Rafael.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo da USP Reginaldo Prandi \u00e9 hoje, incontestavelmente, um dos maiores e mais abalizados estudiosos das tradi\u00e7\u00f5es religiosas trazidas da \u00c1frica para o Brasil, com v\u00e1rios estudos publicados sobre o tema. Seu livro Mitologia dos Orix\u00e1s \u00e9 que o de melhor se tem hoje sobre a tradi\u00e7\u00e3o m\u00edtica dos iorub\u00e1s. Para quem quer conhecer um pouco da complexa cosmologia do Candombl\u00e9, a leitura dessa obra ser\u00e1 de inestim\u00e1vel valor, al\u00e9m do deleite proporcionado pela narra\u00e7\u00e3o dos mitos.<\/p>\n<p>Dos 301 relatos apresentados por Reginaldo Prandi, transcreverei aqui o que considero um dos mais belos, que explica de forma exemplar por que um dia todo ser humano tem que morrer. Ei-lo:<\/p>\n<p><em>Nan\u00e3 fornece a lama para a modelagem do homem<\/em><\/p>\n<p><em>Dizem que quando Olorum encarregou Oxal\u00e1 de fazer o mundo e modelar o ser humano, o orix\u00e1 tentou v\u00e1rios caminhos. Tentou fazer o homem de ar, como ele. N\u00e3o deu certo, pois o homem logo se desvaneceu. Tentou fazer de pau, mas a criatura ficou dura. De pedra ainda a tentativa foi pior. Fez de fogo e o homem se consumiu. Tentou azeite, \u00e1gua e at\u00e9 vinho-de-palma, e nada. Foi ent\u00e3o que Nan\u00e3 Burucu veio em seu socorro. Apontou para o fundo do lago com seu <\/em>ibiri<em>, seu cetro e arma, e de l\u00e1 retirou uma por\u00e7\u00e3o de lama. Nan\u00e3 deu a por\u00e7\u00e3o de lama a Oxal\u00e1, o barro do fundo da lagoa onde morava ela, a lama sob as \u00e1guas, que \u00e9 Nan\u00e3. Oxal\u00e1 criou o homem, o modelou no barro. Com o sopro de Olorum ele caminhou. Com a ajuda dos orix\u00e1s povoou a Terra. Mas tem um dia que o homem morre e seu corpo tem que retornar \u00e0 terra, voltar \u00e0 natureza de Nan\u00e3 Burucu. Nan\u00e3 deu a mat\u00e9ria no come\u00e7o mas quer de volta no final tudo que \u00e9 seu<\/em> (p. 196).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia, em terras africanas dos povos iorub\u00e1s, um mensageiro chamado Exu andava de aldeia em aldeia \u00e0 procura de solu\u00e7\u00e3o para terr\u00edveis problemas que&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[32],"tags":[],"class_list":["post-440","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-29-entre-orixas-caboclos-e-encantados"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}