{"id":4449,"date":"2011-12-04T06:15:00","date_gmt":"2011-12-04T09:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4449"},"modified":"2011-12-04T06:15:00","modified_gmt":"2011-12-04T09:15:00","slug":"entao-lhes-perguntou-e-vos-quem-dizeis-que-eu-sou-mt-1615-16","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/12\/04\/entao-lhes-perguntou-e-vos-quem-dizeis-que-eu-sou-mt-1615-16\/","title":{"rendered":"Ent\u00e3o lhes perguntou: \u201cE v\u00f3s, quem dizeis que eu sou?\u201d (Mt 16,15)"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #ff0000\"><em><a rel=\"attachment wp-att-4451\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/entao-lhes-perguntou-%e2%80%9ce-vos-quem-dizeis-que-eu-sou%e2%80%9d-mt-1615-16\/iconografia-icone-do-pantocrator_clip_image005-12\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4451\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/12\/iconografia-icone-do-pantocrator_clip_image005-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Quanto ao Jesus hist\u00f3rico, \u00e9 claro que dele n\u00e3o sei mais do que qualquer um, quer dizer, quase nada. Se confiamos, por falta de melhor, nos Evangelhos, temos primeiro a ideia de um exaltado simp\u00e1tico, de uma esp\u00e9cie de pregador itinerante, evidentemente sincero, evidentemente desinteressado, que anunciava a todos a imin\u00eancia do Ju\u00edzo Final ou do fim dos tempos&#8230; Que se tenha enganado est\u00e1 bastante claro, e n\u00e3o tem grande import\u00e2ncia. Quero crer que ele compreendeu, no meio do caminho, que acabou por compreender que o essencial n\u00e3o estava a\u00ed: que o Reino de Deus n\u00e3o era o que deveria advir, mas o que j\u00e1 havia come\u00e7ado. N\u00e3o somente \u201cmuito pr\u00f3ximo\u201d, como diz o Evangelho de Marcos, mas aqui mesmo. N\u00e3o vindouro, mas presente, mas para viver, aqui e agora para viver. N\u00e3o prometido, mas dado. Objeto n\u00e3o de esperan\u00e7a mas de amor, n\u00e3o de f\u00e9 mas de conhecimento. \u201cQuero crer\u201d: quer dizer, n\u00e3o sei nada disso. Mas esse \u00e9 o Cristo a quem amo, aquele que criei pouco a pouco para mim, aquele que me acompanha, e o \u00fanico que me esclarece. \u00c9 o Cristo de Spinoza, disse-o, ou um Cristo spinozista, e isso d\u00e1 no mesmo. \u00c9 o Cristo de Alain: a crian\u00e7a nua, entre o boi e o burrico, o esp\u00edrito crucificado, entre dois ladr\u00f5es. \u00c9, pois, o Cristo de todo o mundo \u2013 o Pres\u00e9pio, o Calv\u00e1rio &#8211; , o dos mitos e das lendas, o \u00fanico que conhecemos, no fundo o \u00fanico que importa, mas liberto da religi\u00e3o, mas n\u00e3o prometendo nada mais do que tudo, ele tamb\u00e9m \u2013 como os gregos, como os verdadeiros mestres -, e n\u00e3o outro reino al\u00e9m deste mesmo onde j\u00e1 estamos&#8230; Este Cristo, mesmo heterodoxo (mas que vale a <\/em>doxa<em> nesses dom\u00ednios?), mesmo inventado (como proceder de outra maneira?), n\u00e3o deixa, por\u00e9m, de se relacionar com os textos do Novo Testamento, ao menos com alguns deles. Por exemplo, no Evangelho segundo S\u00e3o Lucas: \u201cTendo-lhe os fariseus perguntado quando viria o Reino de Deus, ele lhes respondeu: \u00b4O Reino de Deus n\u00e3o vem como um fato observ\u00e1vel. N\u00e3o se dir\u00e1: \u00b4Aqui est\u00e1\u00b4 ou \u00b4L\u00e1 est\u00e1`. Pois o Reino de Deus est\u00e1 em v\u00f3s\u201d (<\/em>entos hum\u00f4n<em>), ou \u201cente v\u00f3s\u201d, ou \u201cno meio de v\u00f3s\u201d (todas essas tradu\u00e7\u00f5es, embora menos evidentes, s\u00e3o aceit\u00e1veis), ou talvez, melhor ainda, e como dizia o Evangelho de Tom\u00e9, o Reino de Deus est\u00e1 ao mesmo tempo \u201cem v\u00f3s e fora de v\u00f3s\u201d. \u00c9 o que Guillemin, em <\/em>L\u00b4affaire J\u00e9sus<em>, denominava com raz\u00e3o \u201ca grande revela\u00e7\u00e3o-divulga\u00e7\u00e3o que o nazareno trazia\u201d, da qual eu diria de bom grado que p\u00f5e fim, para mim, a qualquer religi\u00e3o revelada, e mesmo a qualquer religi\u00e3o. Se o Reino est\u00e1 em n\u00f3s, e se estamos no Reino, para que serve a f\u00e9 e a esperan\u00e7a? N\u00e3o se deve crer em mais nada; deve-se conhecer tudo. N\u00e3o se deve ter esperan\u00e7a em mais nada; deve-se amar tudo. Isso coincide com a li\u00e7\u00e3o dos m\u00edsticos, em todos os pa\u00edses. Por exemplo, Nagarjuna: \u201cEnquanto fazes uma diferen\u00e7a entre o nirvana e o samsara, est\u00e1s no samsara\u201d. Meu Cristo interior diria igualmente de bom grado: \u201cEnquanto fazes uma diferen\u00e7a entre o Reino e este mundo de mis\u00e9ria, est\u00e1s neste mundo de mis\u00e9ria\u201d.\u00a0 \u00c9 a Boa Nova dos Evangelhos, tais como os leio: j\u00e1 estamos salvos. Mas singularmente rude: j\u00e1 que nada mais deixa para ter esperan\u00e7a! Suporta-a quem pode, e quase n\u00e3o o podemos. A esperan\u00e7a \u00e9 mais f\u00e1cil; a religi\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil. Mas \u201ccumpre ater-se ao dif\u00edcil\u201d, como diz Rilke: isso indica o caminho, onde j\u00e1 estamos, onde avan\u00e7amos como podemos, no cansa\u00e7o, no sofrimento, na ang\u00fastia \u2013 na alegria por vezes. Foi isso a que chamei a sabedoria do desespero, a que Cristo antes chamaria a sabedoria do amor, e \u00e9 ele, com certeza, que tem raz\u00e3o. Nada para crer, nada para ter esperan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 outra salva\u00e7\u00e3o sen\u00e3o viver, n\u00e3o h\u00e1 outra salva\u00e7\u00e3o sen\u00e3o amar: o Reino \u00e9 aqui na terra; a eternidade \u00e9 agora.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000\"><em>Andr\u00e9 Comte-Sponville<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000\"><em>[Comte-Sponville, Andr\u00e9. Bom dia, ang\u00fastia! Tradu\u00e7\u00e3o Maria Ermantina Galv\u00e3o G. Pereira. \u2013 S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 143.]<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto ao Jesus hist\u00f3rico, \u00e9 claro que dele n\u00e3o sei mais do que qualquer um, quer dizer, quase nada. Se confiamos, por falta de melhor, nos Evangelhos, temos primeiro a ideia de um exaltado simp\u00e1tico, de uma esp\u00e9cie de pregador itinerante, evidentemente sincero, evidentemente desinteressado, que anunciava a todos a imin\u00eancia do Ju\u00edzo Final ou do fim dos tempos&#8230; Que se tenha enganado est\u00e1 bastante claro, e n\u00e3o tem grande import\u00e2ncia. Quero crer que ele compreendeu, no meio do caminho, que acabou por compreender que o essencial n\u00e3o estava a\u00ed: que o Reino de Deus n\u00e3o era o que deveria advir, mas o que j\u00e1 havia come\u00e7ado. N\u00e3o somente \u201cmuito pr\u00f3ximo\u201d, como diz o Evangelho de Marcos, mas aqui mesmo. N\u00e3o vindouro, mas presente, mas para viver, aqui e agora para viver. N\u00e3o prometido, mas dado. Objeto n\u00e3o de esperan\u00e7a mas de amor, n\u00e3o de f\u00e9 mas de conhecimento. \u201cQuero crer\u201d: quer dizer, n\u00e3o sei nada disso. Mas esse \u00e9 o Cristo a quem amo, aquele que criei pouco a pouco para mim, aquele que me acompanha, e o \u00fanico que me esclarece. \u00c9 o Cristo de Spinoza, disse-o, ou um Cristo spinozista, e isso d\u00e1 no mesmo. \u00c9 o Cristo de Alain: a crian\u00e7a nua, entre o boi e o burrico, o esp\u00edrito crucificado, entre dois ladr\u00f5es. \u00c9, pois, o Cristo de todo o mundo \u2013 o Pres\u00e9pio, o Calv\u00e1rio &#8211; , o dos mitos e das lendas, o \u00fanico que conhecemos, no fundo o \u00fanico que importa, mas liberto da religi\u00e3o, mas n\u00e3o prometendo nada mais do que tudo, ele tamb\u00e9m \u2013 como os gregos, como os verdadeiros mestres -, e n\u00e3o outro reino al\u00e9m deste mesmo onde j\u00e1 estamos&#8230; Este Cristo, mesmo heterodoxo (mas que vale a doxa nesses dom\u00ednios?), mesmo inventado (como proceder de outra maneira?), n\u00e3o deixa, por\u00e9m, de se relacionar com os textos do Novo Testamento, ao menos com alguns deles. Por exemplo, no Evangelho segundo S\u00e3o Lucas: \u201cTendo-lhe os fariseus perguntado quando viria o Reino de Deus, ele lhes respondeu: \u00b4O Reino de Deus n\u00e3o vem como um fato observ\u00e1vel. N\u00e3o se dir\u00e1: \u00b4Aqui est\u00e1\u00b4 ou \u00b4L\u00e1 est\u00e1`. Pois o Reino de Deus est\u00e1 em v\u00f3s\u201d (entos hum\u00f4n), ou \u201cente v\u00f3s\u201d, ou \u201cno meio de v\u00f3s\u201d (todas essas tradu\u00e7\u00f5es, embora menos evidentes, s\u00e3o aceit\u00e1veis), ou talvez, melhor ainda, e como dizia o Evangelho de Tom\u00e9, o Reino de Deus est\u00e1 ao mesmo tempo \u201cem v\u00f3s e fora de v\u00f3s\u201d. \u00c9 o que Guillemin, em L\u00b4affaire J\u00e9sus, denominava com raz\u00e3o \u201ca grande revela\u00e7\u00e3o-divulga\u00e7\u00e3o que o nazareno trazia\u201d, da qual eu diria de bom grado que p\u00f5e fim, para mim, a qualquer religi\u00e3o revelada, e mesmo a qualquer religi\u00e3o. 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