{"id":4518,"date":"2011-12-27T10:51:03","date_gmt":"2011-12-27T13:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4518"},"modified":"2011-12-27T10:51:03","modified_gmt":"2011-12-27T13:51:03","slug":"rilke-ou-a-transcendencia-do-cotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2011\/12\/27\/rilke-ou-a-transcendencia-do-cotidiano\/","title":{"rendered":"Rilke ou A transcend\u00eancia do cotidiano"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-4519\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/rilke-ou-a-transcendencia-do-cotidiano\/rainer_maria_rilke\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4519\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2011\/12\/rainer_maria_rilke-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>A obra de Rainer Maria Rilke capturou a imagina\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos, fil\u00f3sofos, artistas, escritores e amantes da poesia, e estendeu o alcance da poesia a pessoas raramente interessadas em elocu\u00e7\u00f5es humanas versificadas. Marlene Dietrich, Martin Heidegger e Warren Zevon recitavam de cor poemas de Rilke. Essa capacidade das palavras de Rilke de tocar de pessoas t\u00e3o diferentes como se cada palavra tivesse sido escrita s\u00f3 para elas, \u00e0 parte sua estima entre \u00a0colegas \u00a0poetas e acad\u00eamicos, confere \u00e0 sua poesia a for\u00e7a que ela tem e impediu sua obra de se tornar um mero artefato da civiliza\u00e7\u00e3o que Hegel foi o primeiro a chamar de Velha Europa. O poder dos escritos de Rilke resulta de sua habilidade em entrela\u00e7ar a descri\u00e7\u00e3o de objetos cotidianos, sentimentos minuciosos, pequenos gestos e coisas desprezadas \u2013 aquilo que constitui o mundo para cada um de n\u00f3s \u2013 com temas transcendentes. Ao entrela\u00e7ar o cotidiano e o transcendente, Rilke insinua em sua poesia \u2013 e explica minuciosamente em suas cartas \u2013 que a chave para os segredos de nossa exist\u00eancia pode ser encontrada bem diante de nossos olhos. Essa insinua\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dom\u00ednio exclusivo da obra po\u00e9tica de Rilke, que abrange 11 colet\u00e2neas publicadas antes de sua morte, em 1926, e um grande n\u00famero de poemas publicados postumamente. Ele foi um epistol\u00f3grafo prodigioso, e em sua correspond\u00eancia espantosamente vasta Rilke se solta das coer\u00e7\u00f5es do verso alem\u00e3o para produzir reflex\u00f5es contundentes e acess\u00edveis sobre um amplo espectro de t\u00f3picos.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Ulrich Baer<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Baer, Ulrich. Introdu\u00e7\u00e3o a Rilke, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke<\/strong><em>. Organiza\u00e7\u00e3o Ulrich Baer; tradu\u00e7\u00e3o Milton Camargo Mota. \u2013 S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 10. \u2013 (Cole\u00e7\u00e3o Prosa)]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Aprendi a gostar de Rainer Maria Rilke (Praga, 1875-1926) desde que li suas <em>Elegias de Du\u00edno<\/em>, ainda na d\u00e9cada de 90. Agora me cai \u00e0s m\u00e3os o livro organizado por Ulrich Baer, <em>Cartas do poeta sobre a vida<\/em>. A descoberta desse livro, publicado no Brasil em 2007 mas somente agora adquirido, pois eu nem sabia de sua exist\u00eancia, me chega num momento muito oportuno. Ali\u00e1s, devo dizer que, para quem tem para com os livros uma rela\u00e7\u00e3o da natureza da que eu tenho, a maioria deles chegam no momento mais oportuno, quando mais necessito de sua leitura.<\/p>\n<p>Pois bem, como ia dizendo, ele me chega num momento muito oportuno. Isso porque, tendo durante quase a vida inteira me dedicado \u00e0 busca da transcend\u00eancia, sempre calcado no pressuposto de que ela teria que se dar necessariamente por uma interven\u00e7\u00e3o sobrenatural ou por um contato com o Sagrado, sempre considerado uma dimens\u00e3o al\u00e9m dessa em que estamos imersos, come\u00e7o a concluir que talvez essa perspectiva esteja equivocada \u2013 ou, pelo menos, parcialmente equivocada.<\/p>\n<p>A transcend\u00eancia acontece \u00e9 no dia a dia, no contato direto com as coisas simples e triviais do cotidiano, com aquilo que faz a vida de cada um de n\u00f3s. O Sagrado se encontra \u00e9 aqui mesmo, e pode ser descoberto e vivenciado nas ocasi\u00f5es mais corriqueiras e nos fatos mais triviais e simpl\u00f3rios da vida.<\/p>\n<p>Existir\u00e1 algo de maior transcend\u00eancia ou sacralidade do que uma rela\u00e7\u00e3o de amizade sincera, onde o que pode haver de mais sagrado se manifesta a todo instante, como a escuta atenta e a ajuda necess\u00e1ria, capazes de produzir os milagres mais prodigiosos na vida de uma pessoa em momentos de dificuldade e afli\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Aqueles momentos em que tudo parecia perdido e a vida se transformara num inexor\u00e1vel beco sem sa\u00edda, a\u00ed aparece o amigo, <em>aquele amigo<\/em>, que nos estende a m\u00e3o ou nos oferece o ouvido para uma escuta silenciosa, e a partir da\u00ed, tudo come\u00e7a a se tornar mais claro, a se desanuviar. Nessas ocasi\u00f5es um milagre se fez, e a gente nem percebe, nem se d\u00e1 conta.<\/p>\n<p>Mas o sagrado e o transcendente n\u00e3o transparecem apenas nas rela\u00e7\u00f5es com as pessoas. Ele est\u00e1 tamb\u00e9m na natureza, nos objetos, nos pequenos acontecimentos, no prato de sopa. A prop\u00f3sito, fa\u00e7o aqui um par\u00eantesis para relatar um epis\u00f3dio da vida de Santa Teresa d\u00b4\u00c1vila, muito comentado, do qual lembrei agora. Contam seus bi\u00f3grafos que certa ocasi\u00e3o uma novi\u00e7a lhe perguntou: \u201cMestra, o que devo fazer para ser santa?\u201d Ao que ela respondeu: \u201cSe est\u00e1s a comer galinha, coma galinha\u201d. Conhe\u00e7o h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas esse relato, mas somente agora come\u00e7o a perceber a profundidade \u2013 e a veracidade &#8211; das palavras da Mestra.<\/p>\n<p>\u00c9, pois, do trivial, do cotidiano, que fala Rilke em suas cartas. Rilke foi um grande missivista. Escreveu quase onze mil cartas. Tenho uma predile\u00e7\u00e3o toda especial pela leitura de cartas e di\u00e1rios. Escritos sem a pretens\u00e3o de serem publicados, em di\u00e1rios e cartas os autores se soltam mais, se permitem mais liberdade para dizer o que pensam, sem as amarras da sintaxe ou os cuidados com uma escrita, digamos, mais elaborada. E talvez seja exatamente por isso que nesse tipo de escrito eles aparecem de corpo inteiro, despidos mesmo.<\/p>\n<p>Apenas iniciei a leitura, mas sei que terei muito ainda o que falar sobre a descoberta da transcend\u00eancia no cotidiano, mediado pela leitura das <em>Cartas do poeta sobre a vida<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra de Rainer Maria Rilke capturou a imagina\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos, fil\u00f3sofos, artistas, escritores e amantes da poesia, e estendeu o alcance da poesia a pessoas raramente interessadas em elocu\u00e7\u00f5es humanas versificadas. Marlene Dietrich, Martin Heidegger e Warren Zevon recitavam de cor poemas de Rilke. Essa capacidade das palavras de Rilke de tocar de pessoas t\u00e3o diferentes como se cada palavra tivesse sido escrita s\u00f3 para elas, \u00e0 parte sua estima entre  colegas  poetas e acad\u00eamicos, confere \u00e0 sua poesia a for\u00e7a que ela tem e impediu sua obra de se tornar um mero artefato da civiliza\u00e7\u00e3o que Hegel foi o primeiro a chamar de Velha Europa. O poder dos escritos de Rilke resulta de sua habilidade em entrela\u00e7ar a descri\u00e7\u00e3o de objetos cotidianos, sentimentos minuciosos, pequenos gestos e coisas desprezadas \u2013 aquilo que constitui o mundo para cada um de n\u00f3s \u2013 com temas transcendentes. Ao entrela\u00e7ar o cotidiano e o transcendente, Rilke insinua em sua poesia \u2013 e explica minuciosamente em suas cartas \u2013 que a chave para os segredos de nossa exist\u00eancia pode ser encontrada bem diante de nossos olhos. Essa insinua\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 dom\u00ednio exclusivo da obra po\u00e9tica de Rilke, que abrange 11 colet\u00e2neas publicadas antes de sua morte, em 1926, e um grande n\u00famero de poemas publicados postumamente. Ele foi um epistol\u00f3grafo prodigioso, e em sua correspond\u00eancia espantosamente vasta Rilke se solta das coer\u00e7\u00f5es do verso alem\u00e3o para produzir reflex\u00f5es contundentes e acess\u00edveis sobre um amplo espectro de t\u00f3picos.<br \/>\nUlrich Baer<br \/>\n[Baer, Ulrich. Introdu\u00e7\u00e3o a Rilke, Rainer Maria. Cartas do poeta sobre a vida: a sabedoria de Rilke. Organiza\u00e7\u00e3o Ulrich Baer; tradu\u00e7\u00e3o Milton Camargo Mota. \u2013 S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 10. \u2013 (Cole\u00e7\u00e3o Prosa)]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":4519,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-4518","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-44-o-que-aprendi-com-os-mestres"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4518\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4519"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}