{"id":4667,"date":"2012-01-30T06:15:49","date_gmt":"2012-01-30T09:15:49","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4667"},"modified":"2012-01-30T06:15:49","modified_gmt":"2012-01-30T09:15:49","slug":"caminhando-com-thoreau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/01\/30\/caminhando-com-thoreau\/","title":{"rendered":"Caminhando com Thoreau"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-4682\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/caminhando-com-thoreau\/caminhando_1248981515p\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4682\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/01\/CAMINHANDO_1248981515P-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/01\/CAMINHANDO_1248981515P-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/01\/CAMINHANDO_1248981515P-200x200.jpg 200w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Acho que n\u00e3o consigo preservar minha sa\u00fade e meu \u00e2nimo se n\u00e3o passar quatro horas por dia, pelo menos \u2013 e geralmente \u00e9 mais do que isso -, vagando atrav\u00e9s das matas, dos morros e dos campos, absolutamente livre de todos os compromissos terrenos. Voc\u00ea pode propor um centavo para ler meus pensamentos, ou at\u00e9 mil libras. Quando \u00e0s vezes lembro que os artes\u00e3os e os negociantes ficam em suas lojas n\u00e3o s\u00f3 toda a manh\u00e3, mas toda a tarde tamb\u00e9m, sentados de pernas cruzadas, tantos deles \u2013 como se as pernas fossem feitas para se sentar sobre elas e n\u00e3o para ficar de p\u00e9 ou caminhar sobre elas -, acho que merecem algum cr\u00e9dito por n\u00e3o terem cometido o suic\u00eddio h\u00e1 muito tempo.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Henry David Thoreau<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Thoreau, Henry David. Caminhando<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Roberto Muggiati. \u2013 Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2006, p. 71. (Sabor liter\u00e1rio)]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Aprendi a admirar Henry David Thoreau desde que li <em>Walden ou a vida nos bosques<\/em>, livro de sua autoria, publicado em 1854. Recentemente, tive oportunidade de adquirir uma outra obra sua. Desta feita, um pequeno livrinho, que, na verdade, fora originalmente um texto publicado postumamente na revista The Atlantic Monthly. O livreto, intitulado <em>Caminhando<\/em>, trata, como o pr\u00f3prio t\u00edtulo sugere, da arte de caminhar, uma das grandes paix\u00f5es de Thoreau.<\/p>\n<p>Muito antes da pr\u00e1tica do cooper se tornar moda, ele j\u00e1 defendia a import\u00e2ncia do ato de caminhar. \u00a0Para Thoreau, por\u00e9m, caminhar envolvia muito mais do que um simples exerc\u00edcio com o objetivo de manter a sa\u00fade. \u00c9 particularmente interessante um trecho do texto em que ele fala da necessidade de se estar totalmente presente quando se caminha. Lendo as palavras de Thoreau, \u00e9 inevit\u00e1vel a associa\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica Zen da <em>medita\u00e7\u00e3o em movimento<\/em>. Diz o autor:<\/p>\n<p><em>Claro que n\u00e3o vale de nada dirigir nossos passos para os bosques se eles n\u00e3o nos levam para l\u00e1. Fico alarmado quando acontece de eu ter caminhado uma milha bosque adentro, sem entrar l\u00e1 em esp\u00edrito. Na minha caminhada vespertina de bom grado me esqueceria de todas as ocupa\u00e7\u00f5es matutinas e de minhas obriga\u00e7\u00f5es para com a sociedade. Mas eventualmente ocorre que n\u00e3o consigo me desvencilhar t\u00e3o facilmente da cidade. A ideia de algum trabalho me passa pela cabe\u00e7a e n\u00e3o estou onde o meu corpo est\u00e1 \u2013 perco a no\u00e7\u00e3o das coisas. Em minhas caminhadas eu pretendo voltar aos meus sentidos. Que tenho a fazer no bosque, se estou pensando em algo fora do bosque?<\/em> (p. 74).<\/p>\n<p>Isso que Thoreau chama de <em>voltar aos meus sentidos<\/em> \u00e9, nada mais nada menos, que a indispens\u00e1vel atitude de estar o m\u00e1ximo presente naquilo que se faz, t\u00e3o cara ao Zen-budismo. \u00c9 uma postura que tem por objetivo levar a pessoa a centrar-se em si mesma. Esse centramento \u00e9 especialmente necess\u00e1rio para que n\u00e3o nos afastemos daquele que \u00e9 o nosso caminho, o nosso itiner\u00e1rio pessoal. \u00c9 muito curioso, a prop\u00f3sito disso, o paralelo que Thoreau estabelece ente o caminho exterior e o caminho interior:<\/p>\n<p><em>O que torna t\u00e3o dif\u00edcil \u00e0s vezes decidir para onde vamos caminhar? Acredito que existe um magnetismo sutil na natureza que, se cedermos inconscientemente, nos dar\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o certa. N\u00e3o nos \u00e9 indiferente para onde caminhamos. Existe um caminho certo; mas estamos muito sujeitos, por neglig\u00eancia e estupidez, a tomar o caminho errado. Gostar\u00edamos de fazer aquela caminhada, jamais feita por n\u00f3s neste mundo real, que \u00e9 perfeitamente simb\u00f3lica da trilha que adoramos seguir no mundo interior e ideal; e, \u00e0s vezes, sem d\u00favida, achamos dif\u00edcil escolher nossa dire\u00e7\u00e3o, porque ela n\u00e3o existe ainda distintamente em nosso pensamento<\/em> (p. 82).<\/p>\n<p>Nascido em Concord, Massachetts, em 12 de julho de 1817, o ensa\u00edsta e poeta Henry David Thoreau quase n\u00e3o se afastou da regi\u00e3o natal ao longo de sua vida. Quando menino, costumava ca\u00e7ar, como todo garoto do interior americano, mas logo desenvolveu interesse e capacidade de estudar a natureza, principalmente em sua rela\u00e7\u00e3o com o ser humano. Trabalhou na f\u00e1brica de l\u00e1pis de seu pai antes de se tornar professor, formado em Harvard. Aos 18 anos, contraiu tuberculose, contra a qual lutou por toda a vida e de que morreu em 1862. Em 1849 publicou <em>A desobedi\u00eancia civil<\/em>, livro que exerceu grande influ\u00eancia sobre Mahatma Gandhi, no qual se inspirou para levar a efeito seu movimento de n\u00e3o viol\u00eancia, quando da luta pela independ\u00eancia da \u00cdndia. Em 1854, publicou <em>Walden ou A vida nos bosques<\/em>.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de <em>Caminhando<\/em>, aqui comentada, tr\u00e1s, al\u00e9m do texto de Thoreau, dois excelentes ensaios sobre o autor, escritos por Roberto Muggiati: <em>Thoreau, o caminhante do futuro<\/em> e <em>A arte de andar<\/em>. Neste \u00faltimo, posto no livro \u00e0 guisa de Apresenta\u00e7\u00e3o, prop\u00f5e Muggiati, inspirado na leitura de Thoreau:<\/p>\n<p><em>Ao caminhar, n\u00e3o se corre s\u00f3 atr\u00e1s de sa\u00fade, ou de longevidade. \u00c9 uma viagem filos\u00f3fica tamb\u00e9m. Como dizia o poeta espanhol Antonio Machado, \u201ccaminante, no hay caminho\/ se hace caminho al andar\u201d. Por isso, coloque um p\u00e9 metodicamente adiante do outro, siga em frente, e viva<\/em> (p. 43).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho que n\u00e3o consigo preservar minha sa\u00fade e meu \u00e2nimo se n\u00e3o passar quatro horas por dia, pelo menos \u2013 e geralmente \u00e9 mais do que isso -, vagando atrav\u00e9s das matas, dos morros e dos campos, absolutamente livre de todos os compromissos terrenos. Voc\u00ea pode propor um centavo para ler meus pensamentos, ou at\u00e9 mil libras. Quando \u00e0s vezes lembro que os artes\u00e3os e os negociantes ficam em suas lojas n\u00e3o s\u00f3 toda a manh\u00e3, mas toda a tarde tamb\u00e9m, sentados de pernas cruzadas, tantos deles \u2013 como se as pernas fossem feitas para se sentar sobre elas e n\u00e3o para ficar de p\u00e9 ou caminhar sobre elas -, acho que merecem algum cr\u00e9dito por n\u00e3o terem cometido o suic\u00eddio h\u00e1 muito tempo.<br \/>\nHenry David Thoreau<br \/>\n[Thoreau, Henry David. Caminhando. Tradu\u00e7\u00e3o de Roberto Muggiati. \u2013 Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 2006, p. 71. (Sabor liter\u00e1rio)]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":4682,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4667","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4667"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4667\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}