{"id":4671,"date":"2012-01-31T06:15:44","date_gmt":"2012-01-31T09:15:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4671"},"modified":"2012-01-31T06:15:44","modified_gmt":"2012-01-31T09:15:44","slug":"deus-e-o-inconsciente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/01\/31\/deus-e-o-inconsciente\/","title":{"rendered":"Deus, o inconsciente, a cultura"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">&#8230;o seu inconsciente precisa de um deus. \u00c9 uma necessidade s\u00e9ria e aut\u00eantica.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">C. G. Jung<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Jung, C. G. A vida simb\u00f3lica: escritos diversos<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Araceli Elman, Edgar Orth; revis\u00e3o liter\u00e1ria de L\u00facia Mathilde Endlich Orth; revis\u00e3o t\u00e9cnica de Jette Bonaventura. \u2013 Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 1997. \u2013 (Obras completas de C. G. Jung; v. 18\/1) III. A vida simb\u00f3lica, p. 277.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o do homem com o Sagrado \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o que passa, necessariamente, por duas media\u00e7\u00f5es, neste caso, estreitamente relacionadas. Refiro-me \u00e0s media\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gica e cultural. Nossas experi\u00eancias s\u00e3o fortemente determinadas por nosso inconsciente, tanto o inconsciente pessoal quanto o coletivo.<\/p>\n<p>No caso da rela\u00e7\u00e3o com o Sagrado, as experi\u00eancias tiram seu substrato do inconsciente coletivo, que, por sua vez, ancora-se em dados culturais.\u00a0 Ao mesmo tempo, deve-se salientar que o que torna peculiar uma experi\u00eancia, ou seja, o que a individualiza, caracterizando-a como espec\u00edfica daquele indiv\u00edduo, s\u00e3o os dados espec\u00edficos da sua hist\u00f3ria pessoal, aqueles que jazem no \u00e2mago do seu inconsciente.<\/p>\n<p>Resumindo, o que estou querendo dizer \u00e9 que a nossa experi\u00eancia do Sagrado esteia-se em tr\u00eas pilares: o inconsciente pessoal, o inconsciente coletivo e a cultura. Saliente-se, a prop\u00f3sito, que tomo este \u00faltimo voc\u00e1bulo no sentido antropol\u00f3gico em que o termo \u00e9 usado.<\/p>\n<p>Uma vez que a rela\u00e7\u00e3o com o Sagrado \u00e9 mediada pela cultura, compete \u00e0s religi\u00f5es fornecer os meios para que tal intera\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a. Esses meios s\u00e3o os ritos, a doutrina, os dogmas, as divindades e tudo o que constitui uma religi\u00e3o. Este \u00e9 um dos motivos que tornam t\u00e3o necess\u00e1rias e importantes essas institui\u00e7\u00f5es. Elas s\u00e3o formas institucionalizadas \u2013 ratificadas socialmente -, de acesso ao Sagrado.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o implica, necessariamente, afirmar que s\u00f3 seja poss\u00edvel estabelecer o contato com o Sagrado dentro do quadro das religi\u00f5es. De maneira alguma. Essa experi\u00eancia \u00e9 perfeitamente vi\u00e1vel a quem n\u00e3o professa qualquer credo religioso. Entretanto, acredito que, se o sujeito est\u00e1 amparado por um determinado credo, com o qual ele se identifica totalmente, a experi\u00eancia, sob certos aspectos, se torna mais f\u00e1cil, sua travessia se torna uma jornada, de alguma forma, mais segura.<\/p>\n<p>A busca do contato com o Sagrado \u00e9 uma jornada \u00e1rdua, dif\u00edcil e longa para quem decide leva-la \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. E quem se arrisca a faz\u00ea-la por conta pr\u00f3pria, sem o amparo de uma religi\u00e3o, seja ela qual for, fica mais suscet\u00edvel a uma s\u00e9rie de riscos, como, por exemplo, o de se deixar enganar por ilus\u00f5es delirantes e situa\u00e7\u00f5es meramente imagin\u00e1rias. Embora quem busque uma religi\u00e3o n\u00e3o esteja totalmente imune a esse risco, eu diria que ele \u00e9 menor.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 mais um aspecto a salientar. Uma vez que essa experi\u00eancia \u00e9 sempre pessoal e colorida pelas idiossincrasias pr\u00f3prias de cada indiv\u00edduo, a diversidade religiosa tem que ser, necessariamente, grande, de forma a se adequar aos anseios de quem busca nelas os fundamentos para a sua busca do Sagrado.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso, inclusive, que dentro de uma mesma religi\u00e3o h\u00e1 muitas nuances. Cite-se, como exemplo, as ordens religiosas, as seitas, as divindades, os santos, a diversidade de ritos e mitos, os dogmas, enfim, tudo o que constitui o riqu\u00edssimo universo das religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Para concluir, n\u00e3o se deve esquecer, ainda, um dado muito importante, que \u00e9 o fato de que o Sagrado nunca se deixa domesticar totalmente. Tome-se, aqui, domestica\u00e7\u00e3o no sentido de institucionaliza\u00e7\u00e3o. Quando come\u00e7a a ser muito oprimido, sofrendo os estreitamentos e reducionismos pr\u00f3prios das institui\u00e7\u00f5es religiosas, ele se rebela. \u00c9 nesses momentos que aparecem os reformadores, os novos fundadores, os m\u00edsticos, que sempre surgem imbu\u00eddos da miss\u00e3o de dar uma arejada na institui\u00e7\u00e3o, trazendo algo novo, que sempre surpreende.<\/p>\n<p>Para ficar dentro da perspectiva cat\u00f3lica, poderia citar dois exemplos de figuras que provocaram grandes abalos na institui\u00e7\u00e3o, com suas propostas radicais: S\u00e3o Francisco de Assis e Santa Teresa d\u00b4\u00c1vila. Um outro exemplo que, no caso, provocou um abalo que poder\u00edamos dizer s\u00edsmico, foi Lutero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8230;o seu inconsciente precisa de um deus. \u00c9 uma necessidade s\u00e9ria e aut\u00eantica.<br \/>\nC. G. Jung<br \/>\n[Jung, C. G. A vida simb\u00f3lica: escritos diversos. 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