{"id":4829,"date":"2012-04-17T09:31:19","date_gmt":"2012-04-17T12:31:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4829"},"modified":"2012-04-17T09:31:19","modified_gmt":"2012-04-17T12:31:19","slug":"um-fim-de-semana-em-companhia-de-drina-e-bento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/04\/17\/um-fim-de-semana-em-companhia-de-drina-e-bento\/","title":{"rendered":"Um fim de semana em companhia de Drina e Bento"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-4830\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/um-fim-de-semana-em-companhia-de-drina-e-bento\/o-sobrevivente\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4830\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/04\/O-Sobrevivente-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Acho realmente que a arte nos escolhe, conforme a nossa personalidade. Escolhi a literatura para expressar-me e ela, por sua vez, tamb\u00e9m me escolheu; das artes, a que menos precisa de plateia, porque encontra seu objetivo quando um leitor a l\u00ea. O pr\u00f3prio escritor se insere na narrativa como mais um personagem e \u00e9 impressionante a capacidade de deslocamento que ele tem para versar sobre outras realidades; muitas vezes, transportando-se para situa\u00e7\u00f5es, \u00e9pocas ou lugares que n\u00e3o conheceu de fato e descrev\u00ea-los com propriedade. Eu mesma, num de meus livros, vivi a maternidade com uma intensidade tal que me pareceu real, uma experi\u00eancia que a Provid\u00eancia me negou, mas que a literatura me possibilitou. \u00c9 a for\u00e7a da palavra liter\u00e1ria e a forma como o escritor a usa, que torna esta m\u00e1gica poss\u00edvel, permitindo que a literatura sobreponha-se \u00e0 experi\u00eancia de vida.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">\u00cdris Cavalcante, pela boca de Drina, personagem de O Sobrevivente<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Cavalcante, \u00cdris. O Sobrevivente<\/strong><em>. \u2013 Fortaleza: Express\u00e3o Gr\u00e1fica, 2010, p. 43.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>S\u00e1bado pela manh\u00e3 liguei par a livraria Cultura a fim de me informar sobre a disponibilidade de um livro que almejava adquirir. Como a informa\u00e7\u00e3o da vendedora foi que dispunham do mesmo para aquisi\u00e7\u00e3o, pedi que me reservassem um exemplar. Por volta das onze horas, depois de pegar minha encomenda no balc\u00e3o de reservas, sentei-me a uma mesa do caf\u00e9 e, ali mesmo na livraria, iniciei minha explora\u00e7\u00e3o do volume rec\u00e9m-adquirido. Em pouco tempo j\u00e1 me sentia confort\u00e1vel em companhia de Drina, a personagem autora, e de seu irm\u00e3o Bento, o her\u00f3i de uma epopeia da qual eu come\u00e7ava a participar na condi\u00e7\u00e3o de leitor.<\/p>\n<p>No dia seguinte, domingo, \u00e0s 23 horas, eu entrava na cozinha de meu apartamento e falava pra Naza: \u00a0\u201cRealizei uma fa\u00e7anha que h\u00e1 tempos eu n\u00e3o conseguia: acabo de concluir a leitura de um livro de 214 p\u00e1ginas iniciada ontem na livraria Cultura\u201d. De fato, perdi um pouco meu pique de leitura e, de uns tempos pra c\u00e1, tem sido dif\u00edcil me dedicar ininterruptamente a um \u00fanico livro at\u00e9 conclu\u00ed-lo, coisa que eu fazia antes sem o menor esfor\u00e7o. A leitura do livro adquirido no s\u00e1bado, por\u00e9m, me proporcionou essa oportunidade.<\/p>\n<p>Narrado na primeira pessoa, <em>O Sobrevivente<\/em>, livro de autoria de \u00cdris Cavalcante, tem como cen\u00e1rio a cidade de Baturit\u00e9, mas tamb\u00e9m Fortaleza, Israel e o Rio de Janeiro. O romance tem como personagens principais Maria Alexandrina de S\u00e1 Albuquerque, tratada por Drina pelos familiares e amigos, e seu irm\u00e3o adotivo, Bento de Albuquerque.<\/p>\n<p>Uma das peculiaridades do romance est\u00e1 em que Drina, na condi\u00e7\u00e3o de escritora, ao longo da narrativa vai entremeando algumas interessantes reflex\u00f5es sobre o pr\u00f3prio ato da escrita, como quando afirma:<\/p>\n<p><em>Estas ang\u00fastias, incertezas e expectativas, sempre estiveram impl\u00edcitas em minha obra, na composi\u00e7\u00e3o de meus personagens e no dorso da narrativa. Toda obra de fic\u00e7\u00e3o traz inevitavelmente o perfil psicol\u00f3gico e a experi\u00eancia de vida de seu autor. Cheguei a esta conclus\u00e3o ap\u00f3s muitos anos de literatura, lendo grandes obras e grandes autores que me fizeram montar o alicerce que me transformaria num deles. Cada escritor traz em si uma originalidade e estilo pr\u00f3prios. Embora alguns digam a mesma coisa, cada um a diz de forma diferente<\/em> (p. 46).<\/p>\n<p>Num outro trecho, ao se referir \u00e0s dificuldades enfrentadas por ocasi\u00e3o da revis\u00e3o gramatical de seus livros &#8211; que ela pr\u00f3pria prefere fazer, ao inv\u00e9s de delegar a tarefa a um revisor -, credita tais dificuldades \u00e0 <em>tirania dos tempos e concord\u00e2ncias verbais da l\u00edngua portuguesa<\/em> (p. 135).<\/p>\n<p>Paralelo a quest\u00f5es de cunho existencial, presentes no romance, nota-se na autora o interesse em fazer tamb\u00e9m uma cr\u00edtica de cunho social. Talvez quanto a esse aspecto, a figura mais emblem\u00e1tica seja o pr\u00f3prio Bento Albuquerque, nascido no sert\u00e3o nordestino. Bento fica \u00f3rf\u00e3o ainda na inf\u00e2ncia, ao ser abandonado pela m\u00e3e que, n\u00e3o suportando tanta mis\u00e9ria, larga o filho e se manda n\u00e3o se sabe pra onde. Ao narrar o epis\u00f3dio do seu encontro com Bento, Drica traz a lume um dos ad\u00e1gios a que seu pai sempre recorria em momentos os mais diversos &#8211; os maravilhosos ad\u00e1gios t\u00e3o comuns no sert\u00e3o nordestino, e que se far\u00e3o presentes no romance do come\u00e7o ao fim: <em>Em terra sem vianda, a fome \u00e9 quem manda!<\/em><\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da tem\u00e1tica social presente no romance <em>O Sobrevivente<\/em>, penso que n\u00e3o se pode considerar mera coincid\u00eancia a localiza\u00e7\u00e3o da casa onde a narrativa se inicia. Diz a autora: \u00a0<em>A frente era voltada para a rua 7 de setembro<\/em> e <em>a entrada dos fundos para a rua 15 de novembro<\/em> (p. 21). Levanto a hip\u00f3tese de que essa localiza\u00e7\u00e3o &#8211; que remete a dois importantes momentos hist\u00f3ricos e, por que n\u00e3o dizer, fundadores do nosso pa\u00eds -, aparece a\u00ed como met\u00e1fora, como se uma parte da pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o brasileira, o nordeste, estivesse simbolizado naquela casa do interior cearense.<\/p>\n<p>Bento, como personagem principal, \u00e9 a figura mais representativa de toda essa situa\u00e7\u00e3o em que boa parte dos nordestinos ainda se v\u00ea imersa. Ele nem mesmo registrado era, como se oficialmente n\u00e3o existisse, a exemplo de tantos outros Bentos espalhados pelos rinc\u00f5es do nordeste: \u201cBento n\u00e3o fora registrado antes, ele n\u00e3o era uma estat\u00edstica oficial at\u00e9 ent\u00e3o\u201d (p. 23).<\/p>\n<p>Em que pese, por\u00e9m, a sorte adversa e os reveses que ter\u00e1 que enfrentar ao longo da vida, h\u00e1 \u00a0uma for\u00e7a maior que n\u00e3o deixa Bento perecer. E aqui encontramos outro aspecto marcante de <em>O Sobrevivente<\/em>: as refer\u00eancias \u00e0 f\u00e9, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, a Deus, enfim, salpicadas ao longo da narrativa, express\u00e3o de uma das caracter\u00edsticas basilares da nossa nordestinidade: o misticismo\u00a0 religioso. \u00c9, provavelmente, o que leva Drica, a personagem autora, a dizer:<\/p>\n<p><em>Deus n\u00e3o desistiu de Bento. Contrariando todos os pressupostos, Deus n\u00e3o desistiu dele, que por sua vez, agarrou-se com unhas e\u00a0<a rel=\"attachment wp-att-4835\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/um-fim-de-semana-em-companhia-de-drina-e-bento\/i%c2%b4ris-cavlcante-3\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-thumbnail wp-image-4835\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/04\/I\u00b4ris-Cavlcante2-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>dentes a cada nova chance que a vida lhe proporcionava<\/em> (p.21).<\/p>\n<p>\u00cdris Cavalcante, a autora de <em>O Sobrevivente<\/em>, \u00e9 poetisa e romancista cearense, tendo publicado antes os livros: <em>Palavras e Poesias<\/em>,em\u00a02003, e <em>O Caminho das Letras<\/em>, em 2006.<\/p>\n<p><em>O Sobrevivente<\/em>, livro que li com encanto e interesse da primeira \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina, tem muitos outros aspectos que poderiam e mereceriam ser destacados e analisados, como, por exemplo, o desfecho, que, ao final, toma o leitor de surpresa. Mas n\u00e3o sou cr\u00edtico liter\u00e1rio, a quem cabe descer a uma maior profundidade na aprecia\u00e7\u00e3o da obra. O que escrevi aqui s\u00e3o apenas observa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es de um leitor comum, apaixonado por livros e leitura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acho realmente que a arte nos escolhe, conforme a nossa personalidade. Escolhi a literatura para expressar-me e ela, por sua vez, tamb\u00e9m me escolheu; das artes, a que menos precisa de plateia, porque encontra seu objetivo quando um leitor a l\u00ea. O pr\u00f3prio escritor se insere na narrativa como mais um personagem e \u00e9 impressionante a capacidade de deslocamento que ele tem para versar sobre outras realidades; muitas vezes, transportando-se para situa\u00e7\u00f5es, \u00e9pocas ou lugares que n\u00e3o conheceu de fato e descrev\u00ea-los com propriedade. Eu mesma, num de meus livros, vivi a maternidade com uma intensidade tal que me pareceu real, uma experi\u00eancia que a Provid\u00eancia me negou, mas que a literatura me possibilitou. \u00c9 a for\u00e7a da palavra liter\u00e1ria e a forma como o escritor a usa, que torna esta m\u00e1gica poss\u00edvel, permitindo que a literatura sobreponha-se \u00e0 experi\u00eancia de vida.<br \/>\n\u00cdris Cavalcante, pela boca de Drina, personagem de O Sobrevivente<br \/>\n[Cavalcante, \u00cdris. O Sobrevivente. \u2013 Fortaleza: Express\u00e3o Gr\u00e1fica, 2010, p. 43.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":4830,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4829","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4829","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4829"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4829\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4830"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4829"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4829"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4829"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}