{"id":4839,"date":"2012-04-18T10:10:15","date_gmt":"2012-04-18T13:10:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4839"},"modified":"2012-04-18T10:10:15","modified_gmt":"2012-04-18T13:10:15","slug":"g-h-vinte-e-cinco-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/04\/18\/g-h-vinte-e-cinco-anos-depois\/","title":{"rendered":"G.H. vinte e cinco anos depois"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-4840\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/g-h-vinte-e-cinco-anos-depois\/clarice-lispector\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4840\" title=\"Clarice Lispector\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/04\/Clarice-Lispector-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Este livro \u00e9 como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma j\u00e1 formada. Aquelas que sabem que a aproxima\u00e7\u00e3o, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente \u2013 atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, s\u00f3 elas, entender\u00e3o bem devagar que este livro nada tira de ningu\u00e9m. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria dif\u00edcil; mas chama-se alegria.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Clarice Lispector<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Lispector, Clarice. A paix\u00e3o segundo G.H.: romance.<\/strong><em> \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 5.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Li A Paix\u00e3o segundo G.H. em 1987, h\u00e1 vinte e cinco anos, portanto. Foi uma leitura avassaladora. Foi uma descoberta, uma descoberta de amplas e incalcul\u00e1veis propor\u00e7\u00f5es. Para falar dos efeitos da leitura de Clarice Lispector na minha vida, no meu ser, em tudo que sou, n\u00e3o posso me permitir ser parcimonioso no uso das palavras; tenho que usar, necessariamente, express\u00f5es que deem pelo menos uma ideia do que eu gostaria de expressar. \u00c9 por isso que digo uma descoberta de amplas e incalcul\u00e1veis propor\u00e7\u00f5es, porque foi assim, de fato.<\/p>\n<p>H\u00e1 autores que me provocaram inquietantes reflex\u00f5es e deixaram em mim marcas indel\u00e9veis, como Nietzsche e Cioran. Nenhum outro autor, por\u00e9m, antes ou depois &#8211; nem mesmo esses dois -, tiveram o cond\u00e3o de me proporcionar um mergulho em dimens\u00f5es t\u00e3o profundas e inexploradas quanto Clarice Lispector. Ela \u00e9 \u00fanica!<\/p>\n<p>Pois bem, me entreguei de corpo e alma \u00e0 leitura da obra da autora. Cada livro conclu\u00eddo, eu imediatamente adquiria outro e me lan\u00e7ava a ele sem demora. Lembro que, na \u00e9poca, estava estagiando no SOEVOC, que ficava pr\u00f3ximo \u00e0 Pra\u00e7a do Carmo, no centro de Fortaleza. No intervalo do almo\u00e7o \u2013 eu almo\u00e7ava em um restaurante ali perto -, eu ficava na Pra\u00e7a lendo Clarice Lispector at\u00e9 o in\u00edcio do expediente. Eu n\u00e3o largava a leitura.<\/p>\n<p>Alguns livros li mais de uma vez, como <em>A ma\u00e7\u00e3 no escuro<\/em>, <em>\u00c1gua Viva<\/em> e o mencionado <em>A paix\u00e3o segundo G.H.<\/em> Passei ainda muito tempo relendo trechos. Em 1987, durante uma reuni\u00e3o em que dever\u00edamos escolher como seria o nosso convite de formatura, foi sugerido que algu\u00e9m propusesse uma frase para figurar na primeira p\u00e1gina. Propus uma frase da Clarice Lispector, claro: <em>A loucura \u00e9 vizinha da mais cruel sensatez<\/em>.<\/p>\n<p>Imediatamente, uma colega, a Eliana Olinda, disse que tamb\u00e9m queria propor uma frase e as duas seriam postas em vota\u00e7\u00e3o. Quando ela proferiu a frase, no ato retirei a minha proposta e disse: fico com a dela. Todos concordaram e ela foi impressa no convite. Nem precisa dizer que era, tamb\u00e9m, uma frase da mesma autora, que se encontra na p\u00e1gina 20 de <em>\u00c1gua viva<\/em>:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o quero ter a terr\u00edvel limita\u00e7\u00e3o de quem vive apenas do que \u00e9 pass\u00edvel de fazer sentido. Eu n\u00e3o, quero \u00e9 uma verdade inventada<\/em>.<\/p>\n<p>Agora, vinte e cinco anos depois, decidi reler a obra completa de Clarice Lispector. E comecei hoje por <em>A paix\u00e3o segundo G.H.<\/em> Na primeira p\u00e1gina do livro ela escreveu algo que pode ser tomado como uma esp\u00e9cie de advert\u00eancia, sugerindo que gostaria que aquele livro fosse lido apenas por pessoas de alma j\u00e1 formada. Bem, quando o li pela primeira vez, eu tinha, ent\u00e3o, vinte e seis anos incompletos. N\u00e3o sei se eu j\u00e1 tinha uma alma formada. Hoje, com quase o dobro da idade, continuo sem saber se minha alma j\u00e1 se formou \u2013 desconfio que n\u00e3o. Mesmo assim, iniciei a leitura. Quero ver que sensa\u00e7\u00f5es experimentarei em face de um novo contato com as elucubra\u00e7\u00f5es clariceanas, tanto tempo depois.<\/p>\n<p>Um detalhe: adquiri s\u00e1bado um novo exemplar de <em>A paix\u00e3o segundo G.H.<\/em> para a leitura que hoje inicio. N\u00e3o quero ter qualquer contato com a edi\u00e7\u00e3o que li h\u00e1 vinte e cinco anos, pois est\u00e1 toda grifada e cheia de observa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es \u00e0s margens das p\u00e1ginas. N\u00e3o quero me deixar contaminar pelo que vivi e senti quando da primeira leitura da obra. Pretendo fazer o mesmo com todo o restante da obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este livro \u00e9 como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma j\u00e1 formada. Aquelas que sabem que a aproxima\u00e7\u00e3o, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente \u2013 atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, s\u00f3 elas, entender\u00e3o bem devagar que este livro nada tira de ningu\u00e9m. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria dif\u00edcil; mas chama-se alegria.<br \/>\nClarice Lispector<br \/>\n[Lispector, Clarice. A paix\u00e3o segundo G.H.: romance. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 5.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":4840,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-4839","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-11-clariceanas"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4839","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4839"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4839\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4840"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4839"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4839"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4839"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}