{"id":486,"date":"2009-08-17T06:21:40","date_gmt":"2009-08-17T11:21:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=486"},"modified":"2009-08-17T06:21:40","modified_gmt":"2009-08-17T11:21:40","slug":"escrever-e-preciso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/17\/escrever-e-preciso\/","title":{"rendered":"Era preciso um tema"},"content":{"rendered":"<p>Uma vida \u00e9 feita de lembran\u00e7as e fragmentos. Diante da tela do computador \u00e0 espera da indispens\u00e1vel inspira\u00e7\u00e3o para o texto que postarei logo mais nesta segunda-feira, uma multid\u00e3o de temas precipita-se em minha mente clamando por fazer-se palavra. Sobre que assunto escrever, do que falar, o que dizer neste come\u00e7o de semana? Eu deveria escrever, a exemplo do que tenho feito desde que este blog foi criado, sobre o nosso jeito brasileiro de ser. N\u00e3o sinto, por\u00e9m, vontade de desenvolver qualquer assunto dentro desta tem\u00e1tica. Ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Mas escrever \u00e9 preciso. Clarice Lispector disse, certa vez, que escrever salva. E salva mesmo. Disso n\u00e3o tenho d\u00favidas. \u00c9 por isso que escrevo, para me salvar de mim mesmo. Mas nem sempre o assunto, quando o tema \u00e9 predeterminado, est\u00e1 \u00e0 m\u00e3o. O paradoxo, por\u00e9m, \u00e9 que \u00e0s vezes o infinito universo de possibilidades da escrita \u00e9, exatamente, o que gera a paralisa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o raros os escritores que reclamam da ang\u00fastia diante da folha em branco ou, como se tornou mais comum nos \u00faltimos tempos, da tela do computador.<\/p>\n<p>Pois eis-me aqui, nesta noite de domingo &#8211; Ah!, as noites de domingo, como s\u00e3o vazias e chatas as noites de domingo! &#8211; em busca do assunto para a postagem da segunda-feira. Como nada me ocorresse, por\u00e9m, entre uma e outra x\u00edcara de caf\u00e9 &#8211; onde descarrego minha ang\u00fastia -, restou-me inventar, criar um novo tema para as segundas-feiras, de forma a altern\u00e1-lo com aquele que j\u00e1 se tornou habitual, para o caso de experimentar essa falta de assunto que experimento esta noite.<\/p>\n<p>Ocorre-me que comecei falando de lembran\u00e7as. Por que usei exatamente esta palavra para iniciar o texto? Bem, o fato \u00e9 que as tardes-noite de domingo sempre me trazem lembran\u00e7as. Geralmente encontro formas de despistar tais lembran\u00e7as, porque elas nem sempre me fazem bem. S\u00e3o, quase sempre, lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, dos meus primeiros dezoito anos, vividos em Massap\u00ea.<\/p>\n<p>Pois me ocorreu de, enquanto me postava diante do computador, vir \u00e0 mente a lembran\u00e7a de Dona Maria Zumba. N\u00e3o sei de onde saiu este sobrenome t\u00e3o esquisito, mas tudo que posso afirmar \u00e9 que n\u00e3o lhe agradava ser tratada assim. O seu nome, afirmava enf\u00e1tica, era Maria Vasconcelos. Mas o fato \u00e9 que todos na cidade a conheciam por Maria Zumba.<\/p>\n<p>Eu tinha um carinho muito especial por Dona Maria Zumba. Minha amizade com ela se deveu \u00e0s suas idas quase di\u00e1rias ao com\u00e9rcio do papai, de quem era freguesa. J\u00e1 idosa, n\u00e3o podendo mais se locomover, teve que recorrer a um vizinho para ir ao com\u00e9rcio do papai comprar os v\u00edveres necess\u00e1rios para o dia-a-dia.<\/p>\n<p>Foi nessa \u00e9poca que comecei a frequentar a casa de Dona Maria Zumba. Morava num casebre no Bairro Nossa Senhora de F\u00e1tima, em local bem afastado. Viviam ela, uma outra mulher idosa, tamb\u00e9m solteira, e gatos, muitos gatos. Geralmente uma vez por semana, ou a cada quinze dias, eu pedia \u00e0 minha m\u00e3e caf\u00e9, arroz, a\u00e7\u00facar ou alguns outros g\u00eaneros de primeira necessidade, fazia um pacote e seguia de bicicleta para a casa daquelas anci\u00e3s esquecidas pelo mundo.<\/p>\n<p>Impressionava-me profundamente a solid\u00e3o daquelas duas mulheres, j\u00e1 idosas e ambas com dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o, tendo por companhia apenas os gatos. Quando l\u00e1 chegava, recordo-me bem, era uma festa. Dona Maria erguia-se com dificuldade da cadeira para me abra\u00e7ar, proferindo sempre as mesmas palavras: &#8220;\u00c9 por isso que a tarde t\u00e1 t\u00e3o bonita! \u00c9 o Vasconcelinho que veio visitar a gente!&#8221;<\/p>\n<p>Demorava-me por l\u00e1 algum tempo a conversar amenidades e, quando o sol declinava e come\u00e7ava a escurecer, pegava a bicicleta e me encaminhava de volta para casa. Na hora da despedida havia sempre a inevit\u00e1vel pergunta sobre quando eu voltaria a visit\u00e1-las novamente.<\/p>\n<p>Ao escrever este texto, tenho n\u00edtida diante de mim a imagem e as palavras de Dona Maria Zumba. Supondo que exista uma alma que sobreviva ao corpo, n\u00e3o raras vezes me ponho a matutar se hoje, em outra dimens\u00e3o, essas pessoas que me transmitiram tanta ternura, tanta pureza e bondade, intercedem por mim. Caso isso seja poss\u00edvel, tenho certeza de que, neste momento, Dona Maria Zumba, olhando l\u00e1 de cima para mim com muita ternura, pensa: &#8220;Pois n\u00e3o \u00e9 que o Vasconcelinho ainda se lembra de mim depois de tanto tempo?&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vida \u00e9 feita de lembran\u00e7as e fragmentos. 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