{"id":4906,"date":"2012-06-07T07:21:15","date_gmt":"2012-06-07T10:21:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=4906"},"modified":"2012-06-07T07:21:15","modified_gmt":"2012-06-07T10:21:15","slug":"na-poltrona-conversando-sobre-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/06\/07\/na-poltrona-conversando-sobre-literatura\/","title":{"rendered":"Na poltrona, conversando sobre literatura"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/na-poltrona-conversando-sobre-literatura\/a-literatura-na-poltrona\/\" rel=\"attachment wp-att-4914\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4914\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/06\/A-literatura-na-poltrona-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/06\/A-literatura-na-poltrona-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/06\/A-literatura-na-poltrona-300x300.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/06\/A-literatura-na-poltrona-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/06\/A-literatura-na-poltrona.jpg 600w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>H\u00e1 uma imagem para a literatura: a do sujeito solit\u00e1rio que, acomodado em sua poltrona, a aten\u00e7\u00e3o voltada para o livro aberto, l\u00ea em recolhimento e em sil\u00eancio. Imagem serena e \u00edntima, que contraria a turbul\u00eancia e o desnudamento que vigoram no mundo de hoje. Lugar da contempla\u00e7\u00e3o, do resguardo e da volta a si, cujo valor aumenta na medida em que a profundidade do mundo \u2013 esse mundo de superf\u00edcies velozes, de janelas que se abrem e fecham e de imagens loucas \u2013 cada vez mais diminui.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Jos\u00e9 Castello<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Castello, Jos\u00e9. A literatura na poltrona<\/strong><em>. \u2013 Rio de Janeiro: \u00a0Record, 2007, p. 64]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Quando assisti, na televis\u00e3o, a uma entrevista do jornalista e escritor Jos\u00e9 Castello, na Feira de Literatura de Parati, decidi que procuraria imediatamente o livro de sua autoria <em>A literatura na poltrona: jornalismo liter\u00e1rio em tempos inst\u00e1veis<\/em>. Foi o que, de fato, fiz. Como n\u00e3o o encontrasse em Fortaleza, encomendei-o ao Vladimir, da livraria Arte e Ci\u00eancia. T\u00e3o logo o recebi, me lancei \u00e0 leitura. Valeu a espera. \u00a0Gostei tanto que, pouco mais de um m\u00eas depois, j\u00e1 se enfileiravam na minha estante seis outros livros do autor. O mais recente, adquirido tamb\u00e9m mediante encomenda, recebi a semana passada: <em>Na cobertura de Rubem Braga<\/em>.<\/p>\n<p><em>A literatura na poltrona<\/em> \u00e9 composto de quinze ensaios ao longo dos quais Jos\u00e9 Castello reflete sobre literatura, livros e autores. S\u00e3o reflex\u00f5es provocativas e instigantes, emanadas de um jornalista que teve o privil\u00e9gio de conversar \u2013 e que conversas! \u2013 com escritores da mais alta estirpe, tanto brasileiros quanto estrangeiros. No seu rol de entrevistados constam nomes como Clarice Lispector \u2013 como o invejo por isso! -, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Hilda Hilst, Manoel de Barros \u2013 \u00e9 inacredit\u00e1vel, mas ele conseguiu essa fa\u00e7anha -, Nelson Rodrigues, Adolfo Bioy Casares e Jos\u00e9 Saramago, s\u00f3 para citar alguns.<\/p>\n<p>Dentre os diversos temas liter\u00e1rios abordados por Castello, inclui-se o dif\u00edcil mister de bi\u00f3grafo. Sobre o assunto, pode falar com conhecimento de causa. \u00c9 de sua autoria o livro <em>O poeta da paix\u00e3o<\/em>, \u00a0biografia de Vin\u00edcius de Moraes. No ensaio intitulado <em>Biografar ou ressuscitar?<\/em>, afirma:<\/p>\n<p><em>Vivemos um tanto \u00e0s escuras; nossos sentimentos nem sempre s\u00e3o claros e nossas decis\u00f5es, seguras; tentamos fisgar os atos com palavras, mas elas se mostram insuficientes; vivemos, mas \u00e9 a vida tamb\u00e9m que nos vive. Al\u00e9m disso, o homem contempor\u00e2neo leva uma exist\u00eancia em fragmentos, que lhe fornece uma imagem de si, e dos outros, cada vez mais impalp\u00e1vel. \u00c9 cada vez mais dif\u00edcil fixar uma imagem n\u00edtida, mesmo do mais simples dos homens. Se pudessem viver e pintar em nosso tempo, os grandes artistas do renascimento enlouqueceriam<\/em> (p. 167).<\/p>\n<p>O ato da escrita e da leitura, por sua vez, s\u00e3o temas onipresentes, que perpassam a quase totalidade- se n\u00e3o a totalidade &#8211; dos ensaios. No segundo, que d\u00e1 nome ao livro, escreve Castello, a prop\u00f3sito da leitura:<\/p>\n<p><em>A leitura \u00e9 uma experi\u00eancia misteriosa, de que participam n\u00e3o s\u00f3 o texto que se l\u00ea, mas a imagina\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria, a hist\u00f3ria, a sensibilidade de quem l\u00ea. Na \u201cdecifra\u00e7\u00e3o\u201d de um escritor, mesmo entre especialistas, n\u00e3o entram em jogo apenas a bagagem liter\u00e1ria, a erudi\u00e7\u00e3o acumulada e a per\u00edcia t\u00e9cnica, mas tamb\u00e9m o rasto existencial. Cada um l\u00ea com o que tem, l\u00ea com o que \u00e9, l\u00ea como pode. N\u00e3o existe leitura perfeita, nem completa; muita coisa, mesmo para os leitores treinados, sempre fica de fora. \u00c9 esse aspecto inesgot\u00e1vel da literatura que lhe confere um car\u00e1ter m\u00e1gico. N\u00e3o \u00e9 preciso fazer \u201crealismo m\u00e1gico\u201d, ou \u201cliteratura fant\u00e1stica\u201d para brincar com fogo<\/em> (p. 37).<\/p>\n<p>Mais adiante, depois de afirmar que \u201cToda literatura \u00e9 feita de mal-entendidos\u201d, ou seja, \u201cde imagens trocadas, de defeitos, de imprecis\u00f5es, de suposi\u00e7\u00f5es\u201d, conclui, no par\u00e1grafo final:<\/p>\n<p><em>Tudo aquilo que julgamos \u201centender bem\u201d, quer dizer, dominar e possuir, est\u00e1 fora do liter\u00e1rio. A leitura de um grande livro mexe com o que temos de mais inst\u00e1vel e de mais sens\u00edvel, pois joga com o inacess\u00edvel e o remoto. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ler um grande livro, mas \u00e9 inesquec\u00edvel. Que a literatura volte para a poltrona! E que, expostos \u00e0 sua for\u00e7a, nos sobre coragem para suportar, mas tamb\u00e9m sorver, a grande devasta\u00e7\u00e3o<\/em> (p. 38).<\/p>\n<p><em>A literatura na poltrona<\/em> \u00e9 \u00a0um convite a que o leitor, instalado confortavelmente numa macia poltrona, se deixe quedar na agrad\u00e1vel companhia de Jos\u00e9 Castello em uma deliciosa conversa sobre a leitura e a escrita, mediada por livros e autores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma imagem para a literatura: a do sujeito solit\u00e1rio que, acomodado em sua poltrona, a aten\u00e7\u00e3o voltada para o livro aberto, l\u00ea em recolhimento e em sil\u00eancio. Imagem serena e \u00edntima, que contraria a turbul\u00eancia e o desnudamento que vigoram no mundo de hoje. Lugar da contempla\u00e7\u00e3o, do resguardo e da volta a si, cujo valor aumenta na medida em que a profundidade do mundo \u2013 esse mundo de superf\u00edcies velozes, de janelas que se abrem e fecham e de imagens loucas \u2013 cada vez mais diminui.<br \/>\nJos\u00e9 Castello<br \/>\n[Castello, Jos\u00e9. A literatura na poltrona. \u2013 Rio de Janeiro:  Record, 2007, p. 64]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":4914,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4906","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4906"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4906\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4914"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}