{"id":495,"date":"2009-08-18T06:21:24","date_gmt":"2009-08-18T11:21:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=495"},"modified":"2009-08-18T06:21:24","modified_gmt":"2009-08-18T11:21:24","slug":"thomas-merton-uma-busca-inconclusa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/18\/thomas-merton-uma-busca-inconclusa\/","title":{"rendered":"Thomas Merton, uma busca inconclusa"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-502\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/thomas_merton.jpg\" alt=\"thomas_merton\" width=\"223\" height=\"284\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/08\/thomas_merton.jpg 223w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/08\/thomas_merton-120x153.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/>Darei o que desejas. Eu te levarei para a solid\u00e3o. Eu te levarei pelo caminho que talvez n\u00e3o compreendas, porque eu quero que seja o caminho mais r\u00e1pido. (&#8230;) N\u00e3o perguntes quando ser\u00e1, onde ser\u00e1 ou como ser\u00e1: numa montanha ou numa pris\u00e3o, num deserto ou num campo de concentra\u00e7\u00e3o, num hospital ou em Gethsemani. N\u00e3o importa. Por isso n\u00e3o me perguntes, porque n\u00e3o to direi. N\u00e3o saber\u00e1s de nada, at\u00e9 que estejas l\u00e1 dentro.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Thomas Merton<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Merton, Thomas. A montanha dos sete patamares. Tradu\u00e7\u00e3o de Edgar Orth. &#8211; Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2005, p. 380-381]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Thomas Merton foi, seguramente, um dos grandes m\u00edsticos do s\u00e9culo XX. Tendo nascido em Prades, na Fran\u00e7a, em 31 de janeiro de 1915, em uma fam\u00edlia protestante, por livre e espont\u00e2nea vontade aderiu \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica aos 23 anos, quando pediu para ser batizado. A prop\u00f3sito, escreve no livro <em>A montanha dos sete patamares<\/em>, sua autobiografia, publicada dez anos depois:<\/p>\n<p><em>Quando chegou novembro, minha cabe\u00e7a s\u00f3 pensava numa coisa: ser batizado e entrar finalmente para a vida sobrenatural da Igreja. Apesar de todo meu estudo, leituras e conversas, eu me julgava infinitamente pobre e insignificante diante do que ia acontecer em mim. Estava prestes a desembocar na praia, ao sop\u00e9 da alta montanha de sete patamares de um purgat\u00f3rio mais escarpado e \u00e1rduo que eu poderia imaginar e n\u00e3o tinha a m\u00ednima id\u00e9ia da subida que me restava fazer<\/em> (p. 200).<\/p>\n<p>Em 1941, depois de muita hesita\u00e7\u00e3o, resolve se tornar monge, entrando para o mosteiro trapista de Gethsemani. Nessa ocasi\u00e3o, ao receber a visita do amigo Bob Lax, entrega-lhe os manuscritos de seus poemas, os quais, pouco depois, s\u00e3o publicados, precipitando-lhe numa grande ang\u00fastia, por achar que a exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s da escrita punha em risco sua voca\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica. Sobre a contradi\u00e7\u00e3o que o dilacera, escreve:<\/p>\n<p><em>Nesta \u00e9poca j\u00e1 devia estar livre de alguns problemas sobre minha verdadeira identidade. J\u00e1 tinha feito minha profiss\u00e3o simples. Meus votos deviam ter-me despojado dos \u00faltimos trapos de alguma identidade especial. Mas agora havia esta sombra, este s\u00f3sia, este escritor que me acompanhava para dentro do claustro. Ele est\u00e1 nos meus calcanhares, ele monta nos meus ombros, \u00e0s vezes como o velho do mar. N\u00e3o consigo me livrar dele. Usa ainda o nome de Thomas Merton. Ser\u00e1 o nome de um inimigo? Presume-se que esteja morto. Mas est\u00e1 \u00e0 espera e me encontra na entrada de todas as minhas ora\u00e7\u00f5es, segue-me para dentro da igreja. Ajoelha-se comigo atr\u00e1s da pilastra, o Judas, e fala-me o tempo todo ao ouvido<\/em> (p. 370).<\/p>\n<p>Instado, pelos seus superiores, a que continuasse escrevendo, lamenta-se, dizendo de si mesmo: <em>\u00c9 um empres\u00e1rio. Est\u00e1 cheio de id\u00e9ias. Emite opini\u00f5es e tra\u00e7a novos esquemas. Ele gera livros no sil\u00eancio, que devem ser doces com a escurid\u00e3o infinitamente produtiva da contempla\u00e7\u00e3o. (&#8230;) \u00c0s vezes fico mortalmente apavorado. H\u00e1 dias em que parece que nada sobrou de minha voca\u00e7\u00e3o &#8211; de minha voca\u00e7\u00e3o contemplativa &#8211; a n\u00e3o ser poucas cinzas. E todos me dizem com absoluta calma:<\/em> Tua voca\u00e7\u00e3o \u00e9 escrever (p. 370). Apesar disso, jamais conseguiria sufocar a voca\u00e7\u00e3o de escritor, publicando mais de setenta livros ao longo de seus cinquenta e tr6es anos de exist\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>Merton foi, antes de tudo, um homem \u00e0 frente do seu tempo. Durante cinco anos realizou encontros semanais com pastores protestantes e estudiosos judeus, antecipando-se, portanto, ao ecumenismo e ao di\u00e1logo interreligioso. Demonstrou especial interesse pelas religi\u00f5es orientais, tendo lido e escrito sobre o budismo. Teve oportunidade de se encontrar pessoalmente com o Dalai Lama, encontro este que relataria em seu di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em 1968 foi convidado para participar do Congresso Ecum\u00eanico que se realizaria em Bancoc, na Tail\u00e2ndia. L\u00e1 sua prof\u00edcua vida seria interrompida drasticamente, quando, ao tentar concertar um defeito no aquecedor de seu quarto, morre eletrocutado. Contava, ent\u00e3o, cinquenta e tr\u00eas anos de idade.<\/p>\n<p>O que sempre me fascinou em Thomas Merton foi a coragem demonstrada em enfrentar e assumir suas contradi\u00e7\u00f5es, em uma incessante busca que n\u00e3o hesitou em lan\u00e7ar m\u00e3o do saber de outras religi\u00f5es, mesmo sendo ele um monge crist\u00e3o. Merton abre a sua autobiografia com as seguintes palavras: <em>No \u00faltimo dia de janeiro de 1915, no signo de aqu\u00e1rio, num ano de grande guerra, debaixo das sombras de certas montanhas francesas na fronteira com a Espanha, nasci para o mundo. Livre por natureza, \u00e0 imagem de Deus, era no entanto prisioneiro da minha pr\u00f3pria viol\u00eancia e do meu pr\u00f3prio ego\u00edsmo, \u00e0 imagem do mundo em que nasci. Este mundo era a imagem do inferno, cheio de homens como eu, amando a Deus e, embora odiando-o, tinha nascido para am\u00e1-lo, mas vivia no medo e em desejos desesperadamente autocontradit\u00f3rios <\/em>(p. 9).<\/p>\n<p>Da leitura tanto de sua autobiografia quanto de seus di\u00e1rios, publicados no Brasil sob o t\u00edtulo <em>Merton na intimidade<\/em>, a impress\u00e3o que me fica \u00e9 de que esse grande m\u00edstico que o s\u00e9culo XX legou \u00e0 humanidade n\u00e3o logrou sucesso em solucionar as tais autocontradi\u00e7\u00f5es de que reclama, levando-as consigo para o t\u00famulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Darei o que desejas. Eu te levarei para a solid\u00e3o. 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