{"id":5021,"date":"2012-07-11T10:21:10","date_gmt":"2012-07-11T13:21:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5021"},"modified":"2012-07-11T10:21:10","modified_gmt":"2012-07-11T13:21:10","slug":"entrelinhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/07\/11\/entrelinhas\/","title":{"rendered":"Entrelinhas"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/entrelinhas\/entrelinhas\/\" rel=\"attachment wp-att-5022\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5022\" title=\"Entrelinhas\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/07\/Entrelinhas-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Eu quis fazer de minha vida um laborat\u00f3rio.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">Inventei (?) muitas f\u00f3rmulas.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">Experimentei todas.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">Algumas foram bem-sucedidas.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">De outras, ressurgi como F\u00eanix.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">&#8230;<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">Uma certeza firmei:<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">o que vale n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 expl\u00edcito.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">Para se ver claramente,<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">\u00e9 preciso tirar todos os \u00f3culos<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">e andar nas entrelinhas.<\/span><\/em><br \/>\n<em><span style=\"color: #800080\">Goretti Moreira<\/span><\/em><br \/>\n<span style=\"color: #800080\">[<strong>Moreira, Goretti. Entrelinhas<\/strong>. \u2013 Fortaleza: Premius, 2012, p. 101.]<\/span><\/p>\n<p>Imagine abrir um livro e encontrar, logo na primeira p\u00e1gina, promessa da autora de que vai dizer tudo o que pensa e sente. Pois \u00e9 o que faz Goretti Moreira no poema <em>Abertura<\/em>, que, conforme sugere o pr\u00f3prio t\u00edtulo, abre o seu rec\u00e9m-lan\u00e7ado <em>Entrelinhas<\/em>:<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>Agora vou dizer tudo o que penso,\/ tudo o que sinto,\/ tudo o que est\u00e1 engasgado\/ desde o princ\u00edpio.\/ Agora decidi seguir\/ as regras de Oscar Wilde.\u00a0 \/\/\u00a0 Nada! Nada vai deter meu grito. \/Fa\u00e7o quest\u00e3o de deix\u00e1-lo escrito,\/ e o medo de ser maldito\/ banido foi, sim, eternamente!<\/em> (p. 13)<\/p>\n<p>O livro \u00e9 dividido em quatro partes, tendo como refer\u00eancia os quatro elementos: \u00c1gua, Terra, Fogo, Ar. Ao longo da obra, a autora mostra o dom\u00ednio que tem da arte po\u00e9tica ao passear com desenvoltura por estilos diversos, como o soneto, a poesia concreta e at\u00e9 o haicai. O haicai, por sua concis\u00e3o, \u00e9, provavelmente, uma das formas po\u00e9ticas mais dif\u00edceis. O \u00fanico, por\u00e9m, publicado em Entrelinhas, \u00e9 de tal beleza que valeria por uma centena:<\/p>\n<p><em>Quis reter o azul\/ que no mundo inteiro h\u00e1:\/ vi teu olho nu.<\/em> (p. 17).<\/p>\n<p>Em <em>Fonte da poesia<\/em>, com muita criatividade vale-se\u00a0 da metalinguagem para construir o poema: <em>Com versos decass\u00edlabos prostrei\/ minha alma ao sabor dos teus caprichos.\/ Das rimas mais sublimes fiz a lei\/ para atender de pronto os teus feiti\u00e7os.\u00a0 \/\/\u00a0 Quarteto por quarteto arquitetei,\/ sonhando construir um belo ninho\/ pra te guardar do mundo. E constatei\/ que da poesia \u00e9s fonte, fim, caminho.\u00a0 \/\/\u00a0 Me perguntei pra que tanta escans\u00e3o,\/ se um sorriso teu cobre a can\u00e7\u00e3o,\/ e desisti de metro t\u00e3o severo\u00a0 \/\/\u00a0 Por outro que exalte este intento:\/ de ostentar sem medo o sentimento\/ que arde no meu estro mais sincero.<\/em> (p. 19).<\/p>\n<p>No belo poema <em>Lembran\u00e7as<\/em> percebe-se a evoca\u00e7\u00e3o do para\u00edso perdido da inf\u00e2ncia:<br \/>\n<em>E ali n\u00e3o tinha mais\/ o parque,\/ a roseira,\/ o p\u00e9 de algaroba.\/ Nem andorinhas em revoada,\/ nem viola em noite enluarada.\u00a0 \/\/\u00a0 A preta misteriosa\/ n\u00e3o tocava mais o sino.\/ A hora sagrada era sem hino.\u00a0 \/\/\u00a0 Cal\u00e7adas desertas\/ calavam hist\u00f3rias de Trancoso\/ ou de evento milagroso.\u00a0 \/\/\u00a0 O sil\u00eancio tomou a vez das cirandas,\/ das rodas de crian\u00e7as,\/ dos folguedos e das dan\u00e7as.\u00a0 \/\/ \u00c0 noite&#8230; n\u00e3o mais o alto-falante.\/ Cupido fugiu da pracinha,\/ arrenegou casais.\/ E o tempo roubou a rede quentinha\/ que embalava sonhos angelicais<\/em>. (p. 47).<\/p>\n<p>Ao tom buc\u00f3lico e nost\u00e1lgico desses versos, que remetem \u00e0 inf\u00e2ncia vivida em uma pequena cidade do interior encravada no sert\u00e3o caririense, contrap\u00f5em-se outros que, ao falar da cidade que acolheria a autora a partir do in\u00edcio da idade adulta, deixam transparecer um misto de admira\u00e7\u00e3o e desencanto. Essa outra cidade aparece como uma met\u00e1fora de todos n\u00f3s, adultos desencantados com o mundo e com a vida. Atente-se, a prop\u00f3sito, para a palavra final do poema:<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>Mira\/ do mirante\/ tua cidade,\/ Fortaleza. Que beleza:\u00a0 \/\/ tuas ruas\/ tuas praias\/ tuas pra\u00e7as\/ tuas dan\u00e7as\/ esperan\u00e7as&#8230;\u00a0 \/\/\u00a0 Mira\/ do mirante\/ tua cidade,\/ Fortaleza.\/ Que tristeza:\u00a0 \/\/\u00a0 teus asfaltos\/ teus assaltos\/ tuas vielas\/ tuas favelas\/ Ah! Destino&#8230;<\/em>\u00a0 (p. 57).<\/p>\n<p>Conforme o esbo\u00e7o biogr\u00e1fico em que se apresenta aos leitores, \u201cGoretti Moreira nasceu na cidade de Farias Brito-CE, quando a pracinha, que abrigava um pequeno parque e um enorme p\u00e9 de algaroba, ainda existia. Reside em Fortaleza-CE, desde 1980. \u00c9 servidora p\u00fablica, cr\u00ea na Sant\u00edssima Trindade e ama literatura. <em>Eros e Psique<\/em>, de Fernando Pessoa, \u00e9 seu poema preferido\u201d.<\/p>\n<p>O professor Ant\u00f4nio Brand\u00e3o de Mac\u00eado, com muita propriedade, abre com as seguintes palavras o texto que escreveu, \u00e0 guisa de <em>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/em>, para <em>Entrelinhas<\/em>: <em>\u201cOratur fit, poeta nascitur\u201d, diziam os antigos: \u201co orador se faz, mas o\u00a0 poeta j\u00e1 nasce feito\u201d<\/em>.\u00a0 Lembrei as palavras do professor quando li o poema <em>Sina<\/em>:<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9! Meus versos s\u00e3o forjados\/ num cadinho\/ onde minha alma\/ alquimicamente\/ se transmuta.\u00a0\u00a0 \/\/\u00a0 E as l\u00e1grimas lan\u00e7adas\/ no tecido\/ fertilizam,\/ generosamente,\/ sem ang\u00fastia.\u00a0 \/\/\u00a0 Minha sina est\u00e1\u00a0 tra\u00e7ada\/ pelas linhas\/ desta escrita\/ impiedosamente\/ absoluta.<\/em> (p. 31).<\/p>\n<p>Ao ler esse poema, tudo o que se pode almejar \u00e9 que Goretti responda generosa e prodigamente \u00e0 invej\u00e1vel sina que Deus lhe destinou: a de ser poeta, com isso proporcionando a todos os seus leitores o reencantamento do mundo, reencantamento este que somente os versos de uma poeta podem proporcionar.<\/p>\n<p>Ao expressar este desejo, n\u00e3o nos resta d\u00favida de que ela haver\u00e1 de realiz\u00e1-lo, pois, embora tenha aberto <em>Entrelinhas<\/em> com uma promessa, temos a mais absoluta certeza de que, em hip\u00f3tese alguma, a ter\u00e1 cumprido. Ao dizer que falaria tudo o que pensa e sente,\u00a0 Goretti, com a sutileza e perspic\u00e1cia pr\u00f3prias dos poetas, quis apenas atrair o leitor, sem que ele o percebesse, para os meandros das entrelinhas em que ela belamente tece seus poemas, deixando-o, por fim, com aquele gostinho de quero mais, afinal, poeta algum jamais dir\u00e1 tudo o que pensa ou sente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu quis fazer de minha vida um laborat\u00f3rio.<br \/>\nInventei (?) muitas f\u00f3rmulas.<br \/>\nExperimentei todas.<br \/>\nAlgumas foram bem-sucedidas.<br \/>\nDe outras, ressurgi como F\u00eanix.<br \/>\n&#8230;<br \/>\nUma certeza firmei:<br \/>\no que vale n\u00e3o \u00e9 o que est\u00e1 expl\u00edcito.<br \/>\nPara se ver claramente,<br \/>\n\u00e9 preciso tirar todos os \u00f3culos<br \/>\ne andar nas entrelinhas.<br \/>\nGoretti Moreira<br \/>\n[Moreira, Goretti. Entrelinhas. \u2013 Fortaleza: Premius, 2012, p. 101.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5022,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-5021","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5021","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5021"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5021\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5022"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5021"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5021"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5021"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}