{"id":5037,"date":"2012-07-18T10:21:42","date_gmt":"2012-07-18T13:21:42","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5037"},"modified":"2012-07-18T10:21:42","modified_gmt":"2012-07-18T13:21:42","slug":"as-sombras-de-onde-se-projetam-fachos-de-luz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/07\/18\/as-sombras-de-onde-se-projetam-fachos-de-luz\/","title":{"rendered":"As sombras de onde se projetam fachos de luz"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/as-sombras-de-onde-se-projetam-fachos-de-luz\/inventario-das-sombras\/\" rel=\"attachment wp-att-5041\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5041\" title=\"Invent\u00e1rio das sombras\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/07\/Invent\u00e1rio-das-sombras-135x150.jpg\" alt=\"\" width=\"135\" height=\"150\" \/><\/a>Desde que comecei a entrevistar escritores, h\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, sempre me impressionei com seu desamparo, com o abandono do homem massacrado pelas leituras que se aderem \u00e0 obra, e me interessei mais por essas zonas sombrias em que eles travam suas batalhas, pelas pequenas torturas impostas pelo mercado e pela cr\u00edtica, pelas exig\u00eancias da vaidade, pela loucura enfim que toma conta de um homem quando ele se posta diante do papel em branco, do que pelas imagens sofisticadas e cheias de <\/em>glamour<em> que a m\u00eddia constr\u00f3i a seu respeito. A julgar por essa imagem p\u00fablica, escritores s\u00e3o indiv\u00edduos de \u00e2nimo firme, sempre cheios de coisas a dizer, que vivem uma rotina espetacular, habitando um mundo restrito, dedicado ao transe, \u00e0s homenagens e \u00e0 aventura. Mas escrever inclui farta dose de entrega, de abandono, de devassamento, e imp\u00f5e um combate cont\u00ednuo contra o orgulho, o desespero e a solid\u00e3o, destino que faz dos escritores, quase sempre, seres suscet\u00edveis e irrequietos, que carregam sonhos al\u00e9m de suas for\u00e7as.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Jos\u00e9 Castello<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Castello, Jos\u00e9. Invent\u00e1rio das sombras<em>. \u2013 <\/em><\/strong><em>3\u00aa. ed. \u2013 Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 7.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>No ensaio que abre o livro <em>Invent\u00e1rio das Sombras<\/em>, do jornalista e escritor Jos\u00e9 Castello, afirma o autor: <em>Maio de 1976. Na reda\u00e7\u00e3o de O Globo, jornal para o qual colaboro, espalha-se a not\u00edcia de que Clarice Lispector decidiu nunca mais receber a imprensa. Um motivo suficiente para que me encomendem uma entrevista com a escritora. Jornalistas t\u00eam uma atra\u00e7\u00e3o sem limites por obst\u00e1culos; vivemos tentando superar barreiras, abrir portas, vencer resist\u00eancias, ultrapassar fronteiras. N\u00e3o \u00e9 esse o meu temperamento, mas \u00e9 o que a profiss\u00e3o me obriga a exercitar<\/em> (p. 20).<\/p>\n<p>A partir desse ensaio inicial, sobre a sempre enigm\u00e1tica e fascinante Clarice Lispector, o leitor tem acesso a quinze deliciosos ensaios em que Jos\u00e9 Castello penetra a intimidade de 13 escritores, um jornalista quase escritor e um esquizofr\u00eanico genial que fez da loucura arte.\u00a0 Ao nome de cada figura retratada no ensaio, o autor posp\u00f4s um subt\u00edtulo, que, em que pese a s\u00edntese, caracter\u00edstica pr\u00f3pria de um subt\u00edtutlo, j\u00e1 diz muito do personagem de quem vai se ocupar o texto. \u00a0S\u00e3o eles:<\/p>\n<p>Clarice Lispector \u2013 A senhora do vazio; Jo\u00e3o Ant\u00f4nio \u2013 A arte de ser Jo\u00e3o; Caio Fernando Abreu \u2013 O poeta negro; Alain Robbe-Grillet \u2013 Viagem ao castelo; Hilda Hilst \u2013 A maldi\u00e7\u00e3o de Potlatch; Manoel de Barros \u2013 Retrato perdido no p\u00e2ntano; Nelson Rodrigues \u2013 Tapuia e grego; Adolfo Bioy Casares \u2013 \u00c0 meia-luz; Raduan Nassar \u2013 Atr\u00e1s da m\u00e1scara; Ana Cristina Cesar \u2013 A deusa da Zona Sul; Jos\u00e9 Saramago \u2013 Na ilha dos vulc\u00f5es; Dalton Trevisan \u2013 O manto do vampiro; Jos\u00e9 Cardoso Pires \u2013 A morte branca; Jo\u00e3o Rath \u2013 O escritor que n\u00e3o escreveu; Arthur Bispo do Ros\u00e1rio \u2013 O mordomo do apocalipse.<\/p>\n<p>\u00c0 guisa de adendo, o autor inclui, ainda, uma lista de livros cujo leitura, segundo afirma, teve papel muito importante na realiza\u00e7\u00e3o do trabalho. O objetivo almejado por ele, ao redigir a obra, \u00e9 explicitado no seguinte trecho do Pr\u00f3logo:<\/p>\n<p><em>Meu interesse pela literatura aumentou quando descobri homens de carne e osso guardados dentro das narrativas e dos poemas que mais gosto de ler, experi\u00eancia que, mais tarde, encontrei expressa na senten\u00e7a de Emerson: \u201cTalento apenas n\u00e3o faz um escritor. Deve haver um homem por tr\u00e1s do livro.\u201d Sempre me interessei mais por esses homens e mulheres que est\u00e3o ocultos nos livros do que por aqueles sujeitos, resolvidos e \u00e0s vezes at\u00e9 um pouco rid\u00edculos, que pontificam na m\u00eddia em seu lugar. Atr\u00e1s daquelas p\u00e1ginas, h\u00e1 sempre um impulso irrevers\u00edvel, uma sina, talvez uma condena\u00e7\u00e3o, que \u00e9 na verdade o que leva um escritor a escrever<\/em> (p. 8).<\/p>\n<p>Li <em>Invent\u00e1rio das sombras<\/em> com o prazer costumeiro desfrutado por mim a cada novo contato com um livro de Jos\u00e9 Castello. Sua leitura me proporcionou exatamente isso: penetrar o lado obscuro e tr\u00e1gico que jaz l\u00e1 no \u00edntimo de todo escritor digno desse nome. Nesse aspecto, \u00e9 isso principalmente o que me faz amar um autor, pois assim posso senti-lo pr\u00f3ximo, humano, fal\u00edvel, limitado e, ainda assim e apesar disso, capaz de projetar das densas sombras que o habitam fachos da mais radiante luminosidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde que comecei a entrevistar escritores, h\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, sempre me impressionei com seu desamparo, com o abandono do homem massacrado pelas leituras que se aderem \u00e0 obra, e me interessei mais por essas zonas sombrias em que eles travam suas batalhas, pelas pequenas torturas impostas pelo mercado e pela cr\u00edtica, pelas exig\u00eancias da vaidade, pela loucura enfim que toma conta de um homem quando ele se posta diante do papel em branco, do que pelas imagens sofisticadas e cheias de glamour que a m\u00eddia constr\u00f3i a seu respeito. A julgar por essa imagem p\u00fablica, escritores s\u00e3o indiv\u00edduos de \u00e2nimo firme, sempre cheios de coisas a dizer, que vivem uma rotina espetacular, habitando um mundo restrito, dedicado ao transe, \u00e0s homenagens e \u00e0 aventura. Mas escrever inclui farta dose de entrega, de abandono, de devassamento, e imp\u00f5e um combate cont\u00ednuo contra o orgulho, o desespero e a solid\u00e3o, destino que faz dos escritores, quase sempre, seres suscet\u00edveis e irrequietos, que carregam sonhos al\u00e9m de suas for\u00e7as.<br \/>\nJos\u00e9 Castello<br \/>\n[Castello, Jos\u00e9. Invent\u00e1rio das sombras. \u2013 3\u00aa. ed. \u2013 Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 7.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5041,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-5037","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5037","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5037"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5037\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5037"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5037"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5037"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}