{"id":504,"date":"2009-08-19T06:21:09","date_gmt":"2009-08-19T11:21:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=504"},"modified":"2009-08-19T06:21:09","modified_gmt":"2009-08-19T11:21:09","slug":"o-enigma-frida-kahlo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/19\/o-enigma-frida-kahlo\/","title":{"rendered":"O enigma Frida Kahlo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000080\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-511\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/08\/frida-1.jpg\" alt=\"frida-1\" width=\"221\" height=\"318\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/08\/frida-1.jpg 221w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/08\/frida-1-120x173.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 221px) 100vw, 221px\" \/>Ler o di\u00e1rio de Frida Kahlo \u00e9 sem d\u00favida um ato de transgress\u00e3o, um empreendimento com not\u00e1vel toque de voyerismo. O di\u00e1rio \u00e9 uma express\u00e3o profundamente pessoal de seus sentimentos, e ela jamais o escreveu pensando em public\u00e1-lo. O di\u00e1rio de Kahlo pertence, desse modo, ao ramo do<\/em> di\u00e1rio \u00edntimo<em>, um registro pessoal que certa mulher escreveu s\u00f3 para si mesma.<\/em><\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Sarah M. Lowe<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[ Kahlo, Frida. O di\u00e1rio de Frida Kahlo: um auto-retrato \u00edntimo. Introdu\u00e7\u00e3o Carlos Fuentes; coment\u00e1rios Sarah M. Lowe; tradu\u00e7\u00e3o M\u00e1rio Pontes. &#8211; 2\u00aa. ed. &#8211; Rio de Janeiro: Jos\u00e9 Olympio, 1996, p. 25]<\/span><\/em><\/p>\n<p>O escritor mexicano Carlos Fuentes come\u00e7a a Introdu\u00e7\u00e3o que escreveu para o Di\u00e1rio de Frida Kahlo com as seguintes palavras: <em>Vi Frida Kahlo apenas uma vez. E antes, eu a ouvi. Eu estava em um concerto no Pal\u00e1cio das Belas-artes, no centro da Cidade do M\u00e9xico, um pr\u00e9dio iniciado em 1905, no governo do velho ditador Porfirio D\u00edaz, e bem de acordo com os gostos da elite mexicana na virada do s\u00e9culo<\/em>. Depois de descrever alguns detalhes do pr\u00e9dio que abrigava o teatro, prossegue Fuentes:<em> Menciono tudo isso s\u00f3 para dizer que quando Kahlo entrou em seu camarote no segundo n\u00edvel do teatro, toda aquela magnific\u00eancia e todas aquelas coisas que nos distra\u00edam como que desapareceram. O tilintar daquela suntuosidade de j\u00f3ias abafou os sons da orquestra, por\u00e9m algo mais do que um simples ru\u00eddo for\u00e7ou-nos a olhar para cima, e assim descobrir a figura que se anunciava com incr\u00edvel vibra\u00e7\u00e3o de ritmos met\u00e1licos, por\u00e9m distinguindo-se n\u00e3o s\u00f3 pelo ru\u00eddo das j\u00f3ias, mas igualmente pelo magnetismo do seu sil\u00eancio<\/em> (p. 7).<\/p>\n<p>Feita essa apresenta\u00e7\u00e3o inicial atrav\u00e9s da entrada triunfal no teatro, o escritor passa a recorrer a figuras m\u00edticas da tradi\u00e7\u00e3o mexicana para descrever Frida: <em>Foi a entrada de uma deusa asteca, talvez Coatlicue, a deusa m\u00e3e vestida com sua saia de serpentes, exibindo as m\u00e3os feridas e sangrentas do mesmo modo que as outras mulheres exibem um broche. Ou talvez fosse Tlazolteotl, a divindade da pureza e da impureza do pante\u00e3o ind\u00edgena, o abutre feminino que devora as sujeiras para manter o universo limpo. Ou, quem sabe, v\u00edamos a M\u00e3e Terra Espanhola, a Dama de Elche, enraizada no solo pelo peso do seu elmo de pedra, seus brincos t\u00e3o grandes quanto rodas de carros, os peitorais devorando-lhe os seios, os an\u00e9is transformando suas m\u00e3os em tenazes<\/em> (p. 7).<\/p>\n<p>Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calder\u00f3n nasceu no dia 6 de julho de 1907 em Coyoac\u00e1n, na Cidade do M\u00e9xico. Em 1914 sofre de poliomielite. Em 1922, na escola onde estuda, conhece Diego Rivera, que l\u00e1 estivera pintando um mural. Em 1925 estuda pintura com o pintor comercial Fernando Fern\u00e1ndez, amigo de seu pai. No mesmo ano, em 17 de setembro, ao retornar da escola sofre um acidente de tr\u00e2nsito no qual quebra a bacia e a coluna dorsal, al\u00e9m de graves ferimentos. Come\u00e7a a pintar durante a convalescen\u00e7a. Em 1929 se casa com Diego Rivera. O casamento durar\u00e1 cinco anos, ocorrendo a separa\u00e7\u00e3o em 1934. A rela\u00e7\u00e3o dos dois passar\u00e1 por v\u00e1rios reveses a partir de ent\u00e3o, numa sucess\u00e3o de reencontros e rompimentos. Tamb\u00e9m em 1934 Frida sofre um aborto, submetendo-se, ainda, a duas cirurgias: uma no p\u00e9 e outra para retirar o ap\u00eandice. Ao longo da vida, a pintora ser\u00e1 submetida a mais de 35 cirurgias, numa das quais teve amputada a perna direita. Faleceu no dia 13 de julho de 1954.<\/p>\n<p>Em 1944 a pintora Frida Kahlo, uma das maiores representantes da arte contempor\u00e2nea, iniciou um di\u00e1rio que continuaria pelos dez anos seguintes, at\u00e9 sua morte. Em 1996 a Jos\u00e9 Olympio Editora brindou o leitor brasileiro com uma edi\u00e7\u00e3o primorosa do Di\u00e1rio de Frida Kahlo, com capa dura recoberta por tecido, al\u00e9m de uma sobrecapa que reproduz duas pinturas da autora.\u00a0 A edi\u00e7\u00e3o apresenta, ainda, uma reprodu\u00e7\u00e3o fac-similar de todos os textos, pinturas e rabiscos que comp\u00f5em o di\u00e1rio original. Ao longo de suas p\u00e1ginas o leitor tem oportunidade de confrontar a enigm\u00e1tica figura da pintora mexicana. A edi\u00e7\u00e3o conta, ainda, com uma apresenta\u00e7\u00e3o do escritor Carlos Fuentes e coment\u00e1rios de Sarah M. Lowe, grande conhecedora da obra da pintora.<\/p>\n<p>Certa vez Frida Kahlo fez uma confiss\u00e3o que, a partir de ent\u00e3o, seria muitas vezes citada:<em> Jamais pintei sonhos. Pintei minha pr\u00f3pria realidade<\/em>\u00a0(p. 287). \u00c9 com essa realidade que o leitor do Di\u00e1rio se depara a cada p\u00e1gina, sendo-lhe sempre proposto um novo enigma nem sempre de f\u00e1cil decifra\u00e7\u00e3o. Numa das p\u00e1ginas, em torno de uma mancha que mistura o verde com o negro, escreve: <em>mundos cobertos de tinta &#8211; terra livre e minha. s\u00f3is distantes que me chamam porque fa\u00e7o parte de seus n\u00facleos. Tolices. O que eu poderia fazer sem o absurdo e o ef\u00eamero? 1953 h\u00e1 muitos anos compreendo o materialismo dial\u00e9tico<\/em> (p. 227).<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da primeira p\u00e1gina do Di\u00e1rio, comenta Sarah M. Lowe: <em>A primeira p\u00e1gina \u00e9 um prel\u00fadio ao di\u00e1rio e ao mundo surreal das p\u00e1ginas seguintes.<\/em> Pintado 1916<em>, Kahlo anuncia em vermelho viv\u00edssimo o ano em que ela fazia nove anos, uma mentira declarada com a qual proclama a sua falta de compromisso com os<\/em> fatos racionais<em>. Acentuando o sentimento de irrealidade, a esquisita colagem de Kahlo combina uma ilustra\u00e7\u00e3o sentimental &#8211; composta por uma coroa de flores, uma fita cor-de-rosa e um p\u00e1ssaro &#8211; e um estranho retrato fotogr\u00e1fico dela mesma, feito provavelmente pela sua amiga Lola Alvarez Bravo. O efeito \u00e9 dissonante e provocativo, mas trata-se de uma brincadeira pessoal, que o observador n\u00e3o \u00e9 autorizado a compreender inteiramente<\/em> (p. 202).<\/p>\n<p>Conclu\u00edda a leitura dos textos e a aprecia\u00e7\u00e3o das pinturas disseminadas ao longo do Di\u00e1rio, resta a inevit\u00e1vel conclus\u00e3o de que, por mais que tente, jamais algu\u00e9m conseguir\u00e1 desvendar em profundidade o enigma Frida Kahlo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ler o di\u00e1rio de Frida Kahlo \u00e9 sem d\u00favida um ato de transgress\u00e3o, um empreendimento com not\u00e1vel toque de voyerismo. 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