{"id":5072,"date":"2012-07-26T09:21:05","date_gmt":"2012-07-26T12:21:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5072"},"modified":"2012-07-26T09:21:05","modified_gmt":"2012-07-26T12:21:05","slug":"antecipando-freud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/07\/26\/antecipando-freud\/","title":{"rendered":"Antecipando Freud"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/antecipando-freud\/montaigne\/\" rel=\"attachment wp-att-5076\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5076\" title=\"montaigne\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/07\/montaigne-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Os que se dedicam \u00e0 cr\u00edtica das a\u00e7\u00f5es humanas jamais se sentem t\u00e3o embara\u00e7ados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que n\u00e3o parecem provir de um mesmo indiv\u00edduo.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Michel de Montaigne<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Montaigne. Ensaios<em>. <\/em><\/strong><em>\u2013 Tradu\u00e7\u00e3o, pref\u00e1cio e notas lingu\u00edsticas e interpretativas de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Ediouro, s\/d. &#8211;<\/em><strong><em> Livro Segundo, Cap\u00edtulo I, Da incoer\u00eancia de nossas a\u00e7\u00f5es, p. 285.]<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns dias minha amiga Rita de C\u00e1ssia Br\u00edgido Feitoza comentou comigo, muito entusiasmada, um livro sobre Montaigne que estava lendo. No dia seguinte tive oportunidade de ver o livro. Bastou dar uma r\u00e1pida folheada em suas p\u00e1ginas para que logo me decidisse a adquiri-lo. Daqui a alguns dias pretendo coment\u00e1-lo aqui, quando tiver conclu\u00eddo a leitura, que tem me proporcionado momentos de grande deleite.<\/p>\n<p>Uma dos primeiros resultados dessa leitura foi minha decis\u00e3o de retornar aos <em>Ensaios<\/em>, de autoria do pr\u00f3prio Montaigne. Em 1994 eu havia adquirido uma edi\u00e7\u00e3o completa, publicada pela Ediouro. Bastou-me a leitura aleat\u00f3ria de algumas p\u00e1ginas para logo me sentir tomado de amores pela obra e pelo autor, por v\u00e1rios motivos, n\u00e3o tendo sido o menor deles o fato de ter sido Montaigne o inventor desse g\u00eanero liter\u00e1rio, o ensaio, pelo qual tenho particular predile\u00e7\u00e3o, tanto como escritor quanto como leitor.<\/p>\n<p>Partindo da observa\u00e7\u00e3o de si mesmo, chegou o autor a maravilhosos <em>insights<\/em>, o que lhe permitiu, ao longo dos tr\u00eas livros que comp\u00f5em a edi\u00e7\u00e3o completa dos <em>Ensaios<\/em>, opinar sobre assuntos os mais diversos, numa miscel\u00e2nea que inclui desde temas de grande complexidade a alguns que poder\u00edamos dizer da mais absoluta trivialidade. Ressalve-se, por\u00e9m, que sob o olhar arguto de Montaigne, nada \u00e9 considerado trivial, pois ele consegue tirar grandes ensinamentos dos assuntos mais banais e corriqueiros do dia a dia.<\/p>\n<p>Em que pese a diversidade de assuntos, tenho especial apre\u00e7o por aqueles que permitem ao autor digredir sobre si mesmo e sobre o ser humanos de forma geral. \u00c9 nesses momentos que se percebe mais a arg\u00facia e o alcance dos seus escritos. Um exemplo disso \u00e9 o trecho citado em ep\u00edgrafe a este texto. Suas palavras nos fazem ver o quanto se mostrou percuciente no conhecimento da natureza humana, naquilo que, em ess\u00eancia, nos constitui a todos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, pode-se dizer que \u00a0Montaigne, com tr\u00eas s\u00e9culos de anteced\u00eancia, antecipou diversas premissas sobre as quais o mestre vienense, Sigmund Freud, construiria o arcabou\u00e7o te\u00f3rico da psican\u00e1lise. Em diversas ocasi\u00f5es me tem ocorrido, ante a leitura dos <em>Ensaios, <\/em>o pensamento: isso que aqui est\u00e1 escrito poderia perfeitamente ter emanado da pena freudiana.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, transcrevo, para concluir essa breve reflex\u00e3o, um trecho do mesmo texto citado acima, em que, freudianamente, Montaigne fala dos muitos que nos habitam:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequ\u00eancia da instabilidade da posi\u00e7\u00e3o em que esteja. Quem se examina de perto raramente se v\u00ea duas vezes no mesmo estado. Dou \u00e0 minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras \u00e9 porque me olho de diferentes modos. Todas as contradi\u00e7\u00f5es em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, s\u00e1bio, ignorante, liberal e avarento, e pr\u00f3digo, assim me vejo de acordo com cada mudan\u00e7a que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecer\u00e1 igualmente em si, e at\u00e9 em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discord\u00e2ncia. N\u00e3o posso aplicar a mim mesmo um ju\u00edzo completo, simples, s\u00f3lido, sem confus\u00e3o nem mistura, nem o exprimir com uma s\u00f3 palavra. \u201cDistingo\u201d \u00e9 o termo mais encontradi\u00e7o em meu racioc\u00ednio<\/em> (p. 286).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os que se dedicam \u00e0 cr\u00edtica das a\u00e7\u00f5es humanas jamais se sentem t\u00e3o embara\u00e7ados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que n\u00e3o parecem provir de um mesmo indiv\u00edduo.<br \/>\nMichel de Montaigne<br \/>\n[Montaigne. Ensaios. \u2013 Tradu\u00e7\u00e3o, pref\u00e1cio e notas lingu\u00edsticas e interpretativas de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Ediouro, s\/d. &#8211; Livro Segundo, Cap\u00edtulo I, Da incoer\u00eancia de nossas a\u00e7\u00f5es, p. 285.] <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5076,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"class_list":["post-5072","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-11-conversas-no-castelo-de-monsieur-montaigne"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5072","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5072"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5072\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5072"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5072"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5072"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}