{"id":5259,"date":"2012-11-14T06:21:08","date_gmt":"2012-11-14T09:21:08","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5259"},"modified":"2012-11-14T06:21:08","modified_gmt":"2012-11-14T09:21:08","slug":"uma-outra-espiritualidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/11\/14\/uma-outra-espiritualidade\/","title":{"rendered":"Uma outra espiritualidade"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/uma-outra-espiritualidade\/o-anticonformista\/\" rel=\"attachment wp-att-5260\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5260\" alt=\"\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/11\/O-Anticonformista-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/11\/O-Anticonformista-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/11\/O-Anticonformista-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2012\/11\/O-Anticonformista.jpg 292w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Assim temos, ent\u00e3o, na sabedoria dos antigos, as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es para uma vida humanamente aut\u00eantica: aceitar a morte e vencer os medos, ser capaz de habitar o presente e se tornar, com isso, um fragmento de eternidade. Temos a\u00ed uma bela defini\u00e7\u00e3o da vida boa, que n\u00e3o passa por Deus nem pela f\u00e9, e tamb\u00e9m n\u00e3o apaga a finitude humana. \u00c9 o que chamo espiritualidade leiga.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Luc Ferry<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Ferry, Luc. O anticonformista: uma autobiografia intelectual. Luc Ferry; entrevistas com Alexandra Laignel-Lavastine. &#8211; <\/strong><em>Tradu\u00e7\u00e3o Jorge Bastos. \u2013 Rio de Janeiro: DIFEL, 2012, p. 322.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas tive oportunidade de ler uma refer\u00eancia a um fil\u00f3sofo franc\u00eas que prop\u00f5e o que ele denomina <em>espiritualidade leiga<\/em>. O interesse que a ideia despertou em mim foi imediato. Resolvi me informar melhor. Descobri, para minha surpresa, que o Brasil est\u00e1 entre os pa\u00edses onde os livros deste autor s\u00e3o mais lidos. Com v\u00e1rios t\u00edtulos publicados por aqui, emplacou pelo menos dois nas listas de best sellers. Mais surpreso ainda fiquei quando recordei que tinha na minha estante um livro seu, adquirido no ano 2000, n\u00e3o o tendo, no entanto, lido ainda.<\/p>\n<p>Pesquisei os t\u00edtulos traduzidos no Brasil e resolvi que me iniciaria no autor pela leitura de <em>O anticonformista: uma autobiografia intelectual<\/em>. Como o livro se prop\u00f5e ser uma autobiografia intelectual, conclu\u00ed que seria esta a melhor forma de inicia\u00e7\u00e3o, uma vez que eu teria a oportunidade de conhecer tanto o conjunto do seu pensamento quanto o seu percurso intelectual. T\u00e3o logo iniciei a leitura, vi que tinha feito a escolha certa.<\/p>\n<p>Luc Ferry, nascido em 1951 em Paris, \u00e9 doutor em filosofia e concursado tanto em filosofia quanto em ci\u00eancia pol\u00edtica. Foi Ministro da Educa\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a entre 2002 e 2004. O livro aqui referido \u00e9 uma s\u00e9rie de entrevistas realizadas com ele por Alexandra Laignel-Lavastine, doutora em filosofia e ensa\u00edsta, especializada na hist\u00f3ria dos intelectuais.\u00a0 Dividido em 12 cap\u00edtulos, ao longo das entrevistas Luc Ferry repassa toda sua trajet\u00f3ria intelectual, desde os anos de col\u00e9gio at\u00e9 a atualidade.<\/p>\n<p>Para fundamentar a proposta de espiritualidade leiga, acima mencionada, o fil\u00f3sofo franc\u00eas ancora-se no que chama de \u201csagra\u00e7\u00e3o ou diviniza\u00e7\u00e3o do humano\u201d, conforme suas palavras:<\/p>\n<p><em>J\u00e1 foi dito, as transcend\u00eancias de antigamente, se n\u00e3o foram liquidadas, no m\u00ednimo amplamente se fragilizaram com a grande desconstru\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX, mas n\u00e3o para colocar em seu lugar o imanentismo radical, a recusa do sagrado, o cinismo ou o relativismo moral, como previa a desconstru\u00e7\u00e3o e a l\u00f3gica do mercado encorajava. Na verdade, n\u00f3s as substitu\u00edmos por novas formas de transcend\u00eancia, transcend\u00eancias que podemos chamar de <\/em>horizontais<em> e n\u00e3o mais verticais, pois est\u00e3o voltadas para o outro e enraizadas no humano, e n\u00e3o em entidades situadas acima das nossas cabe\u00e7as. S\u00e3o os dois tra\u00e7os t\u00edpicos do segundo humanismo: assenta-se numa concep\u00e7\u00e3o p\u00f3s-metaf\u00edsica da transcend\u00eancia, mas tamb\u00e9m numa transcend\u00eancia cujo objeto \u00e9 o ser humano como tal. \u00c9 o que, desde o fim dos anos 1990, chamo de \u201csagra\u00e7\u00e3o\u201d ou diviniza\u00e7\u00e3o do humano<\/em> (p. 328).<\/p>\n<p>Isso, por sua vez, remete ao conceito de sagrado, que, na proposta de Luc Ferry, n\u00e3o passa pelo sobrenatural, mas pelo exclusivamente humano, conforme explicita:<\/p>\n<p><em>Entendo por \u201csagrado\u201d aquilo pelo que, certo ou errado, nos dispomos a fazer sacrif\u00edcios ou at\u00e9 mesmo ir ao sacrif\u00edcio final. Em paralelo ao crescimento dos valores da intimidade, a Europa registrou uma incr\u00edvel eros\u00e3o das motiva\u00e7\u00f5es tradicionais para o sacrif\u00edcio \u2013 e aproveito para dizer que vejo nisso a melhor novidade do s\u00e9culo, ou at\u00e9 do mil\u00eanio! \u2013 mesmo que (infelizmente) tudo se passe de maneira bem diversa em outros lugares (penso no terrorismo ou no islamismo integrista). Com rela\u00e7\u00e3o ao outro, ao pr\u00f3ximo, aos nossos pr\u00f3ximos e aos nossos filhos, pelo contr\u00e1rio, n\u00f3s europeus certamente nos prontificar\u00edamos a certos riscos, at\u00e9 de morte, e, quanto mais amamos, mais a observa\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira. Quando falo de \u201csacralidade\u201d do ser humano, estou querendo dizer que ele passou a representar, para a maioria de n\u00f3s, o \u00fanico objeto pelo qual seja poss\u00edvel se sacrificar<\/em> (p. 329).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assim temos, ent\u00e3o, na sabedoria dos antigos, as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es para uma vida humanamente aut\u00eantica: aceitar a morte e vencer os medos, ser capaz de habitar o presente e se tornar, com isso, um fragmento de eternidade. Temos a\u00ed uma bela defini\u00e7\u00e3o da vida boa, que n\u00e3o passa por Deus nem pela f\u00e9, e tamb\u00e9m n\u00e3o apaga a finitude humana. \u00c9 o que chamo espiritualidade leiga.<br \/>\nLuc Ferry<br \/>\n[Ferry, Luc. O anticonformista: uma autobiografia intelectual. Luc Ferry; entrevistas com Alexandra Laignel-Lavastine; tradu\u00e7\u00e3o Jorge Bastos. \u2013 Rio de Janeiro: DIFEL, 2012, p. 322.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5260,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4,7],"tags":[],"class_list":["post-5259","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo","category-05-na-soleira-do-partenon"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5259\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5260"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}