{"id":5262,"date":"2012-11-16T11:32:12","date_gmt":"2012-11-16T14:32:12","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5262"},"modified":"2012-11-16T11:32:12","modified_gmt":"2012-11-16T14:32:12","slug":"flanando-e-garimpando-na-bienal-internacional-do-livro-do-ceara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2012\/11\/16\/flanando-e-garimpando-na-bienal-internacional-do-livro-do-ceara\/","title":{"rendered":"Flanando e garimpando na Bienal Internacional do livro do Cear\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>Flanando talvez n\u00e3o seja bem a palavra adequada para intitular este texto, mas, vamos l\u00e1, deixemos como est\u00e1. De qualquer forma, flanamos, apesar das vagas de gente que iam e vinham pelos apertados corredores \u2013 melhor dizendo, ruas, pois os corredores foram transformados nas ruas do centro de Fortaleza, indo dar, para quem se dispuser a trafegar por entre livros e autores, numa simp\u00e1tica Pra\u00e7a do Ferreira com coluna da hora e tudo.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel, por\u00e9m, uma vez tendo chegado \u00e0 pra\u00e7a, resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de sentar numa das mesas do Caf\u00e9 Java, onde se reuniam os talentosos e bem-humorados padeiros que, na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo dezenove, amassavam o p\u00e3o das letras que constituiria, no futuro, uma das gl\u00f3rias da literatura alencarina. N\u00e3o encontrando, entretanto, nenhuma mesa dispon\u00edvel, o jeito foi engolir em seco a decep\u00e7\u00e3o por n\u00e3o poder tomar ao menos um caf\u00e9 e seguir em frente.<\/p>\n<p>Logo adiante uma simp\u00e1tica senhora acenava, conclamando os transeuntes a assinarem o manifesto pela funda\u00e7\u00e3o do Museu da Imprensa do Cear\u00e1. Claro que atendemos prontamente ao convite. Uma curiosidade: sobre o balc\u00e3o, uma m\u00e1quina de datilografar olivetti, e, ao lado, um banquinho. Uma oportunidade para quem quisesse reviver os velhos tempos ou, como acontecia naquele exato momento, experimentar, pela primeira vez na vida, a emo\u00e7\u00e3o de datilografar algumas linhas.<\/p>\n<p>Bem acomodado no banquinho, um garoto de uns cinco ou seis anos, usando apenas os indicativos, pressionava, lentamente, as letras do teclado, que estalavam secas sobre a folha branca de papel fazendo brotar palavras instantaneamente.\u00a0 Talvez ele estivesse fazendo a curiosa descoberta de que, diferentemente do computador, em que se digita o texto para depois imprimir, ali as palavras eram registradas no papel simultaneamente \u00e0 digita\u00e7\u00e3o. Que novidade! Uma experi\u00eancia, certamente, para guardar na mem\u00f3ria pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Assinado o manifesto, era preciso seguir, n\u00e3o sem antes dar uma ligeira olhada nos livros expostos no estande. Livros que falavam, especialmente, de jornalismo. A pr\u00f3xima parada seria o estande do Armaz\u00e9m da Cultura. Quer\u00edamos adquirir um exemplar do livro do prof. Airton de Farias, Hist\u00f3ria do Cear\u00e1, o que de fato fizemos, com direito a aut\u00f3grafo e fotografia ao lado do autor.<\/p>\n<p>Mais adiante, uma emo\u00e7\u00e3o nos aguardava. Acontece que entramos no estande do Museu do Cear\u00e1. Foi grande a surpresa quando me deparei, entre os livros expostos, com\u00a0 \u201cO porteiro da religi\u00e3o: os escritos de Manezinho do Bispo\u201d, livro cuja organiza\u00e7\u00e3o e notas se devem a Geov\u00e1 Lemos Monteiro.<\/p>\n<p>Peguei um exemplar e, abrindo aleatoriamente, pude ler duas senten\u00e7as que fizeram-me contorcer de rir. A primeira, na p\u00e1gina 30, asseverava:\u00a0 \u201cTodo homem ou mulher vaidoso ou dosa que pode e n\u00e3o ama o seu pa\u00eds, eu s\u00f3 comparo com esses boc\u00f3rios comedores de banana com rapadura\u201d. Na segunda frase, igualmente hil\u00e1ria, escreve Manezinho do Bispo: \u201cO Passeio P\u00fablico \u00e9 um apraz\u00edvel lugar para quem vai ali com boas inten\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Desde que lera um texto do Manezinho do Bispo quando ainda fazia faculdade, em que ele conclu\u00eda com as palavras: \u201cPor essas e por outras tantas \u00e9 que sempre digo: quanto mais principalmente\u201d, nunca mais desisti da ideia de algum dia encontrar uma publica\u00e7\u00e3o que reunisse os seus maravilhosos escritos. \u00a0Finalmente eu tinha em m\u00e3os um exemplar com a <em>obra quase completa<\/em> do nosso singular poeta-porteiro, um verdadeiro festival de nonsense e jocosidade. Fiquei deveras emocionado e feliz com a aquisi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir daquele momento, j\u00e1 poder\u00edamos voltar pra casa. Eu estava bem munido com duas grandes obras a que me dedicar nos pr\u00f3ximos dias, ambas tratando de um mesmo tema muito querido: o nosso Cear\u00e1. No caso do professor Airton, a Hist\u00f3ria do estado contada por um dos nossos mais abalizados historiadores da atualidade; no outro, textos emanados da pena de uma figura extraordin\u00e1ria, curios\u00edssima, que involuntariamente passou a constituir a galeria de tipos populares da nossa terra, tipos esses que t\u00e3o bem expressam um certo jeito de ser muito nosso, que singularizam e, por isso mesmo, tornam \u00fanico o povo cearense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Flanando talvez n\u00e3o seja bem a palavra adequada para intitular este texto, mas, vamos l\u00e1, deixemos como est\u00e1. De qualquer forma, flanamos, apesar das vagas de gente que iam e vinham pelos apertados corredores \u2013 melhor dizendo, ruas, pois os corredores foram transformados nas ruas do centro de Fortaleza, indo dar, para quem se dispuser a trafegar por entre livros e autores, numa simp\u00e1tica Pra\u00e7a do Ferreira com coluna da hora e tudo.<br \/>\nImposs\u00edvel, por\u00e9m, uma vez tendo chegado \u00e0 pra\u00e7a, resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de sentar numa das mesas do Caf\u00e9 Java, onde se reuniam os talentosos e bem-humorados padeiros que, na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo dezenove, amassavam o p\u00e3o das letras que constituiria, no futuro, uma das gl\u00f3rias da literatura alencarina. N\u00e3o encontrando, entretanto, nenhuma mesa dispon\u00edvel, o jeito foi engolir em seco a decep\u00e7\u00e3o por n\u00e3o poder tomar ao menos um caf\u00e9 e seguir em frente.<br \/>\nLogo adiante uma simp\u00e1tica senhora acenava, conclamando os transeuntes a assinarem o manifesto pela funda\u00e7\u00e3o do Museu da Imprensa do Cear\u00e1. Claro que atendemos prontamente ao convite. Uma curiosidade: sobre o balc\u00e3o, uma m\u00e1quina de datilografar olivetti, e, ao lado, um banquinho. Uma oportunidade para quem quisesse reviver os velhos tempos ou, como acontecia naquele exato momento, experimentar, pela primeira vez na vida, a emo\u00e7\u00e3o de datilografar algumas linhas.<br \/>\nBem acomodado no banquinho, um garoto de uns cinco ou seis anos, usando apenas os indicativos, pressionava, lentamente, as letras do teclado, que estalavam secas sobre a folha branca de papel fazendo brotar palavras instantaneamente.  Talvez ele estivesse fazendo a curiosa descoberta de que, diferentemente do computador, em que se digita o texto para depois imprimir, ali as palavras eram registradas no papel simultaneamente \u00e0 digita\u00e7\u00e3o. Que novidade! Uma experi\u00eancia, certamente, para guardar na mem\u00f3ria pelo resto da vida.<br \/>\nAssinado o manifesto, era preciso seguir, n\u00e3o sem antes dar uma ligeira olhada nos livros expostos no estande. Livros que falavam, especialmente, de jornalismo. A pr\u00f3xima parada seria o estande do Armaz\u00e9m da Cultura. Quer\u00edamos adquirir um exemplar do livro do prof. Airton de Farias, Hist\u00f3ria do Cear\u00e1, o que de fato fizemos, com direito a aut\u00f3grafo e fotografia ao lado do autor.<br \/>\nMais adiante, uma emo\u00e7\u00e3o nos aguardava. Acontece que entramos no estande do Museu do Cear\u00e1. Foi grande a surpresa quando me deparei, entre os livros expostos, com  \u201cO porteiro da religi\u00e3o: os escritos de Manezinho do Bispo\u201d, livro cuja organiza\u00e7\u00e3o e notas se devem a Geov\u00e1 Lemos Monteiro.<br \/>\nPeguei um exemplar e, abrindo aleatoriamente, pude ler duas senten\u00e7as que fizeram-me contorcer de rir. A primeira, na p\u00e1gina 30, asseverava:  \u201cTodo homem ou mulher vaidoso ou dosa que pode e n\u00e3o ama o seu pa\u00eds, eu s\u00f3 comparo com esses boc\u00f3rios comedores de banana com rapadura\u201d. Na segunda frase, igualmente hil\u00e1ria, escreve Manezinho do Bispo: \u201cO Passeio P\u00fablico \u00e9 um apraz\u00edvel lugar para quem vai ali com boas inten\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\nDesde que lera um texto do Manezinho do Bispo quando ainda fazia faculdade, em que ele conclu\u00eda com as palavras: \u201cPor essas e por outras tantas \u00e9 que sempre digo: quanto mais principalmente\u201d, nunca mais desisti da ideia de algum dia encontrar uma publica\u00e7\u00e3o que reunisse os seus maravilhosos escritos.  Finalmente eu tinha em m\u00e3os um exemplar com a obra quase completa do nosso singular poeta-porteiro, um verdadeiro festival de nonsense e jocosidade. Fiquei deveras emocionado e feliz com a aquisi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA partir daquele momento, j\u00e1 poder\u00edamos voltar pra casa. Eu estava bem munido com duas grandes obras a que me dedicar nos pr\u00f3ximos dias, ambas tratando de um mesmo tema muito querido: o nosso Cear\u00e1. No caso do professor Airton, a Hist\u00f3ria do estado contada por um dos nossos mais abalizados historiadores da atualidade; no outro, textos emanados da pena de uma figura extraordin\u00e1ria, curios\u00edssima, que involuntariamente passou a constituir a galeria de tipos populares da nossa terra, tipos esses que t\u00e3o bem expressam um certo jeito de ser muito nosso, que singularizam e, por isso mesmo, tornam \u00fanico o povo cearense.  <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[28],"tags":[],"class_list":["post-5262","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-25-loucura-mansa"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5262","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5262\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}