{"id":5297,"date":"2013-03-22T22:30:50","date_gmt":"2013-03-23T01:30:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5297"},"modified":"2013-03-22T22:30:50","modified_gmt":"2013-03-23T01:30:50","slug":"a-interface-e-o-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2013\/03\/22\/a-interface-e-o-sagrado\/","title":{"rendered":"A interface e o sagrado"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\">Quando pensamos sobre o fosso entre a informa\u00e7\u00e3o bruta e sua vida num\u00eanica na tela \u2013 algo que tento evitar, porque \u00e9 uma reflex\u00e3o sombria e dif\u00edcil, bastante parecida com a contempla\u00e7\u00e3o da idade do universo -, toda a sensa\u00e7\u00e3o tem um qu\u00ea estranhamente religioso, como quando a mente busca uma met\u00e1fora vibrante (e conveniente) para a verdade maior que jaz al\u00e9m. As catedrais, lembremos, eram \u201cinfinidade imaginada\u201d, o c\u00e9u transposto para a escala humana. A mente medieval n\u00e3o era capaz de apreender a plena infinidade do sagrado, mas podia subjugar a si mesma diante dos campan\u00e1rios majest\u00e1ticos de Chartres ou Saint-Sulpice. A interface oferece uma vis\u00e3o de esguelha compar\u00e1vel da infosfera, um ato de semi-revela\u00e7\u00e3o e semi-ocultamento. Ela torna a informa\u00e7\u00e3o assimil\u00e1vel por n\u00f3s ao encobrir a maior parte dela \u2013 pela simples raz\u00e3o de que \u201ca maior parte dela\u201d \u00e9 multitudin\u00e1ria demais para ser imaginada num \u00fanico pensamento.<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\">[<strong>Johnson, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o, Maria Lu\u00edsa X. de A. Borges; revis\u00e3o t\u00e9cnica, Paulo Vaz. \u2013 Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 172.]<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Parece que o sagrado nos ronda sempre, quer queiramos, quer n\u00e3o, mesmo que apenas como met\u00e1fora. \u00c9 o que fica patente no belo texto com que Steven Johnson conclui seu livro <i>Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar<\/i>. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">O autor, considerado um dos mais influentes pensadores do ciberesba\u00e7o, ao refletir sobre a interface, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica entre essa e as religi\u00f5es. Na perspectiva de Steven, assim como as religi\u00f5es atuam como mediadoras entre o humano e o sagrado, da mesma forma a interface faz as vezes de mediadora entre n\u00f3s e os \u00edcones vis\u00edveis no desktop. Afirma ele: <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\"><i>A experi\u00eancia do divino geralmente envolve algum tipo de media\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque a maioria dos seres humanos aceita a ideia de que um encontro direto poderia fazer alguns fus\u00edveis voarem pelos ares. (H\u00e1 uma cl\u00e1usula de capacidade de carga limitada inscrita na maioria dos textos sagrados, por boas raz\u00f5es.) \u00c9 a\u00ed que a interface moderna entra em t\u00e3o poderosa resson\u00e2ncia com os costumes e a pompa da f\u00e9 organizada. Ambos s\u00e3o sistemas imagin\u00e1rios fundados num mundo governado por for\u00e7as invis\u00edveis, que s\u00f3 se tornam sens\u00edveis atrav\u00e9s dos \u00edcones luminosos e dos rituais da f\u00e9. Os designers de interface falam da \u201cilus\u00e3o do usu\u00e1rio\u201d, mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma forte medida de \u201csuspens\u00e3o da cren\u00e7a\u201d no desktop contempor\u00e2neo \u2013 a qual, se cancelamos as negativas, nos deixam com a antiquada cren\u00e7a. Provavelmente \u00e9 assim que deveria ser<\/i> (p. 174).\u00a0 <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Ao pensar na met\u00e1fora proposta por Steven Johson, n\u00e3o pude me furtar a uma sensa\u00e7\u00e3o de embevecimento, ao constatar como duas realidades aparentemente t\u00e3o distantes e t\u00e3o diferentes podem se tocar, ou seja, a religi\u00e3o e a cibern\u00e9tica. A primeira, tendo como fundamento o sagrado; a segunda, ancorada na interface. Entre as duas, um pensador e escritor extremamente criativo, a ponto de encontrar pontos de contato entre uma das cria\u00e7\u00f5es mais arcaicas da mente humana, a religi\u00e3o, e uma das inven\u00e7\u00f5es mais sofisticadas, o computador. \u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Calibri\"><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\">Na compara\u00e7\u00e3o proposta em Cultura da interface, o homem que pela primeira vez na hist\u00f3ria da humanidade, tocado pela grandiosidade de um universo \u00a0ainda inintelig\u00edvel, houve por bem reverenciar as for\u00e7as desconhecidas e superiores da natureza, conferindo-lhes uma dimens\u00e3o de sacralidade, \u00a0encontra o homem do s\u00e9culo XXI, que em busca de superar tempo e espa\u00e7o, foi capaz de projetar m\u00e1quinas t\u00e3o complexas quanto o computador. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Por mais evolu\u00eddos que nos julguemos, somos todos, n\u00e3o h\u00e1 como negar, almas muito antigas, em quem um qu\u00ea de anseio pelo sagrado e pelo transcendente acaba se esgueirando e se fazendo notar, mesmo que metaforizado na mais sofisticada interface. \u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando pensamos sobre o fosso entre a informa\u00e7\u00e3o bruta e sua vida num\u00eanica na tela \u2013 algo que tento evitar, porque \u00e9 uma reflex\u00e3o sombria e dif\u00edcil, bastante parecida com a contempla\u00e7\u00e3o da idade do universo -, toda a sensa\u00e7\u00e3o tem um qu\u00ea estranhamente religioso, como quando a mente busca uma met\u00e1fora vibrante (e conveniente) para a verdade maior que jaz al\u00e9m. As catedrais, lembremos, eram \u201cinfinidade imaginada\u201d, o c\u00e9u transposto para a escala humana. A mente medieval n\u00e3o era capaz de apreender a plena infinidade do sagrado, mas podia subjugar a si mesma diante dos campan\u00e1rios majest\u00e1ticos de Chartres ou Saint-Sulpice. A interface oferece uma vis\u00e3o de esguelha compar\u00e1vel da infosfera, um ato de semi-revela\u00e7\u00e3o e semi-ocultamento. Ela torna a informa\u00e7\u00e3o assimil\u00e1vel por n\u00f3s ao encobrir a maior parte dela \u2013 pela simples raz\u00e3o de que \u201ca maior parte dela\u201d \u00e9 multitudin\u00e1ria demais para ser imaginada num \u00fanico pensamento.<br \/>\n[Johnson, Steven. Cultura da interface: como o computador transforma nossa maneira de criar e comunicar. Tradu\u00e7\u00e3o, Maria Lu\u00edsa X. de A. 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