{"id":5301,"date":"2013-04-05T23:15:33","date_gmt":"2013-04-06T02:15:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5301"},"modified":"2013-04-05T23:15:33","modified_gmt":"2013-04-06T02:15:33","slug":"palavras-de-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2013\/04\/05\/palavras-de-fogo\/","title":{"rendered":"Palavras de fogo"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\"><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/04\/Fogo-Ana\u00efs-Nin.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5305\" alt=\"Fogo, Ana\u00efs Nin\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/04\/Fogo-Ana\u00efs-Nin-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/04\/Fogo-Ana\u00efs-Nin-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/04\/Fogo-Ana\u00efs-Nin-120x120.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/04\/Fogo-Ana\u00efs-Nin.jpg 200w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Vivo em uma esp\u00e9cie de fornalha de afetos, amores, desejos, inven\u00e7\u00f5es, cria\u00e7\u00f5es e del\u00edrios. Sou incapaz de descrever minha vida por meio de fatos porque o \u00eaxtase n\u00e3o est\u00e1 nos fatos \u2013 no que acontece ou no que fa\u00e7o -, mas no sentimento que desperta em mim e no que se cria a partir de tudo isso&#8230; Quer dizer, eu vivo ao mesmo tempo em uma realidade f\u00edsica e metaf\u00edsica&#8230;<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\">[<\/span><\/span><\/em><strong><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\">Nin, Ana\u00efs. Fogo: de um di\u00e1rio amoroso: o di\u00e1rio completo de Anais N\u00efn, 1934-1937<\/span><\/span><\/strong><em><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"font-family: Calibri\"> \/ Anais N\u00efn; com introdu\u00e7\u00e3o de Rupert Pole e notas biogr\u00e1ficas e anota\u00e7\u00f5es de Gunther Stuhlmann; tradu\u00e7\u00e3o de Guilkherme da Silva Braga. \u2013 Porto Alegre, RS: L&amp;PM, 2011. Citado por Rupert Pole na Introdu\u00e7\u00e3o, p. 9.]<\/span><\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Ela escreveu cr\u00edticas, ensaios, fic\u00e7\u00e3o e di\u00e1rios, magn\u00edficos di\u00e1rios que, no final da vida, atingiram a soma de dezenas de volumes. Maravilhosos e incendi\u00e1rios di\u00e1rios como o que tenho em m\u00e3os e do qual extraio alguns trechos para este texto. Refiro-me a Ana\u00efs Nin, nascida em Neuilly, arredores de Paris, em 21 de fevereiro de 1903 e falecida em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 14 de janeiro de 1977.\u00a0 <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">O volume que estou lendo cobre os anos 1934 a 1937. Na p\u00e1gina 15, escreve:<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\"><em>Caf\u00e9 da manh\u00e3 no restaurante mal-iluminado do hotel. Dou a ele um resumo das principais not\u00edcias do dia. Ou melhor, fa\u00e7o justaposi\u00e7\u00f5es engra\u00e7adas, recorto frases e arranjo-as de modo inusitado. O efeito \u00e9 hilariante. Passo as not\u00edcias por baixo de sua porta enquanto ele examina um paciente. Assim que o paciente vai embora, ele l\u00ea. E vem para o meu quarto, rindo<\/em> (p. 15). <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">O ele a quem se refere a autora \u00e9 ningu\u00e9m menos que Otto Rank, um dos psicanalista que fizeram parte do grupo que conviveu diretamente com Freud. Mais adiante, ao falar de Hugh Guiler, o banqueiro com quem se casou em 1923, e Henry Miller, seu amigo e amante da vida inteira, diz:<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\"><em>O cerne da minha vida \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica e profunda que sou incapaz de enfrentar. N\u00e3o posso abandonar Hugh. N\u00e3o posso magoar Henry. N\u00e3o posso magoar Huck. Perten\u00e7o a todos eles\u201d (p. 23). <\/em>E completa, mais adiante<em>: La\u00e7os perenes. La\u00e7os inquebrant\u00e1veis. S\u00f3 consigo acrescentar, expandir. Dissolver, afastar, \u00e9 imposs\u00edvel<\/em> (p. 24). <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Sentir-se una, para ela, era quase uma impossibilidade: <em>Desejo a unidade, mas sou incapaz de atingi-la. Interpreto mil pap\u00e9is<\/em> (p. 39). Resta-lhe, pois, a inevit\u00e1vel conclus\u00e3o:\u00a0 <em>Ser eu mesma\u00a0 \u00e9 isso, \u00e9 estar dividida. E n\u00e3o se pode estar dividido sem trag\u00e9dia<\/em> (p. 38). \u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Viver implicava aceitar a vertigem de um infind\u00e1vel estado de \u00eaxtase e embriaguez: <em>A verdade \u00e9 que sinto um \u00eaxtase profundo, uma embriaguez interior permanente<\/em> (p. 42). <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Uma mulher, enfim, que trazia em si um vulc\u00e3o, n\u00e3o dir\u00edamos pronto para entrar em erup\u00e7\u00e3o, mas, na verdade, em erup\u00e7\u00e3o constante, vomitando lava por todos os lados:<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\"><em>Deslizando como uma enguia pelos obst\u00e1culos. Mas eu dou vida. Raras vezes tive a morte nas m\u00e3os. Ainda assim, sou capaz de destruir. Vida. Fogo. Estando em chamas, incendeio os outros. Nunca a morte. Fogo e vida. Le jeu. [<\/em>O jogo. Em franc\u00eas, no original] (p. 459).<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium\"><span style=\"color: #000000\"><span style=\"font-family: Calibri\">Ler os Di\u00e1rios de Ana\u00efs Nin \u00e9 uma oportunidade para sentir um pouco as chamas que evolam das p\u00e1ginas que relatam a intimidade de uma mulher que levou \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias essa experi\u00eancia \u00a0vertiginosa a que chamamos vida. \u00a0\u00a0<\/span><\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivo em uma esp\u00e9cie de fornalha de afetos, amores, desejos, inven\u00e7\u00f5es, cria\u00e7\u00f5es e del\u00edrios. 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