{"id":5342,"date":"2013-08-22T23:03:57","date_gmt":"2013-08-23T02:03:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5342"},"modified":"2013-08-22T23:03:57","modified_gmt":"2013-08-23T02:03:57","slug":"5342","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2013\/08\/22\/5342\/","title":{"rendered":"A B\u00edblia segundo Luiz Paulo Horta"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em><a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/08\/f6696a66-fdfe-4d8f-ab7c-1d3e8a219d30.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5343\" alt=\"capa A Bi?blia FINAL:Layout 1\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/08\/f6696a66-fdfe-4d8f-ab7c-1d3e8a219d30-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Mas o que \u00e9 que faz a B\u00edblia ser o que ela \u00e9? O fato de, tanto quanto essa presen\u00e7a humana, sentirmos a manifesta\u00e7\u00e3o, aqui e ali, de um sopro que \u00e9 o que, \u00e0 falta de melhor termo, chamamos de inspira\u00e7\u00e3o (etimologicamente, \u201ca entrada do ar nos pulm\u00f5es\u201d). O narrador b\u00edblico est\u00e1 l\u00e1 \u2013 uns com mais talento que outros \u2013 cumprindo a sua voca\u00e7\u00e3o; e, de repente, \u00e9 como se o ch\u00e3o lhe fugisse debaixo dos p\u00e9s e ele come\u00e7asse a voar.<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Horta, Luiz Paulo. A B\u00edblia: um di\u00e1rio de leitura<\/strong>. \u2013 Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 12.]<\/span><\/p>\n<p>Tenho lido um livro apaixonante: \u201cA B\u00edblia: um di\u00e1rio de leitura\u201d. Devo sua indica\u00e7\u00e3o a uma grande amiga, Dulce Freire, com quem partilho a paix\u00e3o pela leitura. O autor \u00e9 novo para mim, Luiz Carlos Horta. Uma pena que somente agora eu lhe tenha sido apresentado. Uma semana depois de Dulce me ter falado do seu livro, exatamente na manh\u00e3 do meu anivers\u00e1rio, 3 de agosto, fui surpreendido com a not\u00edcia de seu falecimento. Ele, que j\u00e1 era imortal por pertencer \u00e0 Academia Brasileira de Letras, ganhava naquela manh\u00e3 a imortalidade maior, ao ser chamado para partilhar o grande banquete na morada do Pai, esse Pai a Quem ele tanto amou em vida e do qual falou muitas vezes.<\/p>\n<p>\u201cA B\u00edblia: um di\u00e1rio de leitura\u201d \u00e9 fruto, como informa o pr\u00f3prio autor na Apresenta\u00e7\u00e3o, de um grupo de leitura da B\u00edblia que se reunia em Botafogo, no Rio de Janeiro, em meados dos anos 90. Ao longo dos 37 cap\u00edtulos que comp\u00f5em o livro, Luiz Paulo Horta comenta com leveza e sensibilidade diversos livros e fatos do Antigo e do Novo Testamento.<\/p>\n<p>Escrevendo sobre o Eclesi\u00e1stico, um dos mais belos livros do Antigo Testamento, afirma:\u00a0\u00a0\u201cO Eclesi\u00e1stico tem um tom filos\u00f3fico, mas n\u00e3o se pode dizer que seja filosofia no sentido corrente; porque a primeira coisa que procura deixar clara \u00e9 que a sabedoria vem de Deus, n\u00e3o \u00e9 obra humana\u201d (p. 171).<\/p>\n<p>No cap\u00edtulo sobre Maria, ao se referir \u00e0 \u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal, presente no G\u00eanesis, indaga: \u201cA \u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal \u2013 o que isso pode significar?\u201d, respondendo, a seguir: \u201cEntre outras coisas, a multiplicidade, o mundo como n\u00f3s o vemos prosaicamente, onde o bem e o mal andam misturados \u2013 e misturados de tal forma que uma confusa tristeza prejudica, ou impede, a vis\u00e3o do bem\u201d (p. 196). Achei muito curiosa a express\u00e3o \u201cconfusa tristeza\u201d, \u00e0 qual credita o autor o impedimento \u00e0 vis\u00e3o do bem.<\/p>\n<p>Devido ao meu interesse especial pelo controvertido C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, gostei imensamente da abordagem dispensada a este livro, no cap\u00edtulo intitulado \u201cErotismo na B\u00edblia\u201d. Depois de comentar algumas diferentes abordagens a que o texto tem sido submetido, prop\u00f5e uma leitura que n\u00e3o separe tanto o sens\u00edvel do suprassens\u00edvel:<\/p>\n<p>\u201cNessa vis\u00e3o mais \u00b4moderna`\u201d, &#8211; escreve o autor \u2013 \u201cn\u00e3o precisar\u00edamos esvaziar o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos da sua carga er\u00f3tica. O erotismo n\u00e3o faz parte da nossa natureza? O ruim, como acontece agora, \u00e9 congelar o erotismo num determinado plano. Nesse fechamento, ele se torna suicida \u2013 o sexo matando ou sufocando o amor\u201d (p. 142). E completa: \u201cMas se preservarmos a possibilidade da transposi\u00e7\u00e3o, as portas se abrem; o f\u00edsico serve de maravilhosa introdu\u00e7\u00e3o a um outro plano; a liga\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos amantes remete ao encontro das almas\u201d (p. 142).<\/p>\n<p>Luiz Paulo Horta foi jornalista, escritor. Tinha tr\u00eas grandes paix\u00f5es: o jornalismo, a m\u00fasica e a religi\u00e3o. Presidia o Centro Dom Vital, n\u00facleo de pensamento cat\u00f3lico. Dentre outros livros, publicou \u201cM\u00fasica cl\u00e1ssica em CD: Guia para uma discoteca b\u00e1sica\u201d (1997) e \u201cA m\u00fasica das esferas: Cr\u00f4nicas dos anos 90\u201d (1999).<\/p>\n<p>No inspirado discurso proferido por ocasi\u00e3o de sua posse na Academia Brasileira de Letras, em novembro de 2008, tra\u00e7ou um paralelo entre a obra Machado de Assis, primeiro ocupante da cadeira 23, que ele passava a ocupar, e o Eclesiastes. \u00a0\u00a0Ap\u00f3s afirmar que \u201cMachado foi um leitor ass\u00edduo do Eclesiastes, que ocupa, na B\u00edblia, o lugar reservado \u00e0 chamada literatura sapiencial\u201d, cita diversos trechos do aludido livro, indagando, a seguir: \u201cCom um pouco de esfor\u00e7o, n\u00e3o poderiam ser passagens machadianas? Ou essa impress\u00e3o vem do fato de que Machado de fato impregnou-se dessa sabedoria antiga?\u201d (<a href=\"http:\/\/www.academia.org.br\/abl\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=8480&amp;sid=616\">http:\/\/www.academia.org.br\/abl\/cgi\/cgilua.exe\/sys\/start.htm?infoid=8480&amp;sid=616<\/a>)<\/p>\n<p>Luiz Paulo Horta tem uma senten\u00e7a que tomei como divisa e da qual procuro lembrar cada vez que o des\u00e2nimo se interp\u00f5e entre mim e o meu desejo de escrever : \u201cEscrever \u00e9 um ato de amor\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas o que \u00e9 que faz a B\u00edblia ser o que ela \u00e9? O fato de, tanto quanto essa presen\u00e7a humana, sentirmos a manifesta\u00e7\u00e3o, aqui e ali, de um sopro que \u00e9 o que, \u00e0 falta de melhor termo, chamamos de inspira\u00e7\u00e3o (etimologicamente, \u201ca entrada do ar nos pulm\u00f5es\u201d). O narrador b\u00edblico est\u00e1 l\u00e1 \u2013 uns com mais talento que outros \u2013 cumprindo a sua voca\u00e7\u00e3o; e, de repente, \u00e9 como se o ch\u00e3o lhe fugisse debaixo dos p\u00e9s e ele come\u00e7asse a voar.<br \/>\n[Horta, Luiz Paulo. A B\u00edblia: um di\u00e1rio de leitura. \u2013 Rio de Janeiro: Zahar, 2011, p. 12.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-5342","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-31-o-livro-dos-livros"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5342"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5342\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}