{"id":5353,"date":"2013-09-18T11:38:24","date_gmt":"2013-09-18T14:38:24","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5353"},"modified":"2013-09-18T11:38:24","modified_gmt":"2013-09-18T14:38:24","slug":"retratando-a-vida-em-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2013\/09\/18\/retratando-a-vida-em-poesia\/","title":{"rendered":"Retratando a vida em poesia"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #800080\"><em><br \/>\n<a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/09\/Depois-do-sol-poesia1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5355\" alt=\"Depois do sol poesia\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2013\/09\/Depois-do-sol-poesia1-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Pedes que eu escreva<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>o que n\u00e3o sinto.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Mas n\u00e3o posso, amigo.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>N\u00e3o minto.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Pela caneta transborda<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>o meu ser,<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>se esvai minha alma<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>e eu voo pela imagina\u00e7\u00e3o<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>nos campos do desejo.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>N\u00e3o posso amigo,<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>n\u00e3o v\u00eas,<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>que o que me inspira<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>a vida est\u00e1 aqui&#8230;<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Entre uma letra e outra<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>\u00e9 que eu vivo a vida.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>Irene Madeiro<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[<\/em><strong>Madeiro, Irene. Depois do sol: poesia<em>. \u2013 Fortaleza, Premius, 2012. Poesia: A vida me inspira, p. 257.]<\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada mais cruel e doloroso para uma pessoa do que sentir-se estranho no mundo. A sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento \u00e9 sempre dilacerante. Para conviver com ela, os que a sentem mais intensamente desenvolvem diferentes estrat\u00e9gias, dentre as quais se pode elencar a busca de para\u00edsos artificiais, como a droga, ou, n\u00e3o menos tr\u00e1gica, a fuga para a loucura. H\u00e1 outras, por\u00e9m, mais vi\u00e1veis, como a arte, por exemplo, dentre as quais se insere a poesia. Quando a transfigura\u00e7\u00e3o da estranheza em poesia obt\u00e9m \u00a0sucesso, uma poetisa pode escrever com propriedade versos do quilate dos que se encontram na poesia que citei acima, em ep\u00edgrafe a este texto: \u201cPela caneta transborda o meu ser\u201d e \u201cEntre uma letra e outra \u00e9 que eu vivo a vida\u201d.<\/p>\n<p>O poeta \u00e9 algu\u00e9m que sente e vive, com toda pujan\u00e7a, a estranheza do ser e do mundo. Esse estranhamento &#8211; creio que n\u00e3o incorro em equ\u00edvoco ao afirm\u00e1-lo-, \u00e9 uma das pedras angulares das duzentos e quarenta poesias publicadas no livro \u201cDepois do sol: poesia\u201d de Irene Madeiro. \u00a0A sensa\u00e7\u00e3o que se tem \u00e9 que a autora nunca est\u00e1 onde parece estar. \u00c9 como se o que ela \u00e9 e sente ser n\u00e3o coubesse em si mesma: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio \/ amar o estar aqui? \/ Eu acho que sim, \/ mas por mais que eu tente, \/ aqui n\u00e3o faz parte de mim\u201d (Ser e estar, p. 69). Transparece a\u00ed a \u00e2nsia por um devir: \u201cSer, estar e vir a ser e estar\u201d (idem,), devir esse que \u00e9 tamb\u00e9m um alhures, sempre almejado mas nunca alcan\u00e7ado: \u201cAi de mim que sinto falta, \/ tanta falta de um lugar \/ que n\u00e3o sei onde fica\u201d (Asas, p. 72). Em se tratando de uma poetisa, entretanto, n\u00e3o poderia ser diferente, posto que sua ess\u00eancia seja, exatamente, o transbordamento que somente o infinito abarca: \u201cDentro de mim, \/ h\u00e1 um infinito finito, \/ h\u00e1 um firmamento \/ que apenas a pele \/ separa do resto\u201d (Luz, p. 73).<\/p>\n<p>N\u00e3o cabendo, pois, na realidade, resta-lhe transfigur\u00e1-la, subvertendo-lhe o sentido: \u201cMas acordada \/ \u00e9 que sonho\u201d (Cruel, p. 90). Nesse sonhar acordada, a poesia desponta como forma privilegiada de acesso ao sentido: \u201cA poesia que eu n\u00e3o fa\u00e7o \/ me deixa sem sentido, \/ sem sentimento e oca\u201d (A poesia, p. 33). Prenhe de versos, a autora toca um estado que dir\u00edamos quase uma epifania: \u201cEu me enchi de poesia \/ e o meu corpo inchou de emo\u00e7\u00e3o \/ Meu cora\u00e7\u00e3o, que bate desritmado, \/ como um tambor, bateu forte e compassado. \/ Minha vida que era fraca, \/ meu caminho que era treva \/ meu sonho que era triste: \/ nenhum deles resiste\/ \u00e0 luz, \u00e0 for\u00e7a, \u00e0 ta\u00e7a \/ cheia de vinho \/ de calor e cor \/ da poesia\u201d (Poesia I, p. 133).<\/p>\n<p>Paradoxalmente, por\u00e9m, a verdadeira palavra, o verso essencial, subsiste apenas no horizonte das possibilidades, o que leva Irene Madeiro a escrever, quase como um lamento: \u201cA poesia mais bonita \/ que eu fiz e que eu fa\u00e7o \/ est\u00e1 no espa\u00e7o, \/ no rega\u00e7o do meu esp\u00edrito, \/ jamais povoar\u00e1 com letras \/ os pap\u00e9is em branco\u201d (A mais bonita, p. 200). Talvez tenha que ser assim, pois, afinal, como afirma com lucidez em outro poema, \u201cDa vida a poesia \u00e9 apenas \/ um retrato\u201d (Poesia, retrato da vida, p. 255).<\/p>\n<p>Irene Madeiro nasceu em Quixeramobim-CE, em 21 de dezembro de 1975. Cursou a Faculdade de Letras\/Espanhol na Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC) e \u00e9 funcion\u00e1ria p\u00fablica do Tribunal Regional Eleitoral do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Concluo este breve texto almejando \u00e0 Irene Madeiro que ela continue pujante de versos, brindando seus leitores com outras tantas publica\u00e7\u00f5es como essa, pois o mundo carece muito de poesia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedes que eu escreva<br \/>\no que n\u00e3o sinto.<br \/>\nMas n\u00e3o posso, amigo.<br \/>\nN\u00e3o minto.<br \/>\nPela caneta transborda<br \/>\no meu ser,<br \/>\nse esvai minha alma<br \/>\ne eu voo pela imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos campos do desejo.<br \/>\nN\u00e3o posso amigo,<br \/>\nn\u00e3o v\u00eas,<br \/>\nque o que me inspira<br \/>\na vida est\u00e1 aqui&#8230;<br \/>\nEntre uma letra e outra<br \/>\n\u00e9 que eu vivo a vida.<br \/>\nIrene Madeiro<br \/>\n[Madeiro, Irene. Depois do sol: poesia. \u2013 Fortaleza, Premius, 2012. Poesia: A vida me inspira, p. 257.] <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-5353","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5353"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5353\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}