{"id":5367,"date":"2013-11-01T19:26:35","date_gmt":"2013-11-01T22:26:35","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5367"},"modified":"2013-11-01T19:26:35","modified_gmt":"2013-11-01T22:26:35","slug":"uma-disciplina-em-construcao-cem-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2013\/11\/01\/uma-disciplina-em-construcao-cem-anos-depois\/","title":{"rendered":"Uma disciplina em constru\u00e7\u00e3o, cem anos depois"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">A psican\u00e1lise \u00e9 uma disciplina singular, em que se combinam um novo tipo de pesquisa das neuroses e um m\u00e9todo de tratamento com base nos resultados daquele. Desde j\u00e1 enfatizo que ela n\u00e3o \u00e9 fruto da especula\u00e7\u00e3o, mas da experi\u00eancia, e, portanto, \u00e9 inacabada enquanto teoria. Mediante suas pr\u00f3prias inquiri\u00e7\u00f5es, cada qual pode se persuadir da corre\u00e7\u00e3o ou incorre\u00e7\u00e3o das teses nela presentes, e contribuir para seu desenvolvimento.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Sigmund Freud<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">[<\/span><\/em><span style=\"color: #800080\"><strong>Freud, Sigmund.\u00a0 Princ\u00edpios b\u00e1sicos da psican\u00e1lise<\/strong><\/span><em><span style=\"color: #800080\">. In: Freud, Sigmund. Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (\u201cO caso Schreber\u201d): artigos sobre t\u00e9cnica e outros textos (1911-1913; tradu\u00e7\u00e3o e notas Paulo C\u00e9sar de Souza. \u2013 S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2010, p. 269.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Em uma comunica\u00e7\u00e3o escrita para um congresso m\u00e9dico realizado em 1911, e que seria publicada nas atas do referido congresso somente dois anos mais tarde, em 1913, Freud tra\u00e7a um esbo\u00e7o resumido da teoria e t\u00e9cnica psicanal\u00edticas. Na ocasi\u00e3o, era a psican\u00e1lise tratada ainda como novidade, e as resist\u00eancias que enfrentava o incipiente saber nos meios m\u00e9dicos e acad\u00eamicos eram muito fortes.<\/p>\n<p>Passados cem anos desde a publica\u00e7\u00e3o do texto, indagamo-nos hoje o que mudou com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise. Na verdade, por mais que muitos tentem denegri-la tanto enquanto teoria quanto como m\u00e9todo de tratamento das neuroses, n\u00e3o resta d\u00favida de que ela se imp\u00f4s como um saber que mudou radicalmente a forma de ver o ser humano. Classificado com um dos tr\u00eas mestres da suspeita, conforme a express\u00e3o cunhada pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas Paul Ricouer, Freud provocou uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o na concep\u00e7\u00e3o que, at\u00e9 ent\u00e3o, o homem tinha de si mesmo.<\/p>\n<p>Depois de Freud, tornou-se imposs\u00edvel sustentar certas ilus\u00f5es ao abrigo das quais a humanidade vivera ao longo de muitos s\u00e9culos. A par disso, pode-se afirmar que o homem ganhou uma consci\u00eancia maior de si mesmo, ciente das ciladas que o seu psiquismo lhe prega a todo momento. Uma das consequ\u00eancias foi tornar mais dif\u00edcil alimentar a autocomplac\u00eancia e o autoengano.<\/p>\n<p>Por ser uma disciplina em que teoria e pr\u00e1tica est\u00e3o estritamente imbricadas uma na outra, a psican\u00e1lise permanece ainda um saber em constru\u00e7\u00e3o. A prop\u00f3sito, salientem-se os acr\u00e9scimos que foram e continuam sendo feitos pelos muitos estudiosos e praticantes desse belo e complexo of\u00edcio.<\/p>\n<p>Os benef\u00edcios advindos do legado deixado por Freud s\u00e3o ineg\u00e1veis. Entretanto, apesar de todos os ganhos que a psican\u00e1lise trouxe \u00e0 humanidade, ela permanece sendo ainda alvo de muitos e veementes ataques, tornando atual a admoesta\u00e7\u00e3o transcrita abaixo, escrita por Freud h\u00e1 um s\u00e9culo:<\/p>\n<p>\u201cNos c\u00edrculos m\u00e9dicos, especialmente nos psiqui\u00e1tricos, existe a tend\u00eancia de se opor \u00e0s teorias da psican\u00e1lise sem um verdadeiro estudo ou aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica delas. Isto se deve n\u00e3o apenas \u00e0 espantosa novidade dessas teorias e ao contraste que elas apresentam \u00e0s concep\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora mantidas pelos psiquiatras, mas tamb\u00e9m ao fato de os pressupostos e a t\u00e9cnica da psican\u00e1lise serem muito mais ligadas ao campo da psicologia do que ao da medicina. N\u00e3o se pode contestar, por\u00e9m, que os ensinamentos puramente m\u00e9dicos e n\u00e3o psicol\u00f3gicos contribu\u00edram muito pouco, at\u00e9 aqui, para um entendimento da vida ps\u00edquica. O progresso da psican\u00e1lise \u00e9 tamb\u00e9m retardado pelo medo que sente o observador m\u00e9dio de enxergar-se em seu pr\u00f3prio espelho. Os homens de ci\u00eancia tendem a confrontar resist\u00eancias emocionais com argumentos, convencendo-se, assim, do que desejam ser convencidos! Quem n\u00e3o quiser ignorar uma verdade far\u00e1 bem em desconfiar de suas antipatias, e analisar primeiramente a si mesmo, se pretende submeter ao exame cr\u00edtico a teoria da psican\u00e1lise\u201d (p. 274).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A psican\u00e1lise \u00e9 uma disciplina singular, em que se combinam um novo tipo de pesquisa das neuroses e um m\u00e9todo de tratamento com base nos resultados daquele. Desde j\u00e1 enfatizo que ela n\u00e3o \u00e9 fruto da especula\u00e7\u00e3o, mas da experi\u00eancia, e, portanto, \u00e9 inacabada enquanto teoria. Mediante suas pr\u00f3prias inquiri\u00e7\u00f5es, cada qual pode se persuadir da corre\u00e7\u00e3o ou incorre\u00e7\u00e3o das teses nela presentes, e contribuir para seu desenvolvimento.<br \/>\nSigmund Freud<br \/>\n[Freud, Sigmund.  Princ\u00edpios b\u00e1sicos da psican\u00e1lise. In: Freud, Sigmund. Observa\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (\u201cO caso Schreber\u201d): artigos sobre t\u00e9cnica e outros textos (1911-1913; tradu\u00e7\u00e3o e notas Paulo C\u00e9sar de Souza. \u2013 S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 2010, p. 269.]<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-5367","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-conversas-na-torre-de-bollingen"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5367","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5367"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5367\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5367"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5367"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5367"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}