{"id":5431,"date":"2014-05-15T09:25:36","date_gmt":"2014-05-15T12:25:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5431"},"modified":"2014-05-15T09:25:36","modified_gmt":"2014-05-15T12:25:36","slug":"leituras-que-determinam-destinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2014\/05\/15\/leituras-que-determinam-destinos\/","title":{"rendered":"Leituras que determinam destinos"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">A literatura pode transformar nossa vida.<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">Alain de Botton<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[Botton, Alain de. Religi\u00e3o para ateus. Tradu\u00e7\u00e3o de Vitor Paolozzi. \u2013 Rio de Janeiro: Intr\u00ednseca, 2011, p. 92.]<\/span><\/p>\n<p>Tanto ler quanto escrever podem transformar uma vida. Eu, que sempre vivi cercado de livros, posso afirmar com seguran\u00e7a que n\u00e3o poucas e significativas mudan\u00e7as na minha vida resultaram \u2013 e assim ainda acontece -, da leitura.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes precisamos ler quase a obra inteira de um autor para que essa transforma\u00e7\u00e3o se verifique. Esses casos, por\u00e9m, s\u00e3o mais raros. A maioria das pessoas, por motivos diversos, n\u00e3o consegue ou n\u00e3o quer se dedicar \u00e0 leitura de uma obra completa, que, em alguns casos, pode ser vasta, o que demandaria disponibilidade de tempo. Isso \u00e9 mais comum acontecer quando calha do leitor se apaixonar pelo autor. Nesses casos, \u00e0s vezes sem que o perceba, de repente descobre que j\u00e1 leu toda produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria daquele escritor ou escritora.<\/p>\n<p>Comigo isso aconteceu quando descobri a obra de Clarice Lispector. Foi amor \u00e0 primeira vista. Desde ent\u00e3o, li sequencialmente toda sua obra. Conclu\u00eda uma leitura j\u00e1 antegozando o momento em que iniciaria a seguinte. E como me modificou a leitura de livros como \u201cA paix\u00e3o segundo G.H.\u201d, \u201c\u00c1gua viva\u201d, \u201cA hora da estrela\u201d e, muito particularmente, \u201cA ma\u00e7\u00e3 no escuro\u201d, que li tr\u00eas vezes! Ainda hoje, passados mais de vinte anos, reler Clarice ainda me proporciona imenso prazer. O impacto n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo, claro, mas, de alguma forma, ainda \u00e9 impactante, provocando-me novas reflex\u00f5es e, eventualmente, mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m autores pelos quais passamos inc\u00f3lumes. Lemos um livro inteiro e, chegado \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina, \u00e9 quase como se nada tivesse acontecido. Nesse caso talvez tenha sido apenas puro entretenimento, sem maiores consequ\u00eancias. Livros e autores assim logo s\u00e3o esquecidos, e s\u00f3 raramente a eles retornamos.<\/p>\n<p>H\u00e1 casos, por\u00e9m, em que somente depois da leitura de dois ou tr\u00eas livros \u00e9 que verdadeiramente descobrimos o autor. S\u00f3 ent\u00e3o se pode dizer que o encontro aconteceu. Nesse caso, talvez se deva retornar ao ponto de partida e ler tudo de novo, condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que novas percep\u00e7\u00f5es da obra sejam proporcionadas. E muitas vezes exclamamos para n\u00f3s mesmos, surpresos: \u201cComo \u00e9 que eu n\u00e3o havia percebido isso antes?\u201d Bem, uma poss\u00edvel resposta \u00e9 que talvez n\u00e3o fosse aquele o momento mais adequado para aquela leitura. \u00c9 curioso como h\u00e1 ocasi\u00f5es em que a gente se depara exatamente com o livro de que est\u00e1vamos necessitando para elucidar uma quest\u00e3o existencial ou ajudar numa tomada de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, me vem \u00e0 mem\u00f3ria um fato ocorrido h\u00e1 alguns anos. Naquela ocasi\u00e3o eu ainda era professor do Instituto de Ci\u00eancias Religiosas, no Semin\u00e1rio da Prainha. Encontrava-me no p\u00e1tio da Faculdade folheando o livro \u201cO pobre de Deus\u201d, de Nikos Kazantz\u00e1kis, o mesmo autor de \u201cA \u00faltima tenta\u00e7\u00e3o de Cristo\u201d, transformado em filme por Martin Scorsese. Pois bem, eis que se achega a mim um aluno, frade capuchinho, e, ao ver a obra que eu tinha em m\u00e3os, fala: \u201cFoi a leitura deste livro que me fez tomar a decis\u00e3o de ser franciscano\u201d. Fiquei impressionado. Uma decis\u00e3o dessas \u00e9 coisa muito s\u00e9ria, com implica\u00e7\u00f5es para vida inteira. E, no entanto, ele a tomara motivado pela leitura de um livro.<\/p>\n<p>Interrompi aqui este relato, fui \u00e0 estante e peguei a publica\u00e7\u00e3o mencionada. Folheei algumas p\u00e1ginas mais ou menos aleatoriamente, revendo trechos que eu havia sublinhado. Na p\u00e1gina dezenove encontrei uma frase curta, simples, direta, clara, t\u00e3o precisa que n\u00e3o deixa qualquer d\u00favida a quem a leia procurando uma ilumina\u00e7\u00e3o, uma luz para o itiner\u00e1rio a seguir. Uma dessas frases que, em certas circunst\u00e2ncias, pode determinar o destino de uma vida:<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 o caminho, esse mesmo; n\u00e3o h\u00e1 outro\u201d (Kazantz\u00e1kis, Nikos. O pobre de Deus. Tradu\u00e7\u00e3o \u00cdsis Borges Belchior da Fonseca. \u2013 S\u00e3o Paulo: Arx, 2002, p. 19.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A literatura pode transformar nossa vida. Alain de Botton [Botton, Alain de. Religi\u00e3o para ateus. 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