{"id":5448,"date":"2014-07-17T10:55:54","date_gmt":"2014-07-17T13:55:54","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5448"},"modified":"2014-07-17T10:55:54","modified_gmt":"2014-07-17T13:55:54","slug":"onde-fernando-pessoa-e-santa-teresa-davila-se-encontram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2014\/07\/17\/onde-fernando-pessoa-e-santa-teresa-davila-se-encontram\/","title":{"rendered":"Onde Fernando Pessoa e santa Teresa d\u00b4\u00c1vila se encontram"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Senhor, que \u00e9s o c\u00e9u e a terra, que \u00e9s a vida e a morte! O sol \u00e9s tu e a lua \u00e9s tu e o vento \u00e9s tu! Tu \u00e9s os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor \u00e9s tu tamb\u00e9m. Onde nada est\u00e1 tu habitas e onde tudo est\u00e1 \u2013 (o teu templo) \u2013 eis o teu corpo.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">D\u00e1-me alma para te servir e alma para te amar. D\u00e1-me vista para te ver sempre no c\u00e9u e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e m\u00e3os para trabalhar em teu nome.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Torna-me puro como a \u00e1gua e alto como o c\u00e9u. Que n\u00e3o haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus prop\u00f3sitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irm\u00e3os e servir-te como a um pai.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">[&#8230;]<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Minha vida seja digna da tua presen\u00e7a. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Senhor, protege-me e ampara-me. D\u00e1-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Fernando Pessoa<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Pessoa, Fernando. O eu profundo<\/strong>. [Prece]. Em: Pessoa, Fernando. Obras em prosa em um volume. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar S.A.,1990, p. 33.]<\/span><\/p>\n<p>Tendo lido, ainda nos anos oitenta, a obra po\u00e9tica de Fernando Pessoa, comecei agora a ler sua obra em prosa. De fato, eu j\u00e1 havia lido parte dela, os dois volumes do \u201cLivro do Desassossego\u201d. Agora, iniciei a leitura de \u201cO Eu Profundo\u201d. J\u00e1 no segundo texto do livro, me deparei com uma prece que me fez imediatamente lembrar santa Teresa d`\u00c1vila. No primeiro par\u00e1grafo do cap\u00edtulo 23 do \u201cLivro da Vida\u201d, a autora afirma: \u201cLouvado seja o Senhor, que me livrou de mim mesma\u201d (Santa Teresa d\u00b4\u00c1vila. Livro da Vida, cap. 23, p. 149. Em: <em>Teresa de Jesus. Obras Completas. Texto estabelecido por Fr. Tomas Alvarez, O.C.D. Dire\u00e7\u00e3o Pe. Gabriel C. Galache, SJ. Tradu\u00e7\u00e3o de Adail Ubirajara Sobral e outros. \u2013 S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Carmelitanas: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1995).<\/em><\/p>\n<p><em>Na ocasi\u00e3o em que li a frase pela primeira vez, causou-me ela tal impacto que, n\u00e3o contente em apenas destac\u00e1-la no texto, anotei-a na agenda. Desde ent\u00e3o, frequentemente tenho retornado \u00e0 sua leitura e reflex\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p><em>Agora, ao iniciar a leitura de \u201cO Eu Profundo\u201d, deparo-me com a Prece de Fernando Pessoa que ele conclui com a frase: \u201cSenhor, livra-me de mim\u201d. A semelhan\u00e7a entre ambas as frases est\u00e1 no tema. Uma diferen\u00e7a, por\u00e9m, pode ser apontada: no caso do poeta, ele pede a Deus que o livre de si mesmo; em se tratando da santa, por\u00e9m, ela louva a Deus por t\u00ea-la livrado de si mesma. <\/em><\/p>\n<p><em>Um e outra deixam antever, parece-me, uma esp\u00e9cie de ang\u00fastia existencial motivada por aquilo que eles pr\u00f3prios s\u00e3o e de que n\u00e3o conseguem se livrar ou se evadir. Algo que diz respeito, talvez, \u00e0 sua ess\u00eancia. Arriscaria dizer que esse inc\u00f4modo ancora-se na pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana. \u00a0Viver \u00e9 inc\u00f4modo demais. Para pessoas que atingem um n\u00edvel de consci\u00eancia profundo da natureza humana, suportar a si mesmas pode se tornar um fardo muito pesado. <\/em><\/p>\n<p><em>Os poetas e os m\u00edsticos &#8211; dentre os quais se incluem as duas figuras abordadas neste texto -, n\u00e3o hesito em afirm\u00e1-lo, atingem esse alto n\u00edvel de consci\u00eancia. Curiosamente, em se tratando de Fernando Pessoa e santa Teresa d`\u00c1vila, ambos, em perspectivas diferentes, traziam em si, simultaneamente, as duas condi\u00e7\u00f5es: de poeta e de m\u00edstico. Aquele procurou a sa\u00edda na arte; esta, na religi\u00e3o. As duas alternativas, creio, revelam-se igualmente sofridas e dif\u00edceis. Quem duvidar, que mergulhe na leitura do \u201cLivro do Desassossego\u201d e do \u201cLivro da Vida\u201d. Cabe dizer, ainda, que ambas s\u00e3o igualmente plaus\u00edveis. <\/em><\/p>\n<p><em>Uma pergunta, por\u00e9m, fica ainda por ser respondida, e disso deixarei para tratar em outra ocasi\u00e3o: a que porto leva uma e outra aventura, o itiner\u00e1rio art\u00edstico e o itiner\u00e1rio religioso? Em que os dois se assemelham e em que diferem? Um paralelo entre o \u201cLivro do Desassossego\u201d e o \u201cLivro da Vida\u201d talvez possam fornecer algumas pistas para essas quest\u00f5es.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senhor, que \u00e9s o c\u00e9u e a terra, que \u00e9s a vida e a morte! 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