{"id":546,"date":"2009-08-31T06:21:50","date_gmt":"2009-08-31T09:21:50","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=546"},"modified":"2009-08-31T06:21:50","modified_gmt":"2009-08-31T09:21:50","slug":"roberto-damatta-um-sentido-para-o-absurdo-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/08\/31\/roberto-damatta-um-sentido-para-o-absurdo-da-vida\/","title":{"rendered":"Roberto DaMatta, um sentido para o absurdo da vida"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Como desculpa para o que pode parecer a alguns como complica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, gostaria apenas de reiterar que todas as cr\u00f4nicas giram em torno da quest\u00e3o da igualdade como valor na sociedade brasileira. Essa igualdade que faz par com a liberdade e que \u00e9 f\u00e1cil de falar, mas complicada de praticar num sistema social que permanece perfeitamente coerente com seus princ\u00edpios e vieses aristocr\u00e1ticos que engendraram entre n\u00f3s um pa\u00eds fora do comum. Um lugar onde misturamos capitalismo com monarquia e escravid\u00e3o e que, pasmemos todos, atravessou todo o s\u00e9culo XIX altaneiro e brilhante, como um romance de Machado de Assis.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Roberto DaMatta<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[DaMatta, Roberto. Cr\u00f4nicas da vida e da morte. Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 11.]<\/span><\/em><\/p>\n<p>Manh\u00e3 de segunda-feira, estacionamento do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar. Enquanto aguardava que o meu carro fosse lavado, me dirigi a uma banca de revistas que ficava pr\u00f3xima. Pois foi ali, numa das prateleiras, que me deparei com o livro do antrop\u00f3logo Roberto DaMatta, <em>Cr\u00f4nicas da vida e da morte<\/em>. Fiquei surpreso com a descoberta, pois eu n\u00e3o sabia que ele publicara mais um livro. Ao dar uma olhada na ficha catalogr\u00e1fica, percebi que o mesmo sa\u00edra h\u00e1 pouco do prelo, tendo sido editado j\u00e1 este ano.<\/p>\n<p>Roberto DaMatta \u00e9 um dos autores brasileiros cuja leitura mais me causa prazer. Desde que li <em>Carnavais, malandros e her\u00f3is<\/em>, l\u00e1 pelos idos dos anos oitenta, quando ainda estudante universit\u00e1rio, me tornei muito mais que um leitor, um grande admirador deste brilhante intelectual. Para mim, Roberto DaMatta e Gilberto Freyre s\u00e3o os dois grandes int\u00e9rpretes da cultura brasileira, embora existam outros de n\u00e3o menos import\u00e2ncia como, por exemplo, S\u00e9rgio Buarque de Holanda, Celso Furtado e Florestan Fernandes.\u00a0<\/p>\n<p>O livro\u00a0referido traz uma diferen\u00e7a marcante em rela\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e0s obras anteriores do autor. Aqui ele apresenta ao leitor uma s\u00e9rie de cr\u00f4nicas, a maioria delas publicadas nos jornais O Estado de S\u00e3o Paulo e O Globo. Segundo DaMatta, o que o motivou a publicar o livro foi uma tentativa de superar a grande dor experimentada quando da morte de seu primog\u00eanito, o Comandante Rodrigo DaMatta.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Quase todos os dias tenho me deleitado com a leitura das <em>Cr\u00f4nicas da vida e da morte<\/em>. \u00c9 um livro, no entanto, que tenho lido com certo comedimento, de forma a adiar um pouco o momento em que lerei a \u00faltima cr\u00f4nica. H\u00e1 livros assim, que a gente bem antes da conclus\u00e3o j\u00e1 come\u00e7a a antever a saudade que sentir\u00e1 uma vez conclu\u00edda a leitura. \u00c9 claro que um livro de que se gostou sempre poder\u00e1 ser relido, o que, seguramente, farei, em se tratando desse que ora comento. No entanto, a emo\u00e7\u00e3o experimentada jamais poder\u00e1 se equiparar \u00e0quela que sente quando, ao ler um par\u00e1grafo ou uma frase pela primeira vez, voc\u00ea para e, num \u00edmpeto impensado, esmurra o ar e murmura de si para si: <em>Caramba! Que frase perfeita! Que sacada! \u00c9 exatamente\u00a0o que um dia eu gostaria de ter escrito! <\/em><\/p>\n<p><em>Cr\u00f4nicas da vida e da morte<\/em> \u00e9 um livro t\u00e3o inspirado quanto inspirador, cuja leitura faz antever a possibilidade de conferir um sentido, ou sentidos, ao aparente absurdo da vida. \u00c9 o que prop\u00f5e o autor, quando escreve: <em>Essas cr\u00f4nicas t\u00eam a marca da renova\u00e7\u00e3o e do renascimento. Da renova\u00e7\u00e3o, porque diante da doen\u00e7a, da indiferen\u00e7a, da hipocrisia e da morte, eu sigo sereno, escolhendo a vida e o trabalho. Do renascimento, porque este trecho da minha vida tem revelado que cabe mesmo a n\u00f3s, humanos, dar sentido \u2013 como homens entre homens, como dizia Sartre \u2013 a todos (e eu repito, todos!) os acontecimentos que constituem e d\u00e3o fundamento \u00e0s nossas trajet\u00f3rias<\/em> (p. 12).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como desculpa para o que pode parecer a alguns como complica\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica, gostaria apenas de reiterar que todas as cr\u00f4nicas giram em torno da quest\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-546","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-08-arcano-viii-da-nossa-peculiar-brasilidade"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/546","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=546"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/546\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=546"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=546"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=546"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}