{"id":5499,"date":"2014-10-30T11:10:14","date_gmt":"2014-10-30T14:10:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5499"},"modified":"2014-10-30T11:10:14","modified_gmt":"2014-10-30T14:10:14","slug":"sao-marcelo-ou-opcao-pela-pistis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2014\/10\/30\/sao-marcelo-ou-opcao-pela-pistis\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Marcelo ou A op\u00e7\u00e3o pela pistis"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Declarei publicamente e em alta voz que era crist\u00e3o e n\u00e3o podia prestar juramento e servir sob outras ins\u00edgnias que n\u00e3o fossem as de Jesus Cristo, Filho de Deus, Pai onipotente.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">S\u00e3o Marcelo<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[Sgarbossa, Mario. <strong>Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente: com uma antologia de escritos espirituais<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o Armando Braio Ara. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2003, p. 613.]<\/span><\/p>\n<p>A Igreja Cat\u00f3lica celebra hoje a festa de S\u00e3o Marcelo, centuri\u00e3o romano martirizado em 298, em T\u00e2nger. Transcrevo, abaixo, um excerto da hist\u00f3ria deste santo, conforme relatada por Mario Sgarbossa:<\/p>\n<p>\u201cMarcelo era um centuri\u00e3o do ex\u00e9rcito romano da guarni\u00e7\u00e3o de T\u00e2nger. Como tal foi enviado a participar dos festejos do anivers\u00e1rio do imperador Diocleciano. Era sabido que em tal circunst\u00e2ncia os participantes deviam honrar uma est\u00e1tua do imperador com um gesto (lan\u00e7ar incenso no braseiro posto a seus p\u00e9s) que os crist\u00e3os consideravam idol\u00e1trico.<\/p>\n<p>\u201cMarcelo recusou-se a faz\u00ea-lo e, para mostrar-se coerente, retirou as ins\u00edgnias de centuri\u00e3o, jogou-as aos p\u00e9s da est\u00e1tua e se declarou crist\u00e3o. Por muito menos isso seria pass\u00edvel da pena capital.<\/p>\n<p>\u201cFoi chamado o escriv\u00e3o para que redigisse uma ata oficial sobre a rebeldia do centuri\u00e3o. O funcion\u00e1rio \u2013 em latim, <i>exceptor<\/i> \u2013 recusou-se a redigir as atas processuais. Imitando o centuri\u00e3o Marcelo, jogou fora a pena, protestou pela injusti\u00e7a perpetrada contra os inocentes, condenados \u00e0 morte por adorarem o \u00fanico e verdadeiro Deus, e declarou-se tamb\u00e9m ele crist\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cForam ambos aprisionados e poucos dias depois sofreram o mart\u00edrio: Marcelo em 30 de outubro, e Cassiano em 3 de dezembro. O poeta Prud\u00eancio dedica-lhes um hino\u201d (Sgarbossa, Mario. Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente: com uma antologia de escritos espirituais. Tradu\u00e7\u00e3o Armando Braio Ara. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2003, p. 613).<\/p>\n<p>O que me fascina na hist\u00f3ria de S\u00e3o Marcelo \u00e9 a coragem demonstrada por ele, a ponto de empenhar o que h\u00e1 de mais precioso a uma pessoa, a pr\u00f3pria vida, em nome da verdade em que acredita. Tal for\u00e7a teve o gesto, que S\u00e3o Cassiano n\u00e3o hesitou em seguir o exemplo, optando por atitude igualmente radical e grandiosa.<\/p>\n<p>Penso que vidas como as de S\u00e3o Marcelo e S\u00e3o Cassiano explicitam da forma mais clara e perfeita o que constitui, em ess\u00eancia, a verdade. Voc\u00e1bulo complexo esse, dif\u00edcil de definir. Ante a indaga\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 a verdade, o pr\u00f3prio Cristo silenciou (Jo 18,38). H\u00e1 muitas acep\u00e7\u00f5es em que a verdade pode ser interpretada. Do ponto de vista da m\u00edstica, creio que exista uma verdade, sim, mas essa deve ser remetida a uma perspectiva existencial.<\/p>\n<p>Quero dizer com isso que, nessa acep\u00e7\u00e3o, a verdade \u00e9 sempre uma verdade pessoal, que tem sentido na perspectiva da vida do sujeito que a experimenta. Paradoxalmente, apesar dessa dimens\u00e3o individual, ela tem, tamb\u00e9m, uma dimens\u00e3o universal. Quero dizer com isso que ela pode ser proposta como verdade a quem se dispuser enveredar pelo caminho que conduz a ela. Nunca ser\u00e1 demais salientar, no entanto, que ela \u00e9 sempre dada numa perspectiva experiencial.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da verdade, creio, \u00e9 acess\u00edvel ao indiv\u00edduo por v\u00e1rios caminhos, sendo o mais comum, embora n\u00e3o o menos dif\u00edcil, o da religi\u00e3o. A prop\u00f3sito, transcrevo, a seguir, um trecho de um dos escritos de Jung sobre o assunto. Escreve Jung:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 indiferente o que pensa o mundo sobre a experi\u00eancia religiosa: aquele que a tem, possui, qual inestim\u00e1vel tesouro, algo que se converteu para ele numa fonte de vida, de sentido e de beleza, conferindo um novo brilho ao mundo e \u00e0 humanidade. Ele tem <i>pistis<\/i> e paz. Qual o crit\u00e9rio v\u00e1lido para dizer que tal vida n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima, que tal experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida sendo essa <i>pistis<\/i> mera ilus\u00e3o? Haver\u00e1 uma verdade melhor, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas \u00faltimas, do que aquela que ajuda a viver? Eis a raz\u00e3o pela qual eu levo a s\u00e9rio os s\u00edmbolos criados pelo inconsciente. Eles s\u00e3o os \u00fanicos capazes de convencer o esp\u00edrito cr\u00edtico do homem moderno. Eles convencem, subjetivamente, por raz\u00f5es antiquadas: s\u00e3o <i>imponentes<\/i>, <i>convincentes<\/i>, palavra que vem do latim <i>convincere<\/i>, e significa <i>persuadir<\/i>. O que cura a neurose deve ser t\u00e3o <i>convincente<\/i> quanto a pr\u00f3pria neurose e, como esta \u00e9 demasiado real, a experi\u00eancia ben\u00e9fica deve ser dotada de uma realidade equivalente. Numa formula\u00e7\u00e3o pessimista: dever\u00e1 ser uma ilus\u00e3o muito real. Mas que diferen\u00e7a h\u00e1 entre uma ilus\u00e3o real e uma experi\u00eancia religiosa curativa? \u00c9 uma diferen\u00e7a de palavras. Poder-se-ia dizer, p. ex., que a vida \u00e9 uma enfermidade com um diagn\u00f3stico muito desfavor\u00e1vel: prolonga-se por v\u00e1rios anos, para terminar com a morte; ou que a normalidade \u00e9 um defeito constitutivo generalizado; ou que o homem \u00e9 um animal cujo c\u00e9rebro alcan\u00e7ou um superdesenvolvimento funesto. Esta maneira de pensar \u00e9 privil\u00e9gio daqueles que est\u00e3o sempre descontentes e sofrem de m\u00e1 digest\u00e3o. Ningu\u00e9m pode saber o que s\u00e3o as coisas derradeiras e essenciais. Por isso devemos tom\u00e1-las tais como sentimos. E se uma experi\u00eancia desse g\u00eanero contribuir para tornar a vida mais bela, mais plena ou mais significativa para n\u00f3s, como para aqueles que amamos \u2013 ent\u00e3o poderemos dizer com toda a tranquilidade: \u201cFoi uma gra\u00e7a de Deus\u201d\u201d. [Jung, Carl Gustav. Psicologia da religi\u00e3o ocidental e oriental; tradu\u00e7\u00e3o do Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha. \u2013 Petr\u00f3polis: Vozes, 1983. Primeira Se\u00e7\u00e3o: Psicologia e Religi\u00e3o,\u00a0 p. 105.]\n<p>Pela convic\u00e7\u00e3o que tenho da pertin\u00eancia das palavras de Jung e pela intercess\u00e3o de santos como S\u00e3o Marcelo e S\u00e3o Cassiano foi que optei por buscar a experi\u00eancia da Verdade no seguimento d\u00b4O Caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Declarei publicamente e em alta voz que era crist\u00e3o e n\u00e3o podia prestar juramento e servir sob outras ins\u00edgnias que n\u00e3o fossem as de Jesus&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5500,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20,37],"tags":[],"class_list":["post-5499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-15-o-caminho-da-individuacao","category-34-conversa-de-hagiologo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5499\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}