{"id":5528,"date":"2014-12-08T12:00:51","date_gmt":"2014-12-08T15:00:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5528"},"modified":"2014-12-08T12:00:51","modified_gmt":"2014-12-08T15:00:51","slug":"escrever-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2014\/12\/08\/escrever-vida\/","title":{"rendered":"Escrever a vida"},"content":{"rendered":"<p><strong><\/strong>Quem escreve tenta, de alguma forma, tocar com as palavras o sentido do real, daquilo que constitui a ess\u00eancia da vida. Talvez escrever seja, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma busca de sentido, ou, para ser mais preciso, do sentido.<\/p>\n<p>Qualquer tentativa, entretanto, por mais bem sucedida que seja, esbarrar\u00e1 sempre num limite, imposto pela linguagem. A linguagem \u00e9 muito pobre para dar conta da imensid\u00e3o da vida. \u00c9 por isso que alguns escritores, insatisfeitos, resolvem buscar outros caminhos. Entre esses eu destacaria Guimar\u00e3es Rosa, Clarice Lispector e Manuel de Barros. De formas diferentes, os tr\u00eas tentaram ir al\u00e9m daquilo que a linguagem permite, paradoxalmente, valendo-se da pr\u00f3pria linguagem, uma vez que o instrumento de trabalho dispon\u00edvel \u00e9 sempre e apenas a palavra.<\/p>\n<p>\u00c0 sua maneira, eles subverteram a linguagem no af\u00e3 de exprimir o inexprim\u00edvel. Guimar\u00e3es Rosa, numa tentativa de ampliar suas possibilidades, criou palavras, inventou um novo vocabul\u00e1rio. Manuel de Barros, por sua vez, dentre outros artif\u00edcios, subverteu as classes gramaticais, transformando verbos em substantivos e vice-versa. Quanto a Clarice Lispector, embora em alguns momentos tenha sido tentada a criar novas palavras, nos raros momentos em que o fez, como em \u201c\u00c1gua viva\u201d, criou voc\u00e1bulos sem sentido. Nesse caso, ela deliberadamente resvalou para uma aus\u00eancia de sentido.<\/p>\n<p>Vejo, pois, uma diferen\u00e7a em Clarice Lispector no que toca \u00e0 tentativa de atingir o \u00e2mago do real com a palavra. Deixo claro, por\u00e9m, que n\u00e3o cabem aqui compara\u00e7\u00f5es valorativas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura tal como exercida por Guimar\u00e3es Rosa, Manuel de Barros e Clarice Lispector. Trata-se, antes, de tr\u00eas maneiras diferentes de express\u00e3o pela escrita. A peculiaridade est\u00e1 no fato de que Clarice utiliza apenas a linguagem cotidiana, o vocabul\u00e1rio comum do dia a dia, sem lan\u00e7ar m\u00e3o de qualquer forma de subvers\u00e3o da gram\u00e1tica. Ela, pois, se mant\u00e9m nos limites da palavra, com a consci\u00eancia de que est\u00e1 tentando tocar algo que a transcende.<\/p>\n<p>Na escrita de Clarice Lispector, entretanto, esse limite transforma-se em limiar, uma vez que, levando \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias as possibilidades da linguagem comum e trivial de todos n\u00f3s, ela consegue tocar, ainda que muito de leve, o inef\u00e1vel, nos fazendo pisar a soleira al\u00e9m da qual s\u00f3 resta silenciar ante o incomensur\u00e1vel mist\u00e9rio da grande vida. O que a leva a escrever, na conclus\u00e3o de um seus livros mais fascinantes, \u201cA paix\u00e3o segundo G.H.\u201d: \u201cO mundo independe de mim \u2013 esta era a confian\u00e7a a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e n\u00e3o estou entendendo o que estou dizendo \u2013 nunca! Nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer sen\u00e3o timidamente assim: a vida se me \u00e9. A vida se me \u00e9, e eu n\u00e3o entendo o que digo. E ent\u00e3o adoro. &#8211; &#8211; &#8211; &#8211; &#8211; -\u201c<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem escreve tenta, de alguma forma, tocar com as palavras o sentido do real, daquilo que constitui a ess\u00eancia da vida. 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