{"id":5531,"date":"2014-12-10T00:03:40","date_gmt":"2014-12-10T03:03:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5531"},"modified":"2014-12-10T00:03:40","modified_gmt":"2014-12-10T03:03:40","slug":"mulher-que-nasceu-um-dia-e-morreu-um-dia-antes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2014\/12\/10\/mulher-que-nasceu-um-dia-e-morreu-um-dia-antes\/","title":{"rendered":"A mulher que nasceu um dia e morreu um dia antes"},"content":{"rendered":"<p>Certa vez perguntaram a Clarice Lispector que t\u00edtulo ela daria a sua autobiografia. A resposta foi sucinta mas, como sempre, mortal: \u201c\u00c0 procura da coisa\u201d. A Coisa \u2013 o mundo real, neutro e indiferente \u00e0s constru\u00e7\u00f5es humanas, nisso inclu\u00edda a pr\u00f3pria literatura \u2013 foi, desde seu primeiro romance, <i>Perto do Cora\u00e7\u00e3o selvagem<\/i>, de 1943, a grande paix\u00e3o e o grande inferno de Clarice. Viveu para perseguir esse n\u00facleo de vida pura que nos iguala aos animais e nos despe de nosso manto cultural. Viveu, como ela mesma definiu, para buscar o que se esconde \u201catr\u00e1s de detr\u00e1s do pensamento\u201d. N\u00e3o foi pouco o que se prop\u00f4s.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Castello<\/p>\n[Lispector, Clarice. Clarice na cabeceira: romances \/ Clarice Lispector; organiza\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00f5es: Jos\u00e9 Castello. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 9.]\n<p>Fui \u00e0 cozinha e peguei uma x\u00edcara de caf\u00e9: forte, amargo e fumegante, como tem que ser o caf\u00e9, pelo menos em ocasi\u00f5es como esta, em que me posiciono ante o computador para escrever este texto. \u00c9 que certas ocasi\u00f5es exigem um cuidado especial, quase como se estiv\u00e9ssemos prestes a adentrar um templo. Falo de Inicia\u00e7\u00e3o. Sim, Inicia\u00e7\u00e3o aos grandes mist\u00e9rios, como a que acontecia aos praticantes do esoterismo em tempos de antanho.<\/p>\n<p>\u00c9 que vou escrever algumas poucas linhas sobre uma Iniciada. Refiro-me a Clarice Lispector. Sim, porque leio Clarice Lispector com a mesma predisposi\u00e7\u00e3o e preparo que adoto quando vou ler um texto dos grandes iniciados. A diferen\u00e7a entre nossa escritora e outros iniciados \u00e9 que, se estes precisaram se filiar a um c\u00edrculo ou escola esot\u00e9rica para ter acesso aos grandes mist\u00e9rios, \u00e0 primeira isso n\u00e3o foi necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Eu diria que ela passou pelas etapas necess\u00e1rias \u00e0 Inicia\u00e7\u00e3o de forma espont\u00e2nea, com aquilo mesmo que a vida foi lhe proporcionando experimentar no dia a dia, tudo inserido no fluxo natural de sua exist\u00eancia. Nem mesmo duas experi\u00eancias cruciais, a do chamado \u201cInferno da Inicia\u00e7\u00e3o\u201d e a \u201cExperi\u00eancia do Deserto\u201d, de que falam os grandes m\u00edsticos, lhe faltaram.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao primeiro, atente-se para o que ela afirmou quando se referiu ao inc\u00eandio ocorrido em seu apartamento no dia 14 de setembro de 1966, que a deixou em coma:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] o inc\u00eandio que sofri h\u00e1 algum tempo destruiu parcialmente minha m\u00e3o direita. Minhas pernas ficaram marcadas para sempre. O que aconteceu foi muito triste e prefiro n\u00e3o lembrar. S\u00f3 posso dizer que passei tr\u00eas dias no inferno, aquele que \u2013 dizem \u2013 espera os maus depois da morte. Eu n\u00e3o me considero m\u00e1 e o conheci ainda viva\u201d (Entrevista ao Jornal da Tarde, 5. fev. 1969. Citado em: \u00a0Gotlib, N\u00e1dia Battella. Clarice Fotobiografia. \u2013 S\u00e3o Paulo: Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo, 2008, p. 368).<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do segundo, o deserto, escreveu: \u201cEu fora obrigada a entrar no deserto para saber com horror que o deserto \u00e9 vivo, para saber que uma barata \u00e9 a vida. Havia recuado at\u00e9 saber que em mim a vida mais profunda \u00e9 antes do humano \u2013 e para isso eu tivera a coragem diab\u00f3lica de largar os sentimentos\u201d.<\/p>\n<p>E que experi\u00eancia inici\u00e1tica \u00e9 essa, a que se destina ela, qual \u00e9 seu anelo? \u00c9 aquilo a que aspiram os grandes iluminados, o mist\u00e9rio dos mist\u00e9rios, mas exige para adentr\u00e1-lo uma coragem e disposi\u00e7\u00e3o sobre-humanas, o que leva Clarice a dizer: \u201c Eu tivera que n\u00e3o dar valor humano \u00e0 vida para poder entender a largueza, muito mais que humana, do Deus. Havia eu pedido a coisa mais perigosa e proibida? arriscando a minha alma, teria eu ousadamente exigido ver Deus?\u201d<\/p>\n<p>E conclui, como quem sabe que esse Mist\u00e9rio, por ser incomensuravelmente maior que tudo o que se possa conceber, traz sempre impl\u00edcito um enigma que, em vida, provavelmente nunca ser\u00e1 totalmente solucionado: \u201cE agora eu estava diante Dele e n\u00e3o entendia \u2013 estava inutilmente de p\u00e9 diante Dele, e era de novo diante do nada. A mim, como a todo o\u00a0 mundo, me fora dado tudo, mas eu quisera mais: quisera saber desse tudo. E vendera a minha alma para saber. Mas agora eu entendia que n\u00e3o a vendera ao dem\u00f4nio, mas muito mais perigosamente: a Deus. Que me deixara ver. Pois Ele sabia que eu n\u00e3o saberia ver o que visse: a explica\u00e7\u00e3o de um enigma \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o do enigma. O que \u00c9s? e a resposta \u00e9: \u00c9s. O que existe? e a resposta \u00e9: o que existes. Eu tinha a capacidade da pergunta, mas n\u00e3o a de ouvir a resposta\u201d (Lispector, Clarice. A paix\u00e3o segundo G. H. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 134).<\/p>\n<p>N\u00e3o nos surpreenda, pois, ao ler as palavras acima, a advert\u00eancia feita pela autora na \u00a0p\u00e1gina de rosto de <i>A paix\u00e3o segundo G. H.<\/i> \u201cA POSS\u00cdVEIS LEITORES. Este livro \u00e9 como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma j\u00e1 formada. Aquelas que sabem que a aproxima\u00e7\u00e3o, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente \u2013 atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, s\u00f3 elas, entender\u00e3o bem devagar que este livro n\u00e3o tira nada de ningu\u00e9m. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria dif\u00edcil; mas chama-se alegria\u201d Lispector, Clarice. A paix\u00e3o segundo G. H. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2009).<\/p>\n<p>Clarice Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, e faleceu no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos. Numa entrevista concedida \u00e0 TV Cultura em 1977, ano de sua morte, afirmou Clarice: \u201cBem, agora eu morri&#8230; Mas vamos ver se eu renas\u00e7o de novo&#8230; Por enquanto eu estou morta&#8230; Estou falando do meu t\u00famulo&#8230;\u201d (Entrevista \u00e0 TV Cultura, 1\u00ba fev. 1977. Citado em: \u00a0Gotlib, N\u00e1dia Battella. Clarice Fotobiografia. \u2013 S\u00e3o Paulo: Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo, 2008, p. 443).<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos antes, por\u00e9m, ela j\u00e1 havia renascido, depois de ter passado pela grande Inicia\u00e7\u00e3o que uma vida dedicada \u00e0 busca da express\u00e3o do real pela palavra lhe proporcionara. Corol\u00e1rio dessa experi\u00eancia foi o que escreveu em <em>\u00c1gua viva<\/em>, livro que \u00e9 pura epifania, da primeira \u00e0 \u00faltima palavra: \u201cNasci h\u00e1 alguns instantes e estou ofuscada\u201d (\u00c1gua viva. Em: Lispector, Clarice. Clarice na cabeceira: romances \/ Clarice Lispector; organiza\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e apresenta\u00e7\u00f5es: Jos\u00e9 Castello. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 191).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certa vez perguntaram a Clarice Lispector que t\u00edtulo ela daria a sua autobiografia. A resposta foi sucinta mas, como sempre, mortal: \u201c\u00c0 procura da coisa\u201d&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":5532,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[],"class_list":["post-5531","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-11-clariceanas"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5531"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5531\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}