{"id":5613,"date":"2015-06-22T22:17:07","date_gmt":"2015-06-23T01:17:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5613"},"modified":"2015-06-22T22:17:07","modified_gmt":"2015-06-23T01:17:07","slug":"uma-leitura-e-um-encontro-inusitado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2015\/06\/22\/uma-leitura-e-um-encontro-inusitado\/","title":{"rendered":"Uma leitura e um encontro absurdo"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Sempre me foi complicado encarar a morte. Refiro-me \u00e0 morte total, plena. A morte fisiol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 um problema, mas a morte essencial, essa \u00e9 cruel e insuport\u00e1vel. Talvez por isso essa mania de criar, de produzir e publicar na esperan\u00e7a de superar a morte visceral, transpor a barreira da exist\u00eancia finita e, de alguma forma, superar o esquecimento, como se diz na m\u00e1xima: as palavras voam, mas n\u00e3o as escritas!<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Raymundo Netto<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\">[<strong>Raymundo Netto<\/strong>. <strong>Cr\u00f4nicas absurdas de segunda<\/strong>. Ilustra\u00e7\u00f5es Valber Benevides. \u2013 Fortaleza: Edi\u00e7\u00f5es Dem\u00f3crito Rocha, 2015; \u201cAt\u00e9 um dia\u201d a Eduardo campos, p. 57].<\/span><\/p>\n<p>S\u00e1bado passado, por volta das tr\u00eas horas da tarde, vinha caminhando absorto pela Rua Castro Alves quando, de repente, j\u00e1 quase na esquina com a Monsenhor Bruno, sinto uma brisa fria soprar de leve, seguida de um toque suave no meu ombro esquerdo. Antes que me recompusesse do susto pude ouvir a sibilante frase:<\/p>\n<p>&#8211; Meu indigitado amigo, h\u00e1 quanto tempo!<\/p>\n<p>Por mais surpreendente que fosse a cena, aquela express\u00e3o n\u00e3o poderia ser pronunciada por nenhuma outra criatura neste mundo de meu Deus. N\u00e3o deu tempo nem de me recompor do susto para vislumbrar ali, ao meu lado, em carne e osso, o cronista Airton Monte.<\/p>\n<p>Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele emendou:<\/p>\n<p>&#8211; Vieste aqui matar a saudade dos velhos tempos das tardes de domingo em que nos encontr\u00e1vamos no Bom, n\u00e3o foi? Ah, meu amigo, como sinto saudades daquelas tardes de muita conversa, cerveja e boa m\u00fasica. Tens visto o poeta?<\/p>\n<p>Eu estava at\u00f4nito, sem saber o que falar. Queria dizer algo, mas a voz n\u00e3o sa\u00eda. Para completar a surpresa, vi que o cronista trazia em uma das m\u00e3os um livro em cuja capa pude ler o t\u00edtulo, impresso em letras g\u00f3ticas: \u201cConfedera\u00e7\u00e3o dos mandacarus\u201d.<\/p>\n<p>Neste momento, chegamos na esquina da Monsenhor Bruno. Airton tirou a m\u00e3o do meu ombro e falou:<\/p>\n<p>&#8211; Meu indigitado amigo, tenho que ir. O Audifax me espera no Beco do Segundo para uma reuni\u00e3o da Academia do Beco. Dia destes aparece por l\u00e1, combinado?<\/p>\n<p>Antes que eu desse um suspiro a apari\u00e7\u00e3o se desfez. Digo apari\u00e7\u00e3o porque aquilo s\u00f3 podia ser coisa de outro mundo. Ali\u00e1s, tem sido assim desde que comecei a ler um tal <em>Cr\u00f4nicas absurdas de segunda<\/em>. Foi s\u00f3 come\u00e7ar a leitura desse livro para que coisas esquisitas, digamos, absurdas, come\u00e7assem a me ocorrer, n\u00e3o sendo a mais absurda delas o inusitado encontro de s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Conforme se pode ler na contracapa, \u201c<em>Cr\u00f4nicas absurdas de segunda<\/em> \u00e9, em sua maioria, uma sele\u00e7\u00e3o de textos publicados, entre 2007 e 2010, no caderno \u00b4Vida &amp; Arte` do jornal <strong>O POVO<\/strong>. Neles, o autor visita e apresenta a cidade, a reconhece e a provoca por meio da fala (e dos sentimentos) de seus escritores, principalmente os cronistas, contempor\u00e2neos ou n\u00e3o, que encontra em bancos de pra\u00e7a, nos \u00f4nibus, em parques, nas casas mutiladas, cemit\u00e9rios ou em meio a desastres e hecatombes de propor\u00e7\u00f5es aparentemente absurdas\u201d.<\/p>\n<p>O autor, Raymundo Netto, \u00e9 uma figura j\u00e1 bem conhecida no meio cultural fortalezense, cidade que o viu nascer no dia 29 de junho de 1967. Estreou na literatura em 2005 com o romance <em>Um conto no passado: cadeiras na cal\u00e7ada<\/em>, ganhador do I Edital de Incentivo \u00e0s Artes da Secretaria da Cultura do Estado do Cear\u00e1 (Secult). Desde 2007 publica cr\u00f4nicas no caderno Vida &amp; Arte do jornal <strong>O POVO<\/strong>. Em 2007, a colet\u00e2nea de contos <em>Os acangapebas<\/em> foi contemplada pelo II Edital de Incentivo \u00e0 Cultura da Funcet (Atual Secretaria de Cultura de Fortaleza). Mais tarde, em 2011, a obra receberia o Pr\u00eamio Osmundo Pontes de Literatura da Academia Cearense de Letras, sendo lan\u00e7ado em 30 de maio de 2012, em solenidade na C\u00e2mara Municipal de Fortaleza, quando o autor recebeu a Medalha Botic\u00e1rio Ferreira em reconhecimento pelos servi\u00e7os prestados \u00e0 cultura na cidade de Fortaleza.&nbsp; \u00c9 tamb\u00e9m autor dos infanto-juvenis: <em>A bola da vez<\/em> (2008), <em>A casa de todos e de ningu\u00e9m<\/em> (2009),<em> Os tributos e a cidade<\/em> (2011), <em>A galera se liga em cidadania!<\/em> (2014) e <em>Boto cinza cor de chuva<\/em> (2014), todos pelas Edi\u00e7\u00f5es Dem\u00f3crito Rocha (EDR).<\/p>\n<p>A leitura de <em>Cr\u00f4nicas absurdas de segunda<\/em> me fez experimentar momentos de puro deleite, em que pude, ciceroneado pelo Raymundo Netto, desfrutar da companhia e, em certas ocasi\u00f5es, da intimidade de diversos escritores cearenses, vivos ou j\u00e1 falecidos. O livro oferece uma oportunidade, que eu diria rara, de contato com fatos e aspectos pitorescos da cidade de Fortaleza, al\u00e9m de trazer a lume muitos autores esquecidos ou, em alguns casos, pouco conhecidos ou at\u00e9 desconhecidos. S\u00f3 por isso, j\u00e1 valeria o tempo despendido na leitura. &nbsp;Entretanto, al\u00e9m do aspecto informativo da obra, o leitor ter\u00e1 em m\u00e3os pouco mais de duzentas p\u00e1ginas de puro prazer, proporcionado pela beleza e leveza das cr\u00f4nicas, sempre temperadas por maravilhosos toques de humor, caracter\u00edsticos do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre me foi complicado encarar a morte. Refiro-me \u00e0 morte total, plena. 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