{"id":5646,"date":"2015-09-03T21:15:27","date_gmt":"2015-09-04T00:15:27","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=5646"},"modified":"2015-09-03T21:15:27","modified_gmt":"2015-09-04T00:15:27","slug":"o-inventor-de-verdades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2015\/09\/03\/o-inventor-de-verdades\/","title":{"rendered":"O inventor de verdades"},"content":{"rendered":"<p>Creio que n\u00e3o gire muito bem da bola. Talvez tenha na cabe\u00e7a um parafuso a menos ou, pelo menos, frouxo, como se diz por a\u00ed. O fato \u00e9 que o sujeito \u00e9 mesmo esquisito. Quanto se aproxima de algu\u00e9m numa rodinha de amigos, se por ventura h\u00e1 algum desconhecido, todo sorrisos, vai logo estendendo a m\u00e3o e se apresentando: \u201cSatisfa\u00e7\u00e3o, Magella.\u201d Se algu\u00e9m se arrisca a explorar melhor o nome, ele vai logo dizendo de sa\u00edda: \u201cMagella com g e dois eles\u201d. Sempre completa: \u201cOs dois eles foi inven\u00e7\u00e3o do escriv\u00e3o, quando eu fui registrado, l\u00e1 no cart\u00f3rio de Massap\u00ea, onde nasci pela gra\u00e7a de Deus e com as b\u00ean\u00e7\u00e3os da Virgem Maria.\u201d Registre-se que n\u00e3o se percebe nenhuma m\u00e1goa em sua voz quando menciona o fato. Chega-se quase a notar um qu\u00ea de orgulho, como se a letra grafada em duplicidade lhe conferisse uma certa import\u00e2ncia, diferenciando-o de outros tantos Magelas deste mundo de Deus.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do parafuso a menos se deve a uma frase que ele sempre traz nos l\u00e1bios, disparada nos momentos mais inveross\u00edmeis e \u00e0 queima-roupa, deixando seus interlocutores totalmente desarmados e sem ter pra que argumentos apelar: \u201cSou um inventor de verdades\u201d.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi sempre assim. Amigos mais pr\u00f3ximos dizem que o simp\u00e1tico e destrambelhado Magella deu pra esse neg\u00f3cio de inventor de verdades de uns vinte anos pr\u00e1 c\u00e1. \u00c9 que o sujeito sempre foi, como se diz em boa g\u00edria, fissurado por leitura. O homem l\u00ea tudo que lhe cai \u00e0s m\u00e3os. \u00c9 doido por livros. Um desses tipos a quem costumam chamar de leitor on\u00edvoro. Pra ele n\u00e3o h\u00e1 livro t\u00e3o ruim a ponto de n\u00e3o se poder tirar algo de proveitoso, por m\u00ednimo que seja.<\/p>\n<p>Acontece que, de tanto ler, parece que Magella come\u00e7ou a misturar as coisas. Sua cabe\u00e7a ficou assim meio confusa, sem distinguir l\u00e1 muito bem em que devia ou n\u00e3o acreditar. A primeira conclus\u00e3o a que chegou, a duras penas e \u00e0 custa de muita pestana gasta pelo debru\u00e7ar-se por dias seguidos, horas a fio, sobre aquele infind\u00e1vel mundo de palavras, foi que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, em \u00faltima inst\u00e2ncia, aquilatar o que definitivamente possa ser declarado verdade.<\/p>\n<p>\u201cVixe!\u201d, exclamaria Magella, com aquele espanto pr\u00f3prio de quem, de repente, se d\u00e1 conta de que est\u00e1 perdido num labirinto que nem Teseu, sem uma Ariadne que lhe venha socorrer.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que ele come\u00e7ou a remexer no seu ba\u00fa de verdades convenientes. Porque, n\u00e3o sei se j\u00e1 se deram conta disso, mas toda pessoa tem a sua cole\u00e7\u00e3ozinha de verdades convenientes, sempre sacadas nos momentos mais periclitantes.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, no ba\u00fa do Magella cabem muitas verdades. Se, por um lado, para ele as coisas se complicavam um pouco por misturar tantas disparidades, o que n\u00e3o raras vezes acabava fundindo-lhe a cuca, em contrapartida, devido ao seu interesse por tantos e t\u00e3o diferentes autores, com o tempo ele foi adquirindo a rara habilidade de reunir tranquilamente figuras t\u00e3o diferentes quanto, por exemplo, Santa Teresa d\u2019\u00c1vila e Clarice Lispector.<\/p>\n<p>Pois foi num desses momentos de cuca fundida, em que se viu totalmente perdido e alheado no labirinto de si mesmo, que lhe saltaram bem \u00e0 frente n\u00e3o apenas uma, mas duas Ariadnes.<\/p>\n<p>Os fios salvadores vieram-lhe em duas frases l\u00edmpidas e claras. A primeira lhe foi soprada pela monja carmelita nascida h\u00e1 quinhentos anos, Santa Teresa d\u2019\u00c1vila: \u201cN\u00e3o dou aten\u00e7\u00e3o \u00e0 raz\u00e3o, que n\u00e3o passa de uma louca modesta\u201d.<\/p>\n<p>O complemento viria da escritora brasileira vinda de al\u00e9m-mar, Clarice Lispector: \u201cN\u00e3o quero ter a terr\u00edvel limita\u00e7\u00e3o de quem vive apenas do que \u00e9 pass\u00edvel de fazer sentido. Eu n\u00e3o: quero \u00e9 uma verdade inventada\u201d.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, cada vez que a raz\u00e3o tenta dar as r\u00e9deas, tolhendo-lhe a liberdade de ousar suas elucubra\u00e7\u00f5es pelo fertil\u00edssimo mundo da imagina\u00e7\u00e3o, Magella abre o velho ba\u00fa, arranca de l\u00e1 aquelas duas verdades convenientes e, munido delas, segue pela vida a fora, l\u00e9pido, de alma leve, inventando, ele pr\u00f3prio, suas verdades&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Creio que n\u00e3o gire muito bem da bola. 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